quinta-feira, 14 de junho de 2012

Revista de imprensa (14-06-2012)

O endividualismo é o resultado da última metamorfose do indivíduo moderno, do processo da sua afirmação e expansão ilimitadas. É o produto da sua profunda cumplicidade com o "paradigma do ilimitado" que marcou todo o século passado, sobretudo a segunda metade, garantindo a todos uma energia inesgotável, um consumo interminável e um crédito sem fim. O endividualismo representa o apogeu jubilatório do indivíduo que se realiza pelo crédito, isto é, pela dívida. Ele tornou-se, no mundo de hoje, no pilar mais generalizado - e talvez no mais resistente! - deste paradigma em crise. Ele decorre da afirmação sem limites dos direitos dos indivíduos, da progressiva identificação do direito com a proteção da esfera do privado e da rasura sem precedentes das referências a valores ou convicções de ordem coletiva. As chamadas agendas fraturantes têm aqui a sua mais do que óbvia origem, bem como a principal razão do seu frenético elã. O endividualismo foi contudo viabilizado e estimulado - ao contrário do que se diz e por mais paradoxal que tal pareça a muitos - pela poderosa afirmação de um Estado social que, libertando pela primeira vez na história os indivíduos da necessidade de terem de preparar o seu futuro e o dos seus (garantindo-lhes reformas, educação, saúde, etc.), o tornou um soberano cada vez mais centrado em si próprio. O endividualismo acelerou, por isso, o processo de desarticulação interna das democracias, cavando um abismo cada vez maior entre a afirmação da liberdade individual dos cidadãos e a sua capacidade de ação cole- tiva: mais livres, sim, sempre - mas também mais impotentes!
(Manuel Maria Carrilho, DN)

11 comentários :

  1. Esse texto começa logo com um erro ortográfico (http://www.priberam.pt/dlpo/default.aspx?pal=endividualismo), e prossegue para repetir outros erros: destaco a relação entre a dívida e o individualismo, sem qualquer tipo de fundamento. O endividamento tanto acontece individualmente como colectivamente (as dívidas dos estados, e outras colectividades...), e não está relacionado com o binómio indivíduo-colectivo, mas sim com o binómio presente-futuro.

    Por outro lado, acho interessante que considere o estado social como «alavanca» do individualismo na medida em que permite a cada um sobreviver com menor dependência da comunidade social que o rodeia - tem acesso a um apoio formal que é seu por direito sem ter de viver (tanto) da boa vontade (caridade?) daqueles que lhes são próximos. É curioso porque aí se vê como o binómio esquerda-colectivismo/direita-individualismo sempre foi uma associação absurda, e sem fundamento. A verdade é que o estado social, apesar da retórica enganadora de alguma direita que defende que sufoca a liberdade individual, pelo contrário estimula-a.

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  2. Mas o erro maior - e algo comum - é mesmo este de confundir o individualismo enquanto respeito pelas liberdades individuais, com o egoísmo e a desconsideração pelo grupo.

    A incapacidade de agir em grupo prejudica os indivíduos em geral, e parte de um egoísmo e de um conjunto de ideias perniciosas - algumas infelizmente muito populares à esquerda - não parte do respeito pelas liberdades individuais, que deve ser promovido.

    O solipsismo e o relativismo moral são ideias - mais populares à esquerda que à direita - que, além de absurdas (e incompatíveis com o individualismo, por sinal), sabotam a capacidade de agir em grupo de forma extremamente perniciosa, estimulando o egoísmo e destruindo a solidariedade.

    Nas últimas décadas o indivíduo pensa cada vez mais nele próprio a prejuízo do colectivo (há uma palavra para isto: chama-se «egoísmo»), mas (e em consequência disso) as liberdades individuais são cada vez menos defendidas e respeitadas (http://en.wikipedia.org/wiki/National_Defense_Authorization_Act_for_Fiscal_Year_2012, entre dezenas e dezenas de exemplos que tenho vindo a trazer a este blogue), portanto verifica-se um recuo do individualismo. O que é natural: o individualismo é uma conquista colectiva, e portanto o egoísmo, minando a capacidade de agir em grupo, dificulta a sua defesa.

