quarta-feira, 13 de abril de 2011

Nobre, Passos Coelho e a caridadezinha

Sinceramente não fiquei nem um pouco surpreendido com a candidatura, nas listas do PSD, de Fernando Nobre. As pessoas que votaram em Fernando Nobre nas presidenciais não por estarem dececionadas com os outros candidatos e impressionadas com o “percurso de vida” do médico fundador da AMI, as pessoas que votaram em Fernando Nobre por motivos ideológicos (conheço algumas), preparam-se todas para votar no PSD por causa de Pedro Passos Coelho (mas não por Manuela Ferreira Leite ou Cavaco Silva). A direita não cavaquista, para ser explícito e dar-lhes um nome, votou em Nobre e adora Passos Coelho.

Com efeito, e sem deixar de reconhecer a atividade meritória da AMI por esse mundo fora, esta associação humanitária baseia-se em contribuições (obviamente dedutíveis no IRS) e em jantares de gala como este e este (ainda este domingo vi mais um no noticiário). Ao ver este modelo aplicado a Portugal, só me lembro da tira da Mafalda em que a Susaninha sugere “um jantar de caridade, com leitão, champanhe e lagosta, com cujos fundos se poderia comprar arroz, feijão, farinha e essas coisas que comem os pobres”. Pedro Passos Coelho quer substituir o Serviço Nacional de Saúde por isto. Compreensivelmente, Fernando Nobre também. Os eleitores convictos de Nobre já iam votar no PSD de qualquer maneira, e aos outros não agradou nada esta mudança do seu candidato, pelo que creio que o PSD não ganhou muito com esta jogada.

O que apesar de tudo me conseguiu surpreender foi que Pedro Passos Coelho tenha aceite o negócio inédito de propor à partida um presidente da Assembleia da República (neste caso, Nobre) ainda antes das eleições, num total desrespeito pelos futuros deputados (que são quem escolhe o presidente da Assembleia). Tal condição constituiu o “preço” de Nobre pelo seu apoio, e foi por si imposta, o que diz muito da vaidade e ambição do homem que muitos vêm como “idealista”. Se Pedro Passos Coelho cede assim com Nobre, que fará com Merkel e o FMI? Esta foi a primeira demonstração de que Pedro Passos Coelho não está preparado para ser primeiro-ministro. Outras se seguirão.

7 comentários :

  1. A razão que sugeres para a união Nobre-PPC é pertinente e ainda não tinha sido dita: ele pode representar a «caridade» e portanto a dispensabilidade do Estado social. Mas Nobre, quando era mandatário do BE (há menos de dois anos...) dizia coisas destas:

    «Após leitura do Compromisso Eleitoral do BE ao PE, senti-me confortado por aí ver transcritas, de forma positiva, inúmeras questões pelas quais me tenho batido e alertado, nos meus gritos contra a indiferença, ao longo de muitos anos:
    (...)
    • Regulamentação e Fiscalização adequadas do Mercado,
    • Responsabilização dos Especuladores tóxicos e irresponsáveis porque em levitação estratosférica,
    • Fecho das Offshore na Europa e se possível no Mundo,
    • Taxação das mais valias das transacções financeiras,
    • Proibição da especulação sobre os alimentos,
    • Combate sem tréguas contra a Pobreza, a Miséria e a Exclusão Social cuja coexistência é impossível com a Democracia,
    • Rejeição das guerras preventivas e outros conflitos fabricados por mentes doentias,
    • Controlo dos Armamentos,
    (...)
    • Preocupação com o Desenvolvimento dos países mais frágeis e com o futuro dos seus habitantes quando mesmo entre nós,
    • Comercio Justo,
    • Rejeição e combate à Corrupção,
    • Rejeição da Tortura,
    • Rejeição dos voos da CIA que enlamearam a Europa…
    (...)»

    Ou seja, tinha um discurso contra os mercados mais ideologizado do que aquele que teve enquanto candidato presidencial. E incompatível com o PSD de Passos Coelho. Como o discurso dele em política internacional era também à época, inconciliável com o que agora vai defender no PSD (se não for desautorizado antes do final da campanha).

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  2. Onde não concordo contigo é quando dizes que os votos nele foram os da direita não cavaquista. Parece-me numericamente impossível e politicamente insustentável.

    Numericamente, isso significaria que a esquerda teria passado, de 2006 a 2011, de 2,5 milhões de votos para pouco mais de um milhão. Não me parece que um milhão e meio de pessoas que tinham votado em candidatos «de esquerda» em 2006 tenha ficado em casa em 2011.

    Politicamente, a minha opinião é que Nobre teve os votos da esquerda mais anticomunista, mais centrista. Essencialmente, o eleitorado de Soares em 2006. E dificilmente os levará para o PSD.

    Finalmente, se fores ao Facebook encontras dezenas de pessoas furiosas por Nobre se ter passado para o PSD. Serão essas pessoas «de direita»? Muitas têm um discurso anti-políticos, ou apenas anti-partidos, mas nem isso é exclusivo da direita...

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  3. Ricardo, eu afirmei que "a direita não cavaquista votou na sua maioria em Nobre": basta olhar para o mandatário da juventude do senhor ou para o vice-presidente da Câmara do Porto (que escreve no Blasfémias). Tal é diferente de afirmar que os eleitores do Nobre se resumiam à direita não cavaquista: os eleitores do Nobre constituiam uma manta de retalhos.

    As tuas considerações parecem esquecer que uma parte substancial do eleitorado do PS votou, infelizmente, como sabemos, em Cavaco Silva. Estes, sim, são a tal "esquerda mais anticomunista, mais centrista." De forma alguma tal foi o eleitorado de Soares em 2006!

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  4. quer substituir o Serviço Nacional de Saúde por isto.
    Compreensivelmente, Fernando Nobre também.


    Em que é que te baseias para esta afirmação categória / imputação de intenções? É que eu tenho a ideia precisamente contrária. Queres passar uma citação dele nesse sentido ?

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  5. Ainda sobre esta afirmação
    A direita não cavaquista, para ser explícito e dar-lhes um nome, votou em Nobre

    Eu não sei onde foste buscar isto, mas a julgar pelos comentários dos seus ex-apoiantes (agora desiludidos) na sua página do facebook e no seu blogue , parece-me que quem votou nele para presidente foi mais ou menos o mesmo tipo de pessoa que tinha votado alegre há 5 anos , um centro esquerda desiludido com o PS:

    http://fernandonobre.blogs.sapo.pt/23951.html

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  6. Eu não contava ter que explicar isto a mentes tão brilhantes do quase centenário Instituto Superior Técnico, mas escrever "se é direita não cavaquista votou em Nobre" não é o mesmo que escrever "se votou em Nobre é direita não cavaquista". Quer tu, João, quer o Ricardo Alves, não estão a ler o que eu escrevi.

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  7. Filipe, não fujas à questao. disseste:

    - A direita não-cavaquista votou Nobre.

    - Nobre quer substituir o Serviço Nacional de Saúde por isto (caridade, etc.)


    Tanto quanto sei são ambas falsas. Em que é que te baseias para as afirmar. Podes explicar?

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