segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Hitler e os livre pensadores alemães

A Liga dos Livre Pensadores Alemães foi fundada em 1881. Em 1930 tinha 500 000 membros. Foi encerrada na Primavera de 1933, por ordem de Adolf Hitler. A sede nacional foi transformada numa repartição para dar informações ao público sobre as igrejas.

Max Sievers (a principal figura do movimento livre pensador) seria guilhotinado em 1944. Quando Hitler se vangloriou, num discurso em Outubro de 1933, de ter «eliminado o movimento ateísta», era à dissolução da Liga dos Livre Pensadores que se referia.

Noutro discurso, em Agosto de 1934, Hitler afirmou: «o Nacional Socialismo não se opõe à Igreja nem é anti-religioso, pelo contrário, está no campo de um verdadeiro cristianismo. Os interesses da Igreja não podem deixar de coincidir com os nossos no nosso combate contra os sintomas de degenerescência no mundo de hoje (...)».

Ao contrário do que pretende Ratzinger, nem Hitler era ateu nem os nazis pretendiam «erradicar Deus da sociedade». A Concordata de 1933, que foi um triunfo para ambas as partes, aconteceu justamente porque os nazis (em que se incluíam católicos como Hitler e Goebbels) concebiam um lugar para as igrejas na sociedade alemã. E Hitler favoreceu os «Cristãos Alemães», um movimento protestante abertamente racista, que destacava os aspectos potencialmente anti-semitas e racistas do cristianismo.

É portanto uma mentira reles dizer que os nazis pretendiam «erradicar Deus da sociedade», como afirmou o papa romano.
[Diário Ateísta/Esquerda Republicana]

25 comentários :

Luís Lavoura disse...

"católicos como Hitler e Goebbels"

Eu li recentemente um livrinho em que se fazia uma breve resenha dos principais líderes nazis. Embora Hitler e Goebbels fossem de facto de origem familiar católica, nenhum deles era católico. Goebbels afastou-se explicitamente da religião dos seus pais (que eram católicos convictos, e na qual fôra educado), e Hitler também se estava nas tintas para o assunto.

Ricardo Alves disse...

Hitler foi padrinho do casamento católico de Goebbels. Em Dezembro de 1931, quando Goebbels tinha 34 anos e Hitler 42.

Luís Lavoura disse...

WOW, grande demonstração de catolicismo. Uma pessoa casa-se pela Igreja, portanto é católica. Outra pessoa é padrinho de tal casamento, portanto é católica.

Isso nem hoje é verdade, quanto mais em 1935, quando todos os casamentos eram religiosos!

Os pais de Goebbels eram católicos fervorosos, tanto que fizeram questão de educar Goebbels num colégio católico. É normal que, com tal família, Goebbels se casasse pela igreja, mesmo já não sendo crente. E é normal que o seu bom amigo Hitler aceitasse ser seu padrinho, ele que também era de extração católica (por ser austríaco), mesmo estando-se nas tintas para o catolicismo.

Ricardo Alves disse...

Lavoura,

«...em 1935, quando todos os casamentos eram religiosos...»

Desde 1874 que o casamento civil era obrigatório na Alemanha. A cerimónia religiosa era opcional.

Eu não exagero o catolicismo pessoal de Hitler ou Goebbels. Interessam-me mais as suas acções políticas - que não foram propriamente persecutórias do catolicismo. Pelo contrário, perseguiram os livre pensadores...

Luís Lavoura disse...

"perseguiram os livre pensadores..."

Max Sievers, referido neste post, era, além de livre pensador, comunista. Não admira que tenha sido perseguido, dado o ódio dos nazis aos comunistas.

Quanto aos outros livres pensadores, não sei. Não seriam também comunistas?

O que eu quero dizer é que os pensadores livres talvez tenham sido perseguidos, não pelas suas crenças religiosas, mas pelas suas opções políticas.

Ricardo Alves disse...

A Liga do Livre Pensamento foi dissolvida, e a sede encerrada. O facto é esse.

Não sei se o Luís Lavoura acha que o facto de o Max Sievers ter sido comunista torna a sua execução mais aceitável.

Anónimo disse...

A Concordata alemã não propriamente cumprida por Hitler... Terá sido até certo ponto, mas não para sempre.

Aliás, é justamente por isso que Pio XII escreve a encíclica Mit Brennender Sorge. Para se lamuriar do seu não cumprimento ao mesmo tempo que deixa no ar a possibilidade de vir a fazer alguma oposição como forma de alavancagem, com base na falsidade da premissa da superioridade ariana e não, como alguns católicos gostam de repetir ad nauseam, para condenar veementemente o nazismo e o anti-semitismo...

