sexta-feira, 1 de julho de 2011

A Esquerda é mais liberal que a Direita? - Parte I

Em Portugal, associamos alguém que se refere a si próprio como «liberal» como sendo alguém de direita. Geralmente tende a defender menos impostos, menos prestações sociais, e diz tomar essas posições por apreço às liberdades individuais.

Se perguntarmos a um auto-intitulado «liberal» se os partidos e eleitores mais liberais estão associados aos partidos da direita parlamentar ou da esquerda parlamentar, dificilmente haverá hesitação: a extrema esquerda tem um projecto social totalitário - alegam - e o centro esquerda tembém defende uma sociedade colectivista e um estado paternalista.
Sim, existem conservadores à direita - concedem (embora alguns «liberais» considerem que o conservadorismo pode manter uma relação simbiótica com o liberalismo) - mas o eleitorado de esquerda é certamente menos liberal que o eleitorado de direita.

Será que assim é?
Será que o eleitorado de direita é mais liberal que o de esquerda?
Ou acontecerá precisamente o contrário?

Para já, gostaria de explorar a hipótese que se pretende testar, recorrendo a dois diagramas.
Idealizem-se dois eixos. Um deles é relativo ao binómio autoritarismo vs liberalismo; e outro é relativo à importância da propriedade privada enquanto valor fundamental: num extremo esse valor é tão importante como a defesa da vida humana contra a violência, noutro extremo ela não tem valor algum.

Se o liberalismo for conceptualmente inseparável de uma forte protecção da propriedade privada, tenderemos a ver - em termos da distribuição do eleitorado por posição ideológica - uma forte correlação entre o liberalismo expresso nas questões que não se referem à propriedade e a defesa da propriedade privada. Sendo que os partidos de direita tendem a defender uma maior protecção da propriedade privada, a afirmação de que a direita é mais liberal que a esquerda será perfeitamente justificada.



Mas se o liberalismo for conceptualmente separável dessa protecção (que, como alegam os anarquistas, é ela própria uma imposição das maiorias), é possível que a barreira histórica que separou a Esquerda e a Direita na revolução francesa ainda seja aquela que actualmente ocorre nos nossos dias. Isto implica a situação quase oposta:



Nesta figura, o eixo vermelho corresponde ao tradicional eixo esquerda-direita, de acordo com a perspectiva da esquerda: para a direita sistemas onde existe maior desigualdade política e económica, para a esquerda a luta dos menos poderosos contra o poder instituído, por uma sociedade mais justa. (Note-se que os pontos a rosa relativos ao grupo social democrata não tem qualquer relação com o eleitorado do PSD, ou não tivessem a cor mencionada).

Na primeira figura, o eixo azul corresponde ao mesmo eixo, mas de acordo com a perspectiva dos liberais de direita: para a direita uma maior defesa das liberdades individuais, económicas ou políticas, para a esquerda uma maior defesa do colectivismo e do poder do estado.

Qual destes mapas está mais perto da realidade? Em Portugal, tanto quanto sei, não existem estudos que nos possam dar uma resposta directa*. Mas estudos efectuados nos EUA podem ajudar a dar uma resposta a esta questão.
Nos próximos textos pretendo expor estes dados.

*Nos comentários o Miguel Madeira menciona um que teria conclusões semelhantes aos outros referidos.

20 comentários :

  1. Olá João,

    Gostei muito da tua exposição. A ideia está à flor da pele, mas expô-la em texto era difícil. Muito bom trabalho!

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  2. Eu diria que esqurda-direita é um eixo que nada tem a ver com autoritarianismo-liberalismo.

    Ou seja, tanto a direita como a esquerda podem ser liberais, ou autoritárias.

    No entanto, de facto, tradicionalmente o liberalismo é uma ideologia de esquerda, na medida em que contraria os valores e as autoridades vigentes. Só recentemente é que começou a haver uma aproximação entre os valores da direita usual e os do liberalismo.

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  3. «Eu diria que esqurda-direita é um eixo que nada tem a ver com autoritarianismo-liberalismo»

    Isso é quase a "média" entre as posições dos liberais de direita e a generalidade da esquerda: a recta da esquerda-direita corresponderia ao eixo relativo à protecção da propriedade privada (ortogonal ao eixo do liberalismo).

    Não me parece nada disparatado, mas nisto de convenções não basta fazer sentido.

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  4. Nenhum dos gráficos que apresentas faz sentido em geral, a meu ver. O que faz sentido é o do political compass.

