domingo, 2 de janeiro de 2011

O Grande Irmão quer o teu BI e o teu ADN

Os EUA querem, o governo português reflecte, o pedido será satisfeito.

O FBI quer consultar os dados constantes dos bilhetes de identidade de todos os portugueses (do registo civil português, sublinhe-se). E para os condenados, quer o registo criminal e os dados biométricos. Tudo para fazer uma super-mega-hiper base de dados que permita combater (tremor de voz ao ler isto) «o terrorismo». (Que, não notaram?, está cada vez mais invisível. Tal como na Oceânia do outro.)

Está um acordo bilateral na Assembleia da República, prontinho para ratificar. Vou ficar muito atento a quem votar a favor e contra. E nem é tanto pela assimetria da relação (não sermos nós a consultar os dados dos americanos e sim o contrário), porque já entendi que querer levantar quem se habituou a estar de joelhos é, muitas vezes, como querer obrigar a velhinha a atravessar a rua. É mais pela questão de princípio. Porque há partilhas que não se fazem. Os dados que entregamos ao Estado português já são demais e demasiado centralizados (quando vamos acabar com a porcaria das impressões digitais nos BI´s?). Que os comecem a deslocalizar é insultuoso. É vender, literalmente, a nossa identidade. A nossa identidade que mais importa, a de cada indivíduo enquanto cidadão.

Pois é. A tragédia é as pessoas lerem o 1984 pensando que aquilo só acontece aos outros. Mas a «luta contra o terrorismo» tem primado pelos recuos em direitos humanos e pelas violações de privacidade. E tem tornado actuais os velhos lemas «guerra é paz», «liberdade é escravatura» e «ignorância é poder».

Acordem agora, ou apenas depois, quando um burocrata de Washington tiver nas mãos a vossa morada e as vossas impressões digitais. As vossas e as de mais dez milhões de portugueses.