segunda-feira, 2 de maio de 2011

Não há Verdadeiros Europeus

Aqui há uns anos (menos de dez) costumava irritar os meus amigos europeístas dizendo-lhes que não havia nada de comum entre Portugal e a Finlândia. Eles chamavam-me «eurocéptico», e diziam que eu tinha preconceitos contra esse grande projecto de unir politicamente toda a Europa, fadado ao sucesso e capaz de garantir democracia e prosperidade perpétuas para todo um continente. Eu tentava, sem êxito, explicar-lhes que as motivações de cada Estado para aderir à UE tinham sido radicalmente diferentes, que potencialmente divergiriam e que a solidariedade não se decreta.

Chegamos a 2011 e um partido com uma agenda política explicitamente anti-portuguesa teve 19% dos votos na Finlândia (mais 40 mil votos e o seu líder teria sido, presumo eu, convidado para Primeiro Ministro). Os «Verdadeiros Finlandeses» prometem votar contra a ajuda europeia a Portugal. Não sentem qualquer solidariedade, esses «Verdadeiros Finlandeses», com os Estados europeus do sul, que lhes compram os produtos (telemóveis, por exemplo) e deixam os seus reformados adquirir casas de férias ao sol. Não sentem e não sei como alguém tenha podido esperar que sentissem.

A história dos Estados europeus é a de uma construção, muitas vezes violenta, e quase sempre autoritária, de nações uniformes a partir de um centro forte que unificou grupos de pessoas que nem sempre estavam convencidas a viver juntas. A existência do Estado social é uma anomalia europeia continuamente ameaçada por ricos que não querem pagar o conforto dos pobres. Não sei como convencer os finlandeses de que devem ajudar os portugueses. A solidariedade não se decreta. Mas devo acrescentar, contra mim, que eu também costumava argumentar que não havia nada de comum entre gregos e irlandeses. E que hoje, há. E esse é o único ponto que traz algum optimismo.