sexta-feira, 30 de abril de 2010

Agruras dum imigrante

Tendo sido "convidado" a ficar nos EUA pelos meus colegas portugueses (sempre com protestos de elevada estima e consideração), não tenho a menor hipótese de alguma vez voltar para a Europa, e em Setembro conto pedir cidadania americana. Sobretudo porque aqui me tratam muito bem.

Mas sempre que vou à Europa, mesmo que por poucos dias, passo por um período doloroso de readaptação ao Texas. Esta semana foi difícil, com o nosso governador idiota – um proponente da secessão chamado Rick Perry – a anunciar que matou um coiote durante o seu jogging matinal, com a arma que traz sempre consigo, e os republicanos anunciaram que vão ganhar as proximas eleições e desfazer o trabalho de Obama, sobretudo a reforma da saúde, antes que ela possa entrar em vigor e as pessoas percebam o que é bom para elas.

Há quase doze anos aqui, continua-me a custar suportar a estupidez e a ignorância das pessoas, e a propaganda das rádios. Não mudou nada depois da exposição pública das indignidades e dos crimes contra a Humanidade perpetrados pelo bando de mafiosos a quem Dick Cheney – e o carocho George Bush – abriu as portas da Casa Branca. As estatísticas demonstram que apenas 30% dos americanos se revêem nos ideias “liberais” e laicos. Os outros 70% não se chocam com a multidão de desdentados que se auto-denominou “the Teabaggers” e promove pelo país os ideais do Ku-Klux-Klan.

Nem o ridículo de terem descoberto que entre a comunidade homossexual tea-bagging é uma prática que envolve a cara de um parceiro e os testículos do outro deteve o entusiasmo racista e selvagem de quem acredita que é possível reinstituir o caos do século XIX e trazer de volta a idade de ouro americana, quando não havia governo e os avós destes delinquentes faziam o que lhes apetecia.

Não há um único jornalista que se atreva a comentar esta realidade: nos EUA, tudo o que é público é excelente (o Smithsonian, o Park Service, a NASA, a NOAA, a NPR, a PBS, o Postal Service, os serviços do governo funcionam lindamente, comparados com os europeus, o Marine Corps, etc.), e tudo o que é privado é feito na China e não presta para nada. A Verizon é uma organização criminosa que vende um serviço cada vez pior e cada vez mais caro (a internet nos EUA está 3% mais lenta que em 2007), a Microsoft é um coito de anormais que vivem com a mãe e mudam esta porcaria deste Windows todas as semanas, sem que nada melhore, a Apple é um culto em que os membros compram tudo o que tenha a letra “i” à frente do nome e estão sempre prontos para morrer pelo Steve Jobs, os computadores Dell não prestam, as companhias de aviação são uma porcaria, sobretudo quando comparadas com as europeias, a saúde custa sete vezes mais que na Europa, as internacionais da comida envenenam os cidadãos, o Ronald McDonald mata MUITO mais gente por ano do que o Al-Qeida, a Monsanto é uma Camorra, as empresas petrolíferas também, as seguradoras também, e a Blackwater é uma organização criminosa ainda mais perigosa que a Goldman Sachs.

Mas os media não deixam que realidade se meta no meio da ideologia: o que é público é mau; o que é privado é bom.