quarta-feira, 14 de abril de 2010

Mário Soares sobre a ICAR

Mário Soares nunca foi um anticlerical. Pelo contrário, sempre se orgulhou de ter enjeitado essa parte da herança do PRP de que tantos, disparatadamente, o consideram fiel depositário. E subitamente, aos 85 anos, descobre que a ICAR é criticável.
  • «Hoje, a Igreja Católica está a ser acusada - e todos os dias surgem, nos jornais internacionais, novos casos escandalosos - pela reconhecida pedofilia de muitos padres e mesmo bispos que exerceram abusos inqualificáveis sobre menores, deles dependentes. A Igreja - e o próprio Papa - pediram perdão às vítimas, reconhecendo a verdade dos abusos. Foi um passo importante. Mas será suficiente pedir perdão? Não terá havido uma conjura de silêncio, para deixar na impunidade os sacerdotes que cometeram tais crimes? Há já denúncias, nesse sentido, que não excluem a própria pessoa do Papa, quando foi Presidente da Congregação para a Doutrina da Fé, no tempo de João Paulo II. (...) É, pois, de presumir que muitos casos tenham chegado ao seu conhecimento, sem que actuasse contra os delinquentes. Talvez porque achasse que a Lei Civil - que os condenaria, seguramente - não devesse impor-se à Lei Eclesiástica.
    (...) Logo no início do seu Pontificado beatificou mártires da guerra de Espanha, mas só do lado franquista, quando a Espanha hoje é uma democracia, e, reconhecidamente, houve mártires dos dois lados.»