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  3. O Carrilho é o exemplo clássico do reacionário de esquerda. Espera, há outro melhor: o Boaventura.

    Tentando olhar para além da pessoa: o argumento é péssimo, porque o «paradigma do ilimitado» mais facilmente se aplica ao coletivo (a família, a coletividade, o Estado), do que ao indivíduo. O indivíduo sabe que o seu tempo é limitado. As coletividades é que tendem a pensar que são eternas.

    Quanto à associação de individualismo com egoísmo, não tenho paciência.

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    1. O Santana Carrilho ou é castilho? aquele pseudo-reformador do ensino ou o da Bárbara Guimarães capital da cultura?
      Bolas putos da geração rasca não elaboram


      Boaventura de Bagnoregio foi um reformista do ideário do frade de burel e de freiras a granel
      reaça de esquerda jámé

      Quanto à associação de individualismo com egoísmo, não tenho paciência, sou demasiado individualista para isso, pensou (pensar é assis a modos que forte) Alves dos Reys

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    2. O endividualismo foi contudo...nem sequer se fala de individualismo e sim de endividualismo

      que deve ter que ver com endívias

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  4. Gostava que me explicitassem melhor onde está o reacionarismo do Carrilho. (Também não aprecio muitas das atitudes da pessoa, mas estamos a falar dos artigos dele.) Chamar a alguém "reacionário", por si só, não é argumento nenhum.

    Não faz sentido essa distinção entre indivíduo e sociedade no paradigma do ilimitado. As decisões de consumir jaquinzinhos, sem pensar no futuro da espécie, ou andar de carro a torto e a direito, sem pensar no futuro do planeta, são puramente individuais. O indivíduo achar que, por o seu tempo é limitado, o pode viver da melhor maneira possível para si e sem pensar no futuro, só dá razão ao argumento do Carrilho.

    Finalmente, é-me difícil distinguir individualismo de egoísmo. Essa distinção parte de um ato de fé na bondade do indivíduo, fé partilhada por vocês, ateístas, mas não por mim, agnóstico.

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    1. Filipe,
      o reacionarismo do Carrilho, neste texto, nota-se por exemplo na frase «"estupidez sistémica" induzida pelas novas tecnologias». Outro exemplo seria este texto mais antigo:

      http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=1474777&seccao=Manuel%2520Maria%2520Carrilho&tag=Opini%25E3o%2520-%2520Em%2520Foco&page=-1

      Quanto à colagem entre individualismo e egoísmo, já estou habituado. Mas ser individualista em política é só defender o indivíduo enquanto célula política fundamental (os fascistas preferiam a família ou a corporação, os comunistas diziam que era o soviete mas acabava por ser o partido). Pode ser-se individualista sem ser egoísta.

      E misturar ateísmo com defesa da «bondade humana» é daquelas provocaçõezitas para que já não tenho paciência...

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    2. «Finalmente, é-me difícil distinguir individualismo de egoísmo.»

      Considera esta situação: um activista chinês luta, na China, contra a tortura que o Governo exerce sobre os seus adversários políticos. Considera que esta pessoa podia ter escolhido uma actividade ou postura menos arriscada mas, ao invés, em prejuízo da sua segurança e bem estar escolhe lutar por esta causa.
      Esta pessoa luta pelas liberdade individuais (individualismo), mas fá-lo de forma altruísta. Abdicar dessa luta (defendendo por exemplo ideias colectivistas que justifiquem a opção do Governo na luta pela paz social) poderia ser uma escolha motivada pelo medo e pelo conformismo, em última análise uma escolha mais egoísta.

      A questão é que o individualismo e colectivismo são ambas convicções compatíveis com maior ou menor fibra moral, com maior ou menor empatia, com mais ou menos egoísmo ou altruísmo.

      Há quem acredite que toda a comunidade sai beneficiada se as liberdades individuais forem respeitadas, visto que a comunidade é composta por indivíduos. Há quem acredite que sai prejudicada. Há quem tenha posições intermédias.
      E depois, independentemente daquilo que cada um pensa que está correcto, há quem faça sacrifícios em nome daquilo que lhe parece mais justo e melhor, e quem não esteja disposto a fazê-los.

