domingo, 18 de abril de 2010

A minha política é o trabalho dignificado e com direitos para toda a gente

O que se escreve sobre a “tolerância de ponto” a propósito da visita do Papa em dois conhecidos blogues da esquerda portuguesa?
No Cinco Dias, para o patusco António Figueira “mais um feriado é sempre mais um feriado”. Os outros que trabalhem. Que é como quem também diz: menos um imposto pago é sempre menos um imposto pago (os outros que paguem). E assim por diante. E ainda vem com a inevitável comparação com os feriados religiosos. Os feriados religiosos até poderiam nem ser obrigatórios (é outra discussão) mas, mesmo sendo-o, estão previstos e planeados. Não são uma medida avulsa e casuística. Não afetam a economia por isso. Mas melhor ainda é quando o António deseja que festividades de diversas religiões fossem reconhecidas como feriados e, reconhecendo que este é um país de “caretas” (por sinal o António deve ser o tipo mais bota-de-elástico da blogosfera portuguesa) ameaça… emigrar! Caro António, sugiro que imprimas esta declaração e a vás entregando junto com os pedidos de visto de trabalho, a ver qual país é que te aceita…
Já no Vias de Facto, Miguel Serras Pereira insurge-se contra um grupo do Facebook já aqui mencionado pelo Ricardo Alves: “eu trabalho e não quero tolerância de ponto no dia 13 de Maio”. Não parece preocupar Miguel Serras Pereira que haja trabalhadores (não funcionários públicos) que não tenham direito à tal tolerância. Nem que alguns, precários a recibos verdes, que até podem ser católicos e, legitimamente, gostassem de tirar um dia de férias para irem ver o Papa, não o possam fazer. E não parece preocupá-lo, também, que haja funcionários públicos que queiram trabalhar (será seguramente o que eu vou fazer). Não passa pela cabeça do Miguel Serras Pereira, pelos vistos, que haja quem queira trabalhar, e que fazer um protesto, ou uma greve, nunca é (ou nunca deve ser) sinónimo de dizer-se que não se quer trabalhar. Bem pelo contrário – por isso, e só por isso, é ofensiva a expressão “a minha política é o trabalho”, despropositadamente citada por Miguel Serras Pereira, que troca tudo. Passemos por cima do que Serras Pereira considera “politicamente desastroso”: “dada a crise que atravessamos, não podemos perder tempo de trabalho” (pelos vistos para Serras Pereira a crise não existe ou, se existe, os outros – não necessariamente os ricos -que a paguem: ele é que não). O autor do Vias de Facto sugere protestos alternativos, “puxando um pouco pela imaginação”. (Sempre a “imaginação” a descredibilizar a esquerda. Pior que a “imaginação” só o “sonho”.) Que protestos seriam? Um “encontro-convívio-jornada de onde saísse a reivindicação de transformar essa data num feriado anual celebrando a "liberdade de consciência" e/ou a "cidadania laica", que, de resto, a Constituição em vigor consagra.” Quererá Serras Pereira um feriado por tudo o que a constituição em vigor consagra? Mas, mesmo pondo esta questão de parte, atentemos no essencial: o Papa visita Portugal (um direito inquestionável, desde que não seja pago pelos nossos impostos). Só os católicos o deveriam receber (e não o Estado). A resposta de quem defende a laicidade deveria ser a indiferença (tornando este um dia normal – de trabalho). Serras Pereira propõe que o país passe a dedicar um feriado anual a esta data? O Papa deveria sentir-se mesmo importante… E propõe que toda a gente celebre este evento… com um “encontro-convívio-jornada”. O saudoso Odorico Paraguassu, na sua sabedoria, chamava à sua oposição “esquerda cervejista”. O Miguel Serras Pereira assume-se como um membro de pleno direito da “esquerda cervejista”. A este ponto chegámos.
Recordo, a propósito, uma ocasião em que assisti a um debate, na Associação de Estudantes do Instituto Superior Técnico, onde participou um dos membros do Vias de Facto, Diana Andringa. Aproximavam-se na altura, todos o pressentiam, tempos (que viriam a ser sangrentos para alguns colegas meus) de combate às propinas, no fim do cavaquismo, e Andringa deixou-nos (eu era caloiro) um conselho que eu nunca esqueci até hoje, e que foi mais ou menos assim: “não bebam e nem joguem às cartas nas manifestações – dá um mau aspeto do caraças”. Miguel Serras Pereira, pelos vistos, quer transformar os protestos em “encontros-convívio”, provavelmente com bebida e jogos de cartas. A Diana Andringa que lhe ensine alguma coisa, se conseguir.
E assim vai certa “esquerda”: só serve para pedir mais um feriadinho. A “jornada suplementar pela batalha da produção” em que se tornou o feriado de 10 de Junho de 1975 (numa iniciativa da Intersindical) seria impensável hoje, por muitas razões (a principal das quais a que cada vez menos pertence ao povo o que o povo produz). Mas, mesmo que pertencesse, uma “batalha da produção” como resposta à crise seria impensável para quem “mais um feriado é sempre mais um feriado”. Quem pensa assim, mesmo à luz da doutrina comunista, não produz muito. E também não lhe deveria pertencer muito.