Foi uma habilidade política da parte do Partido Nazi colocar-se do lado dos conservadores quando isso foi vantajoso. Napoleão fez o mesmo. A Igreja preocupou-se apenas com os seus privilégios, como de costume...

Mas de facto, em traços gerais, concordo com o Luís Lavoura quanto ao facto de Hitler se preocupar com a religião - era apenas um cordelinho para puxar quando fosse necessário.

Luís Lavoura disse...

"o Luís Lavoura acha que o facto de o Max Sievers ter sido comunista torna a sua execução mais aceitável"

Torna, tendo em conta as execuções que, poucos anos antes, os camaradas de Max Sievers tinham perpetrado, por exemplo sobre os anarquistas em Barcelona em Maio de 1937.

Quem com ferro mata, com ferro morre.

Pedro disse...

Se todos formos partidários do "olho por olho, dente por dente" acabaremos todos cegos e desdentados.
Pedro Pedreiro.

Fireman disse...

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Pedro disse...

Caro Ricardo Alves,

Ainda que não esteja directamente relacionado com as palavras do Papa - mas porque todo o contexto político e religioso da época tem sido aqui discutido - transcrevo abaixo alguns parágrafos do livro História do Cristianismo - 2000 Anos de Fé (da Editora Civilização, escrito por 2 cristãos, um deles padre) que penso que podem ser úteis.

Suponho que já conheça muito do que aqui está dito, de qualquer forma:

“(...) Pio XI (1922-1939) trabalhou no sentido de desenvolver o ensino social da Igreja e iniciou uma série de concordatas com países, tais como a Polónia, a Itália e a Alemanha, numa tentativa de assegurar a liberdade para a Igreja e impedir a secularização da Europa. Nem todas estas negociações obtiveram sucesso. O acordo com Hitler em 1933 deu mais credibilidade aos nazis e não exigiu mais do que umas quantas promessas vãs por parte de Hitler; a perseguição nazi aos cristãos itensificou-se.”

“A princípio, os cristão alemães permaneceram passivos apesar da clara crença de Hitler no racismo, da sua hostilidade para com o cristianismo e, acima de tudo, do seu anti-semitismo. A maioria dos cristãos preferiu não desafiar Hitler; alguns católicos conservadores apoiaram activamente o regime, temendo que o comunismo fosse a única alternativa. Todos os movimentos católicos que se opuseram aos nazis não tardaram a ser dissolvidos ou oprimidos. Fundou-se um movimento protestante de cristãos alemães declaradamente nazis, cuja filosofia foi resumida por um dos seus líderes, o pastor Leutheuser: “Cristo veio até nós através de Adolf Hitler... nós temos apenas uma tarefa: sermos alemães e não cristãos.””

“ A invasão de Hitler à Polónia em 1939 iniciou a Segunda Guerra Mundial e deu origem à maior atrocidade cometida pelos nazis, o Holocausto dos Judeus. Hitler afirmava que até mesmo o cristianismo era uma conspiração judaica, declarando: “O mais duro golpe que alguma vez abateu a humanidade foi a chegada do cristianismo... [uma] invenção dos Judeus” [Segundo uma pesquisa rápida que fiz há quem admita que esta afirmação seja de Bormann e não de Hitler]. Apesar de muitos protestantes alemães e líderes católicos apoiarem Hitler, a oposição cristã sobreviveu na forma de movimentos, tais como o Círculo de Kreisau. Importantes leigos e clérigos alemães, tanto católicos como protestantes, pertenciam a este movimento e planearam a tentativa falhada para assassinar Hitler em 1944.”

Cordiais Saudações,
Pedro

salada religiosa disse...

não é pelas ligas pró-ateistas serem dominadas por marxistas
que elas foram extintas

foram-no para possibilitar uma aproximação à igreja, tal como Napoleão o fez na sua transição para o poder

quanto ao resto
havia uma ideologia que não era religiosa, a juventude hitleriana não era imbuida de ensino religioso contrariamente aos fascistas e à mocidade portuguesa

Ricardo Alves disse...
...E se não tivéssemos ido para a Flandres
Sidónio considerou a ida para a Flandres um massacre desnecessário
foi dos poucos
com lucidez
pró-germânico talvez fosse
mas foi dos poucos que viu que o povo tem aspirações diferentes

dos Afonsos e de outros expatriados de luxo em Paris
Diário de João Chagas

o meu avô ganhou dois primos mortos em la lys sobreviveu 66 anos a dois gaseamentos e a 4 balas no bucho

teve uma medalhita de cobre
e um emprego na nova guarda em 1920
um ano após regressar da Flandres
cuspiu os pulmões aos bocaditos


