segunda-feira, 12 de abril de 2010

Homenagear Spínola?


A Câmara Municipal de Lisboa deu o nome de Avenida Marechal António de Spínola à via rápida que prolonga a Avenida Estados Unidos da América. A ideia fora de João Soares, Santana Lopes ratificou-a e António Costa concretizou. O socialista presidente da Câmara da capital promete agora erigir uma estátua ao homem do monóculo.

Sim, eu sei. Foi Presidente da República depois do 25 de Abril, na sequência do seu papel relevante nas movimentações que levaram ao triunfo do MFA, e de uma actividade oposicionista que data, pelo menos, de 1973. Mas.

Enquanto Presidente da República, não tentou garantir uma transição pacífica nem serenar os ânimos. Pelo contrário, desestabilizou o processo, quer a 28 de Setembro de 1974, quer a 11 de Março de 1975. E não hesitou em colaborar com uma organização terrorista de extrema-direita, que cometeu crimes de sangue em território português. Como em 1970 não hesitara em fazer uma incursão militar em território estrangeiro. São métodos e práticas que dificilmente se podem considerar inspiradores para os presidentes de uma República democrática. Se estivemos próximos de uma guerra civil, a ele o devemos. Se a evitámos, devemo-lo a Costa Gomes e Melo Antunes. Acho eu.

O actual presidente, pelo contrário, acha que Spínola «lutou por um Portugal verdadeiramente democrático e pela construção de um Estado de Direito assente no respeito pela dignidade da pessoa humana». Mas o projecto político de Spínola, em bom rigor, não era a democracia europeia e pluralista que hoje temos. Pretendia uma federação com as colónias, o que seria impossível e não teria permitido a adesão à União Europeia. E tentou evitar que os partidos comunistas fossem legalizados. E já nem falo de ter estado junto do Exército nazi na frente leste, lá por 1941. Ou de ter sido voluntário para Angola, em 1961. As pessoas mudam, e terá sido para melhor. Mas. Homenageá-lo?