quinta-feira, 5 de maio de 2011

Um desvario de direita

Em Portugal, o partido com representação parlamentar mais à direita chama-se CDS-PP. Esta sigla significa «Centro Democrático Social - Partido Popular». Peço ao leitor que atente para a palavra «Centro» no contexto desta sigla. Na altura em que a sigla surgiu, a palavra significava precisamente isso - este partido afirmava-se como um partido de Centro.

Em Portugal, o partido que disputa o lugar de primeiro ministro mais à direita chama-se PPD-PSD, e é conhecido como «Partido Social Democrata». O significado original do termo «Social Democracia» corresponde à crença de que uma sociedade socialista (i.e. onde não existe propriedade privada dos meios de produção) pode e deve ser alcançada gradualmente através de sucessivas reformas no contexto da democracia parlamentar, e não por via revolucionária. O significado original do termo «Social Democracia» corresponde aos actuais anseios do PCP.

É verdade que nos anos 70 o termo «Social Democracia» já não correspondia a este significado. Ao invés, a posição Social Democrata era uma posição de esquerda, na qual se acredita que deve ser mantida a economia de mercado, mas defendida uma elevada redistribuição da riqueza através dos impostos, bem como um conjunto de serviços públicos no que diz respeito à saúde, educação, segurança social, cultura, ciência, transporte, etc.

Convém repetir - o termo Social Democracia corresponde a uma corrente político ideológica da Esquerda. Vários elementos do BE e do PCP, e muitos mais do PS, podem assumir-se como Sociais Democratas sem que isso implique, a seu ver, que estejam no partido errado.

O que acontece é que os nomes dos partidos políticos em Portugal são um testemunho vivo do passado, dos poucos anos que se seguiram a 1974, e da forma como o espectro político na sociedade portuguesa (e europeia) se foi arrastando cada vez mais para a direita.

Outro testemunho vivo desse passado é o Professor Diogo Freitas do Amaral. Nos anos 80 era visto por todos como uma das personalidades mais à direita na política portuguesa, mas fez parte do governo de José Sócrates em 2006, e saiu como sendo um dos ministros mais à esquerda deste governo. Muitos acusam Freitas do Amaral de ser incoerente, de ter traído aqueles que o apoiaram, dizendo ontem uma coisa e hoje outra. No entanto, quem verificar o que é que Freitas do Amaral defendia nos anos 70 e aquilo que defende hoje, poderá confirmar que não foi Freitas do Amaral quem mudou radicalmente as suas convicções políticas, pelo contrário. Ao ter sido muito mais coerente com aquilo em que acreditava que muitos outros políticos, Freitas do Amaral é outro testemunho vivo de como o espectro político em Portugal se foi arrastando cada vez mais para a direita.

Aquilo que era indizível no discurso público nos anos 70, é hoje inegável no mesmo discurso público, ou pelo menos aquele que é mediado pela maioria dos meios de comunicação social. O espectro político, desde 74 até agora, foi-se, de forma gradual e constante, arrastando (ou sendo arrastado?) cada vez mais para a direita.

Independentemente das causas desta deriva - em Portugal, na Europa, e nos EUA - é interessante olhar para as consequências. Nestes países, quando comparamos a situação actual com o passado recente, as desigualdades estão a aumentar (aqui refiro-me aos EUA e à maioria dos países da UE), o crescimento económico está a estagnar, a qualidade de vida está a diminuir.

Por oposição, olhe-se para a América do Sul, onde a esquerda tem triunfado. Mais crescimento, mais prosperidade, menos desigualdades, mais mobilidade social, mais oportunidades, menos pobreza, menos fome, quando comparamos com o seu passado recente.

A crise internacional de 2008 trazia uma bandeirinha, e essa bandeirinha, à semelhança da crise de 1929, dizia «o sistema financeiro demasiado desregulamentado dá nisto». No entanto, quem tem mais dinheiro tem mais voz, e pouco depois - por incrível que pareça - as consequências desta crise servem, no discurso público, para dar mais força às vozes que defendem políticas de direita cada vez mais radicais. As mesmas políticas que deram origem a todo este problema. As mesmas pessoas que defenderam as políticas que o causaram.

O espectro político arrasta-se, por consequência, ainda mais para a direita. Quando vamos acordar para este desvario? Quando vamos finalmente resolver os problemas em vez de os agravar?