12 comentários :

  1. Cidadão Filipe Moura,
    você disstorce completamente o sentido do meu post e, a seguir, combate um fantasma que, vá-se lá saber porquê, resolveu tecer em torno do meu nome.

    Limitei-me a dizer que, apoiando que se contestasse a concessão de tolerância de ponto em honra do Papa, essa contestação não devia ser feita por meio de considerandos que, voluntária ou involuntariamente, pudessem sugerir que, se trabalhássemos mais, teríamos menos crise, como se a crise em causa fosse da responsabilidade da pouca diligência dos trabalhadores, ou como se a resposta democrática à crise não passasse por coisas diferentes de não sei que batalha da aqssiduidade produtiva.

    Quanto à esquerda "cervejista", tudo o que tenho escrito de há muitos anos a esta parte insiste em que as reiviondicações que visem democratizar as instituições e a economia terão de ser reivindicações de responsabilidades a assumir pelos cidadãos. A cidadania governante que estipulo como modo de republicanização do poder político e económico assenta justamente na recusa da delegação permanente do exercíco das liberdades, direitos e responsabilidades tanto na esfera do poder polítcio stricto sensu como na esfera da "economia política" e do trabalho.

    De resto, o Ricardo Alves compreendeu bem o meu ponto de vista e confirmou o seu acordo comigo no essencial, como você poderá verificar visitando brevemente a caixa de comentários do meu post, alvo dos seus impropérios e cegueira obstinadamente voluntária. E o mesmo se diga do "humor" com que sugiro palavras de ordem contra a tolerância de ponto. Também nisso estou bem acompanhado, por camaradas de luta como o Ricardo, a Joana Lopes - por exemplo.

    Estou pronto a discutir, dentro das minhas disponibilidades de tempo e das minhas capacidades, estas e outras questões. Mas não com quem, para começo de conversa, procede a amálgamas absurdas (entre o meu post e o de alguém como o António Figueira), recorre à grosseria gratuita e renega os procedimentos mínimos indispensáveis entre cidadãos apostados na democracia e na extensão e aprofundamento de uma deliberação republicana. Por isso, se lhe respondo aqui, é sobretudo tendo em atenção os leitores deste blogue de que me tornei leitor regular desde que tomei conhecimento da sua existência. Quanto a si, cidadão, faça por honrar o vocativo que aqui lhe dou, e por observar um mínimo de maneiras (há formalidades que são mais substantivas do que parece) se quiser falar comigo. E chega.

    msp

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  2. Miguel Serras Pereira,
    quem amalgama, distorce e troca é você, no seu texto, conforme eu explico, ao invocar despropositadamente o slogan "A minha política é o trabalho" a propósito de um evento que nem é uma greve (e sim, tem muito a ver com o direito ao trabalho). Quem nos pede mais sacrifícios diz que devemos (alguns, privilegiados, os funcionários públicos - mais ainda se forem de Lisboa ou Porto) abrir mão deles por um dia, só porque um papa nos visita. Acha isto bem? Não tem nada a ver com "a política ser o trabalho", nem com a falta de trabalho como origem da crise.

    Se lhe chamo "esquerda cervejista", é baseado nas suas próprias propostas. Quem propõe "transformar a tolerância de ponto prevista para o dia 13 de Maio num encontro-convívio-jornada de onde saísse a reivindicação de transformar essa data num feriado anual" é você - são palavras suas. O resto é o meu comentário às suas propostas. Não creio que chamar a alguém "esquerda cervejista" seja uma "grosseria gratuita". De resto, nem vejo onde tenha sido grosseiro.

    Quanto a amalgamar o seu post com o do António Figueira, embora eu saiba bem que você e o António Figueira são pessoas bem diferentes (nunca afirmei o contrário), a verdade é que na prática ambos propõem o mesmo: que não se trabalhe no dia 13 de Maio. Sendo que você até vai ao ponto de propor um feriado anual! Ou não é verdade?

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  3. O cidadão Filipe Moura insiste em não querer ver a minha posição.
    Fundamentalmente, contesto , de um ponto de vista republicano e laico, a concessão de tolerância de ponto a pretexto da visita do Papa.
    Depois, digo, recorrendo ao humor, que, se a medida for por diante, deveremos aproveitar para lhe inverter o sentido, reivindicando por exemplo um feriado anual da liberdade de consciência e da laicidade para essa data. Mas estas ou outras reivindicações ou acções sugeridas inscrevem-se na denúncia do primeiro ponto referido. Usam o mesmo estilo e a mesma inspiração que presidem, por exemplo, ao inquérito que o Esquerda Republicana publica, interrogando: "COMO DEVE O PAPA SER RECEBIDO (RESPOSTA MÚLTIPLA)?"
    Ao nível mais importante, o que sustento é que não devemos deixar que as razões que opomos à concessão da tolerância de ponto sejam contaminadas por considerações "económicas" articuladas em termos que poderiam ser os usados pelos responsáveis pela ordem económica antidemocrática que hoje nos governa em detrimento da liberdade e da igualdade republicanas.
    Tudo isto está preto no branco no post que publiquei e que você cita. Remeto os leitorers desta caixa de comentários para o seu texto e para a discussão que suscitou no Vias de Facto.

