domingo, 17 de julho de 2011

O poder oculto

Há vários anos que alerto neste blogue para o poder desmedido que os serviços ditos «de informações» têm vindo a ganhar na República. Sem que ninguém se indignasse, esses serviços foram concentrados sob a alçada quase directa do Primeiro Ministro José Sócrates, e foi-lhes dado o poder de recolher «informações» das verdadeiras polícias (PJ, SEF, GNR, PSP). Nos jornais, frequentemente se passou a mensagem de que efectuam vigilâncias electrónicas e escutas telefónicas ilegais, e que gostariam, note-se o descaramento e o atrevimento, que a Constituição fosse adequada ao que já fazem. Incrivelmente, num regime fundado sobre o repúdio da PIDE e dos seus métodos, a opinião pública cala-se. E não falta sequer a suspeita de envolvimento na tortura de pelo menos um islamista para que a semelhança com a PIDE seja cada vez maior.

O «caso» Bernardo Bairrão é a primeira ocasião em que a opinião pública se começa a aperceber do poder da escumalha do Forte da Ameixoeira e do Forte do Alto do Duque. Aparentemente, os «sisistas» terão confirmado o envolvimento do senhor em negócios pouco claros em Angola e alhures, que poderiam originar manchetes de jornais daqui por semanas ou meses. Daí a sua exclusão intempestiva da lista de Secretários de Estado. Acontece que Bairrão nega que tenha sequer tido negócios no Brasil ou em Angola. E pede que o relatório da escumalha do SIS seja revelado. Eu concordo com Bairrão: foi processado, julgado e condenado por algo que nem saberá o que é. Obviamente, Miguel Relvas, que substituiu Silva Pereira na tutela dos «informaçõezinhas», desmente a «investigação» a Bairrão. Talvez fosse de aconselhar uma comissão de inquérito parlamentar?

Há outro lado deste caso que cheira muito mal. Terá sido um SMS de Manuela Moura Guedes para Passos Coelho a ocasionar o pedido de «informações» do actual PM. Moura Guedes e José Eduardo Moniz, sabe-se, não gostam do senhor. Compreende-se: Bairrão terá demitido Moura Guedes, e, pior, opõe-se à privatização da RTP, na qual a Ongoing de Moniz (e Teixeira Pinto) está interessada. E chegamos aqui ao último elo da narrativa: um tal Jorge Silva Carvalho demitiu-se (com estrondo) de director do SIED em Novembro. No mês seguinte, já estava na Ongoing. Teve o cuidado de dar uma entrevista dizendo que «o meu dever de reserva em relação aos serviços e às matérias abordadas enquanto em funções será sempre mantido». Face aos desenvolvimentos mais recentes, penso que só alguém muito ingénuo acreditará incondicionalmente que o referido personagem está a manter esse dever de reserva.

(Passo seguinte: nomear Silva Carvalho para director de um serviço de informações que unifique o SIS e o SIED.)