quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Proselitismo: a minha vocação perdida!

No sábado passado fui visitado por duas senhoras Jeovás, muito simpáticas, que não deixei falar e a quem enchi as orelhas de conselhos e opiniões.

Disse-lhes que era agnóstico, que acreditava que todos os deuses eram invenções dos homens e que tudo o que era importante na Bíblia tinha sido resumido por um ateu espanhol chamado Miguel de Unamuno em oito linhas dum poema para crianças: “Anoche cuando dormia, soñé, ¡bendita ilusión!, que una colmena tenía, dentro de mi corazón; y las doradas abejas, iban fabricando en él, con las amarguras viejas, blanca cera y dulce miel.”

O resto eram, em minha opinião, tretas: as leis contra os mariscos e as febras e os chouriços e a sodomia e a impureza das mulheres, as ordens para matarmos os nossos filhos desobedientes à pedrada e violarmos as filhas dos nossos vizinhos, os medos, as culpas, os ódios, as vinganças, a conta astronómica para pagar por um serviço que não mandámos vir (Jesus matou-se por mim e agora tenho de dar 10% do meu ordenado à Igreja), nada disso fazia sentido na minha cabeça, sobretudo quando olhava para o cristianismo no contexto das outras religiões todas.

Fé?! Citei-lhes Nietzsche: qualquer curta visita a um asilo de malucos demonstra que a fé por si só não prova coisa nenhuma.

Amor?! Lembrei-lhes que nada divide mais as pessoas e nada lhes dá mais a ideia de serem melhores que os vizinhos: os que adoram o outro Deus, o que é falso, lembram-se?

Perguntei-lhes se sabiam de alguma ideologia que desencorajasse mais as pessoas de pensarem: não são os dogmas os piores inimigos da razão e da paz? Contei-lhes a história do Daniel Dennett: não é a bondade uma coisa muito mais palpável e sólida e susceptível de ser acarinhada e promovida do que a vontade de cada um dos deuses do panteão nacional (o dos judeus, o dos muçulmanos, etc.)?

A senhora da direita disse-me educadamente que tinha gostado muito de falar comigo, mas que se estava a fazer tarde e a senhora da esquerda apertou-me a mão com muita força e disse-me, contentíssima: “You are a very good man”. Fiquei a pensar que fiz a minha primeira conversão! :o) E agora estou a pensar em ir-me pôr à porta das igrejas.