terça-feira, 19 de abril de 2011

Técnicos do FMI defendem restruturação da dívida



Neste artigo da revista Economist em que se defende a reestruturação da dívida para Portugal, Grécia e Irlanda, afirma-se muito claramente que essa opção é já defendida informalmente por técnicos do FMI ("Some privately acknowledge that debt restructuring is ultimately inevitable"). O artigo é também muito crítico em relação às intervenções que estão em curso na Irlanda e na Grécia, aliás o gráfico dos títulos de dívida é muito eloquente em relação ao alcance dessa medidas.

A solução ideal seria uma solução europeísta, com emissão de títulos europeus, como defende Paul Krugman, maior integração/solidariedade na política da zona euro, combate comum das irracionalidades e crimes dos mercados financeiros, eleição directa pelos cidadãos do Presidente do Conselho e da Alta-Representante para os Negócios Estrangeiros, bem como a aprovação de tratados em referendos pan-europeus e não nacionais (cuja probabilidade de vitória de um SIM é residual). Mas o cenário actual é bem diferente é o cenário de uma UE soberanista dominada pelos desejos de protagonismo de Sarkozy e Cameron e pelo nacionalismo da CDU alemã, que resultou de construirmos europa a menos e não europa a mais. Neste cenário a reestruturação da dívida é uma solução em que não se compactua com a ditadura estabelecida pela oligarquia financeira e talvez tenha a virtude de relembrar aos nacionalistas e soberanistas (em que incluo as duas CDU's, a portuguesa e a alemã) que isto está tudo ligado e que o mal de uns pode ser também o mal dos outros.

3 comentários :

  1. Rui,
    o teu artigo tem a virtude de ir ao essencial desta crise: a arquitectura da UE.

    Ao contrário de ti, não acho que o problema tenha sido «Europa a menos». Foi «má Europa». Europa muito mais económica do que política, não democrática no que tinha de político, monetarista no que tinha de económico, desigual nas relações entre Estados.

    Não concordo que a solução seja elegermos o Presidente da Comissão ou fazermos referendos pan-europeus. A primeira ideia é presidencialista e pouco prudente. Seria melhor conferir poderes reais (e não meramente consultivos) ao Parlamento Europeu, que pode ser uma câmara dos cidadãos, representando diversas sensibilidades políticas e Estados. E também não concordo que se devessem fazer referendos pan-europeus. A menos, claro, que queiras eliminar desde já os Estados nacionais. E isso é perfeitamente utópico.

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  2. "Europa muito mais económica do que política, não democrática no que tinha de político, monetarista no que tinha de económico, desigual nas relações entre Estados."

    De acordo, mas é a isso que eu chamo "mais europa"

    Já demonstrei que matematicamente os referendos nacionais de tratados impedem a vitória do Sim, cuja probabilidade de vencer é residual:

    http://klepsydra.blogspot.com/2008_06_01_archive.html#6540147761586434639

    Enviei um texto parecido ao gabinete do Barroso e até eles admitiram que este sistema não funciona.
    Num referendo pan-europeu, em abstracto Sim e Não têm 50% de probabilidade de ganhar. Em 27 referendos é necessário que o Sim tenha 98% de probabilidade de vencer em TODOS os países para obter uma probabilidade final superior a 50%. Isto não é democrático.

    Concordo sobre o PE.
    Prefiro representantes europeus eleitos que personagens escolhidas a dedo, escolha sempre sujeita aos atlantistas de serviço (UK, Rep. Checa, Polónia) que vetam todos os candidatos verdadeiramente interessados pelo projecto europeu na linha de Prodi e Delors.

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  3. Rui,

    a tua demonstração matemática é interessante, mas esqueces-te de dois factos fundamentais.

    1) Se o apoio à UE anda pelos 50% em cada Estado, é porque se está a avançar depressa demais para os cidadãos dessas democracias. E em democracia, que eu saiba, é o governo quem decide, não as elites.

    2) Na generalidade dos Estados europeus, a construção da nação precedeu a da democracia, e foi geralmente um processo anti-democrático. A maior parte dos franceses por volta de 1800 talvez não quisessem sê-lo. E a maior parte dos espanhóis por volta de 1930 talvez preferissem ser bascos, catalães ou galegos.

    Quereres forçar uma união política sem haver vontade do demos realmente existente é autoritarismo. Pior ainda: nem sequer há demos europeu. Não há língua comum, narrativa política comum, medias comuns, vontade real de solidariedade (como se está a ver na Finlândia e na Alemanha, aliás). Podes não gostar. Eu também não gosto. Mas forçar o caminho para utopias costuma dar mau resultado...

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