sexta-feira, 29 de abril de 2011

A esquerda unida jamais será vista

A seguir ao 25 de Novembro, o PCP não podia participar no governo porque era óbvio que tinha participado numa tentativa de golpe de Estado militar para instaurar em Portugal um regime de tipo soviético em plena guerra fria. Que a historiografia hoje duvide ou negue tal intenção, que aconteceria à revelia de Moscovo e após eleições livres onde o PCP tivera 12%, é irrelevante: a «guetização» do PCP durou até ao final dos anos 80, empurrando o PS para sucessivas alianças com o CDS («aliança contra natura», foi a expressão da época) e com o PSD (o «bloco central»). Depois de 1989, era também «lógico» que o PCP não podia fazer parte de qualquer governo ou sequer de coligações autárquicas sistemáticas com o PS: se  por um lado o «socialismo real» acabara, e portanto deixara de haver perigo de «sovietização» de Portugal (houve muito quem levasse isto a sério), por outro lado o PCP passara a estar «ultrapassado» (o que nunca aconteceu à democracia-cristã ou à social-democracia de antanho) e logo não era coligável com forças maiores. A partir de 1991, tornou-se evidente que havia outra razão de peso: o PCP era «anti-europeísta», não votou Maastricht (nem Amesterdão, em 1996) e por conseguinte excluía-se do pacto principal do regime, a CEE-UE (e quem não era pela UE era contra a democracia, lembram-se?).

Foi neste ponto que surgiu o BE. Formado a partir de forças políticas que partilhavam quase os mesmo factores excludentes do «arco da governabilidade» (com suspeitas até mais reais de envolvimento no «aventureirismo» revolucionário de 1975, mas sem ligação a Moscovo e posições mais matizadas perante a UE), o Bloco foi visto por muitos como a «força de desbloqueio» da esquerda portuguesa. A ilusão durou uma década (1999-2009). Ao ficar a três deputados de se constituir em garante de uma maioria parlamentar de apoio ao segundo governo Sócrates, o BE tornou-se tacticamente semelhante ao PCP: «esquerda de protesto».

Este ano, nova razão de peso se apresentou para manter estes dois partidos afastados de qualquer arranjo governamental (coligação pré-eleitoral com o PS, participação no governo, ou acordo de incidência parlamentar): o FMI. A URSS já acabou, o euro vamos ver, mas o FMI permanecerá, ao que se diz, por uns anos. Até ao quadragésimo aniversário do 25 de Abril, a coisa parece estar garantida. Depois se verá o que se consegue inventar.

Entretanto, temos um país com níveis de desigualdade sociais latino-americanos, serviços públicos sofríveis, e onde alterações como a despenalização da IVG foram tiradas a ferros (já nem falo de beliscar os interesses da ICAR). São consequências de a governação ser sistematicamente à direita da votação. O que é uma disfunção da democracia. Mas que parece condenada a continuar.