sábado, 3 de abril de 2010

Prós & Contras: "quem manda nas escolas?"

Já há quinze dias (num debate sobre o PEC e as contas públicas) havia notado, e esta semana só o confirmei: o programa "Prós & Contras", que antigamente alguém chamava "Prós & Prós", está cada vez mais "Contras & Contras". Dantes, praticamente em cada semana estava lá um ministro; agora, para debater a educação, estavam (no último programa, disponível aqui), nada menos que Nuno Crato (apesar de tudo o melhor), Helena Matos e... Paulo Portas. Habilidoso, o líder do CDS conseguiu fazer passar a sua propaganda, a mensagem do seu partido, sem nunca a este se referir. Insistiu que na escola "não é admissível nenhum tipo de violência: violência contra professores, violência contra funcionários..." Não acabou. Ficámos sem saber se Portas toleraria a violência contra os alunos (desde que dirigida por professores ou funcionários).
Foi engraçado ouvir os alunos. No que se segue, para que fique claro, a identificação do quadrante político dos alunos é uma "adivinha" minha. Ninguém se identificou como membro de nenhum partido. Na primeira parte, falou (timidamente) um estudante nitidamente apoiante do PS e das políticas de Maria de Lurdes Rodrigues. Os críticos do "eduquês" e os seus colegas de partidos mais à esquerda defendem posições totalmente opostas, mas ambos reuniam-se para criticarem a anterior ministra - a sua inabilidade política reflete-se em, não ter sabido tirar proveito desta reunião. Na segunda parte, por volta dos 11 min, falou (julgo eu) um estudante apoiante do PCP. Refiro-o pela forma como se quis demarcar do estudante anterior e, pese algum nervosismo, pela forma como lia tudo o que queria dizer, sem se afastar nada do planeado. Logo depois, falou Pedro Feijó, assumidamente do Bloco de Esquerda, apresentado pela apresentadora como "o rapaz que estava doido por falar". O à-vontade a falar era notável. Fixem este nome: daqui a uns anos teremos ali deputado. Entretanto quer estudar Física... Tanto Feijó como a generalidade dos intervenientes pediram (em graus diferentes) "mais autonomia" para as escolas. Fossem professores e estudantes ou fossem só professores a fazê-lo, os programas deveriam ser decididos localmente e não pelo ministério. Gostaria de saber o que pensam os proponentes desse tipo de medidas desta reescrita da História no Estado do Texas (já referida pelo Filipe Castro).

6 comentários :

  1. Pelo que percebi foi o Texas Board of Education, ou seja, o Estado do Texas, que decidiu obrigar as faculdades a re-escrever a história. Esta medida centralista mostra bem o perigo de centralizar as decisões sobre educação e não dar autonomia às faculdades - sujeita-se a educação às vontades indoutrinadoras dos fanáticos religiosos que gerem o Texas e não se dá hipótese de que haja sequer uma única faculdade que recuse as ordens centralizadoras e que possa ser escolhida pelos alunos e professores mais interessados em receber uma boa educação do que serem indoutrinados.

    O Filipe Castro poderá dizer se em Austin não houve alguma resistência a esta imposição do Estado.

    Seria excelente se houvesse mais autonomia das faculdades. Assim uma faculdade interessada na educação poderia recusar-se a obedecer a leis que vêm de um estado central com outras prioridades que não a de providenciar a melhor educação possível.

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  2. Obviamente quando disse universidades queria dizer escolas em geral.

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  3. O João Branco acha realmente que os curricula e os programas podem ser decididos localmente, de forma «descentralizada»?

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  4. João, como sempre tu estás preocupado com os estudantes que não podem escapar às diretivas do Estado (do Texas, neste caso). Estás preocupado com o indivíduo que, neste caso, não pode escolhar livremente a sua educação.
    Eu acho que as pessoas não devem ter a liberdade de escolherem uma educação errada (algo que a ti não te diz nada). Eu estou preocupado com os estudantes que têm a liberdade (neste caso, é uma liberdade dos seus pais - para os estudantes é uma violência) de "escolherem" o que podem aprender e de que forma o podem aprender em matérias tão essenciais e horizontais como a História ou a Biologia (não digo que tal liberdade não possa existir em outros domínios menos horizontais).
    Em ciência, a liberdade é uma parametrização da nossa ignorância, João.
    Claro que para fazer ciência, para produzir conhecimento, é preciso liberdade. Mas garanto-te que há muito mais liberdade numa escola pública, do Estado, do que numa escola privada, principalmente se for religiosa.

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  5. Em Austin festejou-se esta medida: o governador, Rick Perry, é da extrema-direita dura (é um dos milhares de evangélicos que acham que a Bíblia não diz nada sobre a democracia; e mais um homofóbico militante que não é gay - Deus nos livre! - mas volta e meia é apanhado com eles na cama).

    O Texas Board of Ed. não tem nenhum poder institucional sobre o resto do país, mas como é o maior cliente de livros de estudos, as editoras tendem a seguir as indicações do Texas.

    No fim do dia acho que o João tem toda a razão: quanto mais regulamentos, mais poder tem o estado. Os ministérios da educação deviam dar directivas e deixar as escolas decidir os curriculos e os livros, apoiar as escolas pobres (um estudo recente aqui nos EUA sugere que o sucesso escolar depende do ambiente em casa; não tem quase nada que ver com a qualidade das escolas), e premiar os professores e as escolas com melhor desempenho. O problema é avaliar o desempenho de escolas e professores... :o)

    Aposto que os professores portugueses são óptimos, como os dos outros países todos, mas num país em que o mérito não é premiado as pessoas, mesmo as melhores, acabam por baixar os braços.

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  6. Pois, Filipe, em Portugal os professores queixam-se das diretivas do ministério, mas não querem o reconhecimento do mérito (que obviamente implica uma avaliação, e que nem todos cheguem ao topo da carreira).
    As escolas decidirem aspetos como horários e metodologias, tudo bem. Agora os programas e currículos? Para além de colocar os alunos numa situação de desigualdade (algo que me parece inaceitável numa escola pública), tem consequências práticas que são um problema - inviabiliza qualquer tipo de avaliação nacional, por exemplo.

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