terça-feira, 24 de maio de 2011

O contexto da campanha e algumas especulações

Não acho que as campanhas eleitorais sejam todas pouco esclarecedoras. Esta, para mim, tem sido útil. Fiquei a saber que a «esquerda radical» tinha razão em 2009 quando defendia cortes nos benefícios fiscais e o fim das «Parcerias Público Privadas». Também desconfio que em 2013, ou já em 2012, se descobrirá que quem defendia a renegociação dos juros da dívida não era irresponsável mas estava apenas e somente a ver mais longe, mais cedo.

Mais importante ainda, a partir da crise actual passou a ser novamente legítimo questionar a União Europeia realmente existente, a predominância da Alemanha e da Kaiser Merkel (o «Directório» já lá vai...), e uma União monetária mas não política. Mas o Portugal endividado será ainda menos soberano do que o Portugal integrado, e só quando a Grécia cair saberemos realmente o que se seguirá.

Tendo tido razão, a esquerda não terá votos (a crer nas sondagens). Paradoxo? Talvez não. Os resultados eleitorais incluem o eleitorado indefectível de qualquer partido (milhão e meio para cada PSD e PS, duzentos ou trezentos mil para cada partido médio), e uns bons dois milhões de votos mais flutuantes do que geralmente se imagina. Mas é esse eleitorado flutuante que decide as eleições, e provavelmente de forma bem pouco ideológica, mais apostado em protestar aqui ou apoiar uma eventual solução de governo ali. Na Primavera quente de 2011, tanto o «voto flutuante de protesto» como o «voto flutuante de governo» parecem estar a fugir para a direita (novamente, a acreditar nas sondagens). E se faz sentido que o voto de protesto não seja no PS, é mais estranho que abandone a esquerda radical. Quanto ao voto que aposta em apoiar uma solução de governo, dificilmente irá para um PS liderado pelo Sócrates que todos enjeitam. E muito menos para uma CDU e um BE que parecem fazer gala em não especificar em que condições e sob que limites formariam governo com o PS.

(Mas as pessoas devem é votar o mais próximo possível das suas convicções. Tudo o resto introduz ruído no sistema.)

9 comentários :

  1. num post diferente sobre um tema semelhante, já aqui disse ao JV que as propostas que indicas devem ser categorizadas (do possível ao lírico):

    o fim dos benefícios é decisão apenas do governo. fácil de exectuar e que já devia ter sido feito há muito. o mesmo para o fim de novas PPPs.

    o primeiro problema surge quando nos referimos às PPPs em curso. exactamente como queres acabar com elas? noto que renegociar os contratos implica que haveria interesse, do segundo P, em fazê-lo; e romper os contratos implica um gasto do estado que tenho muitas dúvidas estar em posição para poder fazer.

    o segundo problema diz respeito à renegociação dos juros (da dívida nem imagino em que condições poderíamos ser nós a tomar tal iniciativa). sem um forte apoio das instâncias europeias, ou sem sair do euro, a margem de manobra do governo é extremamente limitada.

    isto para dizer que, nestes últimos dois pontos, podendo fazer sentido em termos gerais, a sua implementação prática depende de imensos fatores externos pelo que certamente não podem ser vistas como propostas de governo! é imporante saber distinguir entre o que desejamos e o que, pragmaticamente, podemos fazer. para lirismos não há pachorra...

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  2. Até a tróica defende que não haja novas PPPs. E as que existem podem ser renegociadas, com o objectivo de que acabem a prazo.

    Quanto à dívida, o cenário está a mudar rapidamente. A Grécia anunciou hoje que pode declarar a bancarrota dentro de um mês. Se isso acontecer, sairá do euro, e a seguir começam a cair as peças de dominó, começando pelas mais pequenas. Neste cenário, os países periféricos deveriam colaborar: a UE governada a partir da Alemanha é que conduziu a isto.

    Finalmente, nota que a falta de ousadia paga-se cara em momentos de crise.

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  3. eu não discuto que não devemos ser ousados: eu discuto é a diferença entre o que podemos fazer, por nós, o que podemos fazer, com auxílio de outros, ou o que nem temos margem para fazer.

    juntar tudo no limbo e deixar vir à superfície os nossos desejos não me parece solução útil.

    assim, claro que as PPPs são um desastre para o estado. mas, repito, não o são para o segundo P. quando dizes que "as que existem podem ser renegociadas" falha-te um ponto chave: exactamente como as vais renegociar se o segundo P poderá não ter razão para tal e se o estado não tem dinheiro para romper contratos? justifica com números sff.

    no que diz respeito à dívida, de acordo, a coisa está a mudar rapidamente (daí já aqui ter escrito várias vezes o enorme erro que foi o chumbo do PEC4 que nos lançou nos braços da "ajuda" externa). quando dizes "os países periféricos deveriam colaborar" esqueces-te que, até ao momento, em desastre após desastre, isso não aconteceu. podes argumentar porque essa tua frase não é mais do que wishful thinking?

    e quando falas em sair do euro, deves estar a esquecer-te das implicações da desvalorização do neo-escudo. é que é muito bonito falar apenas do aumento da nossa competitividade exportativa, esquecendo o que sucede com as importações (a energia a preços astronómicos), o crédito (mantendo-se em euros, a bancarota das famílias, convertido a neo-escudos, a bancarota do sistema bancário e da economia), e o financiamento externo (não existente ou a taxas de juro ainda maiores). podes justificar com números porque isto seria boa ideia?