    msp

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  4. Eu li-o muito bem. Li-o tanto que até o transcrevo. Você "contesta", "de um ponto de vista republicano e laico" (é a sua opinião sobre o seu ponto de vista - mas não é nenhum exclusivo de republicanismo ou laicidade) "a concessão de tolerância de ponto a pretexto da visita do Papa." Muito bem. E que propõe em alternativa? Transcrevo mais uma vez: "transformar a tolerância de ponto prevista para o dia 13 de Maio num encontro-convívio-jornada de onde saísse a reivindicação de transformar essa data num feriado anual". E agora quer comparar esta sua proposta com um inquérito deste blogue onde se sugere que o papa seja recebido com tomates podres ou tartes de creme. Diz que têm "o mesmo estilo e a mesma inspiração"! Eu nunca estudei estilística nem nada que se pareça, mas nem tartes de creme nem tomates podres me parecem "o mesmo estilo" de um "encontro-convívio-jornada". E só os dois primeiros, a meu ver, desde que não levados a sério, podem ser classificados como "humor". De qualquer maneira talvez dê para propor ao Ricardo Alves acrescentar ao inquérito esta possibilidade: receber o papa com um "encontro-convívio-jornada"!

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  5. Filipe,
    diferentes pessoas têm diferentes sentidos de humor.

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  6. "que haja trabalhadores (não funcionários públicos) que não tenham direito à tal tolerância"

    Depende dos patrões desses trabalhadores.

    A tolerância de ponto é uma dispensa de serviço que o Estado concede aos seus trabalhadores. Nada impede outros patrões de também concederem dispensa de serviço aos seus trabalhadores nesse (ou noutros) dias.

    De facto, não duvido de que nesses dias haverá alguns patrões que fecharão as suas lojas e darão um dis de folga aos seus trabalhadores.

    Luís Lavoura

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  7. Há um «efeito bola de neve» nestas situações - serviços que dependem directamente do Estado, por exemplo, podem fechar.

    E, muito importante, a partir do momento em que as escolas fecham, os pais têm que ficar com os filhos em casa. E portanto vão pedir «tolerância de ponto» aos patrões. E eles vão conceder a esses pais. E depois há outro serviço que não funciona por causa disso. E etc.

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  8. Não haverá também por parte do governo uma tentativa de dar um "rebuçado" aos trabalhadores da funçao pública para tentar "compensar" cortes e congelamentos?

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  9. Como por algum erro técnico o meu último comentário anterior saiu truncado, reponho-o aqui na íntegra.

    Ao contrário do que Fm escreve, eu não me propus receber o Papa fosse de que maneira fosse.
    Não faço questão de me citar, mas vair ter de ser.

    A minha posição tem um momento forte, e de princípio, que diz o seguinte:


    "Assim, o mínimo que poderíamos sugerir aqui seria que se deixasse cair o "Eu trabalho" da palavra de ordem - que evoca, de resto, a divisa reaccionária de todos os fura-greves de sempre: "A minha política é o trabalho" -, fazendo-a dizer apenas: "Não quero tolerância de ponto no dia 13 de Maio". Ou qualquer coisa como: "Tolerância de ponto para ir a Fátima com o Papa? Não, obrigado"; "tolerância de ponto para a campanha papal do Cavaco? Não, obrigado"; "tolerância de ponto para aclamar o chefe da cruzada da Igreja contra as liberdades democráticas? Não, obrigado"; etc., etc."

    Depois, interrogo-me sobre outras alternativas "condicionais" e que apresento como hipóteses a debater e entre as quais aparece a sugestão que o FM não me perdoa e a que resume a minha intervenção:

    "Outras alternativas de luta seriam, no entanto, possíveis, puxando um pouco pela imaginação. Por exemplo, fazer uma campanha no sentido de transformar a tolerância de ponto prevista para o dia 13 de Maio num encontro-convívio-jornada de onde saísse a reivindicação de transformar essa data num feriado anual celebrando a "liberdade de consciência" e/ou a "cidadania laica", que, de resto, a Constituição em vigor consagra. Do mesmo modo, poderíamos pensar em palavras de ordem que, postas a circular desde já, equivalessem, com mais inspiração do que aquela de que de momento disponho, a "Festa da Liberdade de Consciência, sim; Tolerância de Ponto Confessional, não"; "Feriado da Cidadania Laica, sim; Missas de Estado, não" - e assim por diante."


    E é tudo.

    msp

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  10. o ridiculo do movimento tbm liderado por MVdA e bloquistas de esquerda ... Não passa dos 696 membros.

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  11. Que eu tenha dado conta, o MVdA não é membro desse grupo.

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