7000 homens na Flandres para que uns palermas dissessem cumprimos as nossas obrigações com os nossos aliados....pois
e hoje mais do mesmo
temos tido é mais sorte

salada religiosa disse...

ah e Bagão Félix ou Medina Carreira seriam melhores candidatos do que qualquer um dos actuais...
sejam de esquerda ou de direita, não interessa muito

para o papel que o presidente tem
seriam provavelmente mais merecedores desse nome do que os últimos 20 que Portugal teve

Nuno Gaspar disse...

Ó Ricardo,
Porque é que não disse que a execução Max Sievers, líder dos "livres pensadores alemães", foi ordenada por um juiz nazi de simpatias marxistas, Roland Freiser, que pela mesma altura ordenou a execução de um grupo de militantes de um movimento que agrupava várias tendências religiosas, "o Rosa Branca".
Espero que você não se pretenda historiador. Tem muito mais jeito para romancista.

Banda in barbar disse...

enfim e o que é que isso tem a ver
com o dito cujo ter sido marxista assim como milhões de alemães posteriormente nazificados

e com o fim da guerra desnazificados...

um homem não é só ideologia
a maior parte dos homens não pensa muito nisso
luta, mata e morre por causas e ideologias que não percebe

Banda in barbar disse...

Luís Lavoura disse... os anarquistas em Barcelona em Maio de 1937.Barcelona....

Quem com ferro mata, com ferro morre

isto não serve para a idade do cobre (vulgo Cu , quem tem Cu tem medo)

nem para a idade da pedra
quem com pedra mata com pedra morre?

estou cá com uma pedra...
não dá
não é uma verdade universal

Filipe Castro disse...

Parece-me descabido discutir aqui se a ICAR simpatizava com os nazis ou não, sem darmos 3 passos e olharmos para o contexto. A ICAR apoiou todos os regimes fascistas dos últimos 80 anos! Se não tivesse apoiado os nazis é que era estranho.

Filipe Castro disse...

Agora diz-se que JP2 e Bento 16 não tinham meios de saber sobre a pedofilia, nem tempo para investigarem e apanharem cada um dos milhares de pedófilos que a ICAR protegeu e mudou de paróquia durante os últimos 40 anos, mas não houve um único jesuita progressista que não tivesse sido investigado e perseguido desde que JP2 instituíu o anti-comunismo primário e a defesa descarada dos ricos na América Latina.

A ICAR é uma organização fascista por natureza e vocação. Democracia e pluralismo são inimigos tão perigosos da ICAR como o comunismo.

Ricardo Alves disse...

«Se todos formos partidários do "olho por olho, dente por dente" acabaremos todos cegos e desdentados.»

Aí está algo em que concordo consigo.

Ricardo Alves disse...

Ó Nuno Gaspar,
eu não sabia nem do marxismo do juiz nem da sua culpa exclusiva. Felizmente o Nuno esclareceu-me.

´brigadão!

Ricardo Alves disse...

Pedro (e outros): eu considero o nazismo o regime fascista que menos se apoiou/foi apoiado na/pela ICAR. Nada que se compare com o regime «nacional-católico» de Franco, por exemplo, ou até com o regime de Salazar.

Mas realmente Hitler apelava a sentimentos cristãos (ver o Mein Kampf), embora possivelmente não estivesse satisfeito com o «status quo» cristão (daí a criação de uma Igreja cristã racista).

João Moutinho disse...

O grande pecado da Igreja Católica face ao nazismo, como as outras instituições tradicionais (ou de cunho consevador) foi mais de omissão do que comissão.
A Igreja Católica (tal comoa Luterana) de alguma forma "desconfiava" do nazismo e o sentimento era recíproco.
Assim a hostilidade nunca foi aberta.
Após a ocupação da França em 1940 as SS destruiram todos os crucifixos das Igrejas, tarefa essa que não seria dada à aristrocrat e prussiana Wermacht.

dorean paxorales disse...

sabe-se lá. o hitler dizia o que lhe apetecia.
agora, os deutsche christen gostavam tanto de católicos como de judeus. acho eu.

Ricardo Alves disse...

Sendo racistas, os deustsche christen gostavam muito menos de judeus.

dorean paxorales disse...

ah, então tá tudo bem :)))