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  4. Ricardo Schiappa:

    Com números nem eu posso explicar, nem tu podes entender. Creio que este assunto é suficientemente complexo para não podermos compreender todas as ramificações e chegar a uma conclusão inequívoca numa caixa de comentário de um blogue...

    Aquilo que podemos é ver a opinião de diferentes especialistas internacionais, que olham para as experiências passadas e dão a sua opinião sobe a realidade portuguesa, e qual a melhor forma de Portugal lidar com esta situação.

    E aí, a opinião está bastante dividida. Há especialistas que acreditam que a solução é cumprir o plano da troika, para outros é renegociar desde já, para outros a melhor opção é o default.

    Não sendo capaz de avaliar os argumentos de cada um pelos próprios méritos - não sou um especialista, e o meu tempo e disponibilidade têm limitações - terei de usar heurísticas. Quais os especialistas que são parte interessada? Quais aqueles que representam as correntes que já no passado tinham razão face a estas questões? Etc...

    Não deixo de ter dúvidas, mas estas heurísticas levam-me a confiar mais naqueles especialistas para os quais deveria existir uma renegociação da dívida nos moldes que os partidos à esquerda do PS defendem - aliás, imagino que em certa medida tenham definido a sua posição também por aí mesmo.

    Isto seria mais claro se o debate económico nas televisões e nos meios de comunicação social fosse mais plural, reflectindo a realidade académica do meio.

    Há várias opções em cima da mesa, e para os académicos e especialistas não é claro qual é a melhor opção. Mas no discurso político - menos ciente dos números e da complexidade da questão - só existe uma razoável - a do PS, PSD, e PP - e uma completamente «louca e irresponsável» - a dos outros. Que peças números enquanto reproduzes este discurso deles menos ciente é uma ironia a registar.

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  5. JV, as perguntas eram de retórica, apenas para ilustrar a complexidade das questões face às "soluções" apresentadas. em qualquer caso parece que não compreendeste o meu ponto de vista. o que está claro para mim é que o programa do FMI/UE vai acabar em desastre (que já acontece por exemplo na grécia); mas da mesma forma que partir para um default ou uma renegociação unilateral também (basta lembrar o que sucedeu na argentina). sem uma verdadeira união europeia, estamos entre a espada e a pistola. discursos que apresentam qualquer uma destas armas enquanto solução são puro lirismo.

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  6. Schiappa,
    eu ainda não tinha respondido pela razão que o JV invocou: o assunto é demasiadamente complexo para ser reduzido a meia dúzia de números numa caixa de comentários.

    Mas repara que acusas todos os partidos de lirismo: quer os que apoiam o MoU, quer os que o rejeitam. E tens o teu próprio «wishful thinking»: uma «verdadeira União Europeia».

    Ora repara que nada mudará enquanto a UE mantiver o figurino actual. E que há países em que a mudança da UE já está a ser empurrada pela extrema direita. Na Finlândia, tiveram 19% os que rejeitavam a «ajuda» a Portugal. Na Áustria, há 29% dispostos a votar num partido que quer a Grécia fora do euro (é o FPOE), e mais 13% noutro semelhante (o BZOE). Queres que a UE seja refeita pelos partidos xenófobos, ou queres que a esquerda latina e grega se comece a coordenar? Eu não vejo muitos sinais desta última, mas... não vejo mais nada que valha a pena tentar.

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  7. não, não tenho nenhum wishful thinking, já referi anteriormente que nos esperam anos de marcha-atrás na construção europeia.

    limito-me a apontar as contradições óbvias: naturalmente que a "ajuda" FMI/UE é um desastre. o curioso, à esquerda, é que quem a queria evitar, agora acha-a positiva (pese embora por razões puramente eleitorais), e quem a quis provocar (no chumbo do PEC4) agora opõe-se. em particular, esta oposição é ridícula pois, chumbado o PEC4, como já aqui descrevi em detalhe, não havia opção face às taxas de juro. e agora todos falam como se nada disso fosse relevante propondo soluções que não dependem de nós! é patético.

    no meio disto tudo acho que deviamos ter uns posts convidados de algum argentino que tenha testemunhado o "milagre" pós fim da paridade ao dólar, que, na realidade, foi um desastre imenso.

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  8. Schiappa,
    nem os primeiros acham a «ajuda» positiva, nem os segundos a quiseram provocar.

    Estava a tentar perceber se compreendes que a UE não está no espaço exterior: nós fazemos parte, e supostamente deveríamos ter uma palavra a dizer.

    Quanto ao argentino, acho que o Filipe Moura conhece um... ;)

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  9. eu conheço o mesmo e ainda na semana passada discuti precisamente estas questões com ele. ;-)

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