    Tal como o Luís Lavoura penso que tanto a direita como a esquerda podem ser liberais ou autoritárias, pelo que a questão posta no título do post não faz sentido.

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  5. Então faz da resposta que lhe dei a ele a resposta que te dou a ti ;)

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  6. Nota que os dados empíricos só vão aparecer nos textos seguintes.

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  7. Se percebi bem estás a dizer que há dados empíricos que mostram que a base para a bússola política não é ortogonal. Certo?

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  8. Não é bem isso.

    Temos dois eixos ortogonais. Um deles corresponde à defesa da propriedade privada; outro corresponde à aceitação ou condenação do autoritarismo.

    Depois, saber o que é a direita e a esquerda é uma mera convenção. Historicamente, a esquerda correspondia aos adversários da monarquia absolutista, e a direita aos defensores, pelo que a esquerda correspondia certamente a uma oposição ao autoritarismo.

    Mas claro que as coisas mudaram. Agora, qual a convenção mais útil? Podemos fazer coincidir o eixo esquerda-direita com a protecção da propriedade privada, conforme o Luís Lavoura e o Filipe Moura advogam, o que encontra suporte na existência de ditaduras comunistas altamente autoritárias.

    Essa convenção seria relativamente adequada se não existisse qualquer correlação entre ambos os eixos. Mas se existir uma correlação elevada, parece adequado que querendo simplificar passando de dois eixos para um, se faça isso segundo o eixo da regressão linear, pois será da forma que se perde menos informação, se perde menos com a projecção, digamos assim.

    Assim, se os liberais de direita estiverem certos e as pessoas que tendem a defender maior protecção da propriedade privada também têm mais aversão ao autoritarismo nos restantes assuntos (e esta correlação for muito significativa), o eixo com declive negativo parece adequado. E vice-versa.

    A realidade não é tão gentil. Existe uma correlação contrária aquela que os liberais de direita imaginam existir, mas não é tão forte que se torne evidente qual a convenção "certa". Assim, tanto o declive nulo como positivo me parecem propostas razoáveis. O declive negativo está fora do razoável, tendo em conta os dados empíricos.

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  9. Esclarecimento.

    «Depois, saber o que é a direita e a esquerda é uma mera convenção. Historicamente, a esquerda correspondia aos adversários da monarquia absolutista, e a direita aos defensores, pelo que a esquerda correspondia certamente a uma oposição ao autoritarismo.»

    Quando escrevo isto não defendo que nessa altura o eixo coincidisse com o eixo vertical, apenas que o declive teria necessariamente de ser positivo.

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  10. "Assim, se os liberais de direita estiverem certos e as pessoas que tendem a defender maior protecção da propriedade privada também têm mais aversão ao autoritarismo nos restantes assuntos (e esta correlação for muito significativa)"

    Penso que os liberais de direita não dizem isso - eles dizem que a defesa das liberdades individuais tem que implicar a defesa da propriedade privada, mas penso que não dizem necessariamente o inverso.

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  11. Miguel Madeira:

    O Pedro Arroja foi longe de mais, quando começou com discursos anti-semitas e tudo o mais. Até lá, era considerado um "liberal" a quem valia a pena ouvir pela generalidade dos "liberais" (de direita) da blogosfera. Isto mesmo enquanto dizia que o regime do Estado Novo era mais liberal que o regime actual.
    Para dizer «ele é um liberal como nós, mesmo que eu discorde de muitos dos seus pontos de vista», enquanto se sabe que a pessoa em causa defende que «liberal era o Estado Novo» é preciso ver uma indissociação fundamental entre a defesa incondicional da propriedade privada e a aversão ao autoritarismo. A tal ponto que se é (quase) cego a todas as causas liberais que não estejam relacionadas com a propriedade.

    Nos blogues dos liberais de direita que vou lendo, é possível encontrar alguma indignação com regulamentações económicas que imponham limites ao sal no pão ou limitações aos cafés onde se pode fumar. Mas essas causas, estando associadas a negócios já existentes, são um misto de defesa da propriedade privada e defesa das liberdades individuais.

    No que respeita à legalização das drogas leves, ou pesadas, à legalização da eutanásia, ao casamento homossexual (igualdade perante a lei dos cidadãos independentemente da orientação sexual), à intervenção dos exércitos em conflitos externo (Líbia, Iraque(!!!)), defesa do laicismo, à pena de morte, às paranoias securitárias, etc.. vejo alguma coisa do Carlos Novais, do Gabriel e do Luís Lavoura, e pouco mais, e por vezes vejo a defesa OPOSTA ao que seria a causa liberal sem que isso cause grande espanto (a defesa da invasão do Iraque por parte dos «liberais» em geral, a luta contra o casamento homossexual por grande parte deles, alguns textos anti-laicistas por parte da Helena Matos ou do AAA, muitas vezes aplaudidos poelos restantes, etc..)

    Pelo discurso que vou vendo nestes autores, as coisas são quase indissociáveis, como se a propriedade fosse uma dimensão tão significativa da liberdade individual, que quem abdica da sua defesa é um colectivista e tendencialmente será contra todas as liberdades, e reciprocamente quem defende essa liberdade é «praticamente» um liberal, provavelmente defenderá as outras, mas se for incoerente não o fará. Como se fizessem uma recta desde a posição de Milton Friedman até ao que imaginam ser a posição dos estalinistas e dissessem que a primeira é a direita, a segunda é a esquerda, e a generalidade dos conservadores está lá no meio.

    Note-se que não tenho dados objectivos nenhuns para justificar esse gráfico, nem pretendo ter. É apenas a minha intuição após ter passado muitas horas ao longo dos últimos anos a tomar contacto com a perspectiva que se auto-intitula liberal.

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  12. Já agora:

    "Em Portugal não existem estudos que nos possam dar uma resposta directa."

    Existe pelo menos um estudo (com resultados semelhantes aos que o João Vasco apresenta), mas vio-o num livro (tenho uma vaga ideia que do José Adelino Maltez) que folhei numa livraria - ou seja, não tenho nenhuma pista para a sua identificação. O estuda analisava uma perferencia por igualdade vs. liberdade na economia e no resto e chegaram à conclusão que a defesa da "liberdade" na economia estava associada à defesa da "igualdade" (entendida aqui como uniformidade) no resto, e vice-versa (a explicação que os autores sugeriam era que, como Portugal teve uma ditadura com grandes desigualdades de riqueza, isso levava os defensores do igualitarismo económico a serem contra ditaduras).

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  13. Já uma vez tinha tido essa ideia: que nos países de leste o eixo esquerda-direita fosse como os liberais de direita o imaginam precisamente por essa razão. Lá, como os adversários do poder ditatorial acabam por ser adversários também do sistema económico «redistribuidor», e vice versa para os defensores do poder instituído, a correlação fica no sentido oposto à situação em que existe uma ditadura que protege os ricos.

    Mas nos EUA, onde não existiu ditadura alguma, é curioso que a relação seja igual à nossa.

    De qualquer forma vou acrescentar um «que eu saiba» ao texto original, que já lá deveria ter estado.

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  14. Uma coisa curiosa nos países de Leste é que, nalguns, realmente temos essa associação - os partidos mais "lei e ordem" e "anti-cosmopoplitas" serem também os mais desconfiados face ao capitalismo liberal (sobretudo o multinacional), mas por vezes esse espaço ser ocupado, não pelos ex-comunistas (que em muitos paises tornaram-se social-democratas quase normais) mas sim pela direita mais anti-comunista - "Lei e Justiça" na Polónia, Fidezj na Hungria...

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  15. Talvez a Guerra Fria o explique. Durante muitos anos se combateu a ideologia comunista à custa de muita propaganda que devia passar, também, pela crítica ao papel do Estado na redistribuição.

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  16. "Talvez a Guerra Fria o explique" - explique exactamente o quê?

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  17. O problema da guerra fria foi que os marxistas deixaram de lutar contra o autoritarismo que levava às desigualdades... Na verdade fizeram uso do autoritarismo para tentar reverter as desigualdades à força... Os liberais ao contrário já deixaram a luta contra as desigualdades de lado lutando contra o autoritarismo.. Acontece que tanto o autoritarismo leva à desigualdades fazendo o marxismo fracassar... Quanto a tolerância com as desigualdades leva o liberalismo a fracassar pois o poder econômico é tão autoritário quanto o político e militar aliás com poder econômico você compra os políticos e contrata os militares...

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  18. Boa análise.
    É preciso lutar contra o autoritarismo E contra as desigualdades.

    Por isso é que rejeito completamente esta pseudo-contradição que os liberais de direita tentam impingir entre liberdade e igualdade. Não se opõem, mas alimentam-se uma à outra. Basta ver a escravatura, é um atentado à liberdade ou à igualdade?? Obviamente a ambas.

    Por isso gosto do lema "Liberdade, Igualdade e Fraternidade". Nem mais.

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