      Nesse sentido, a distinção é tão clara, que a confusão, apesar de comum, me causa estranheza.


      (continua)

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    3. «Essa distinção parte de um ato de fé na bondade do indivíduo, fé partilhada por vocês, ateístas, mas não por mim, agnóstico.»

      Creio que há três erros nesta frase:

      1- no debate económico, quais são aqueles que partilham uma visão mais cínica (e até perversa) do ser humano? Suponho que tenhas ouvido falar no «Homo economicus» que alguma direita agita para justificar teorias económicas muito compatíveis com os interesses dos poderosos - o ser humano que age apenas no sentido de maximizar a sua utilidade. Têm sido (principalmente) os economistas de esquerda a mostrar os enormes erros dessa assunção, tendo como base muito trabalho de investigação em teoria dos jogos, e N experiências psicológicas que mostram que o homem age de forma muito mais empática e altruísta do que aquilo que a direita lhe dá crédito.
      Tendo em conta que muitos dos que agitam a ideia do «homo economicus» enchem a boca com a defesa do «individualismo» (mesmo que considerado de forma bastante incompleta...) aí tens como é perfeitamente possível ser individualista e ao mesmo tempo não só recusar um acto de fé na bondade do indivíduo, como até não é tão raro fazer o oposto: um acto de fé na sua total falta de empatia.

      2- No que a mim diz respeito não sei onde foste buscar a ideia que adiro a um «acto de fé na bondade do indivíduo». A mim parece-me tão errada a perspectiva do «bom selvagem» como a do «homo economicus»: o ser humano é mais complexo e diverso do que qualquer modelo simplista. Primeiro tentei fundamentar a minha perspectiva sobre a natureza moral do homem na investigação (sociológica, psicológica, antropológica, económica, etc..) a esse respeito, e não me limitar a qualquer «acto de fé».
      Depois, sou da opinião que um ser humano «normal» tem pulsões egoístas, mas também sente empatia, e é muito condicionado pelos valores com que foi educado. Há uma grande diversidade de pessoa para pessoa (os psicopatas pouca ou nenhuma empatia sentem), mas no geral as pessoas nem são santos nem demónios.
      Assim sendo, a tua convicção a meu respeito está errada.

      3- E o que raio é que isso tem a ver com ateísmo? Há ateus com todas as convicções possíveis e imaginárias a respeito da natureza moral do ser humano. Há os que acreditam no relativismo moral, há os que acreditam no «homo economicus», há os que acreditam no «bom selvagem», há os que têm uma posição semelhante à minha, e por aí fora. E quanto aos agnósticos também!
      Aliás, a distinção entre o teu agnosticismo e o meu ateísmo é muito fraca. Tu dizes que sem certeza absoluta a respeito da inexistência de Deus não podes afirmar que não existe. Eu digo que não posso ter a certeza absoluta em relação a NADA (a terra pode efectivamente ser plana) eu afirmo algo quando tenho boas razões para acreditar que a verdade dessa afirmação é mais provável que a sua falsidade (por isso afirmo: a terra não é plana). Ou seja: como sou "agnóstico" em relação a tudo, e não acredito que qualquer crença a respeito da realidade seja definitiva (no sentido em que não possa ser destituída se surgirem boas razões para o fazer), a questão de Deus não justifica nenhum cuidado adicional.

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  5. Ricardo, não conhecia o artigo que lincas do Carrilho (nessa altura ainda não o lia). É mesmo muito bom. Ele tem toda a razão. O ecologismo, a ti, é que, colidindo com o teu individualismo, te passa completamente ao lado.

    Profundamente reacionário é gostar de touradas, falar em "direitos do homem", etc. etc.

    O último parágrafo do meu comentário anterior não é provocação nenhuma. A sério.

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    1. «O ecologismo, a ti, é que, colidindo com o teu individualismo, te passa completamente ao lado.»

      Explica lá a relação entre o meu individualismo e a minha (relativa) indiferença ao ecologismo.

      «Profundamente reacionário é gostar de touradas, falar em "direitos do homem", etc. etc.»

      Gostar de touradas sem dúvida, falar em «direitos do homem», não sei porquê. A menos que consideres a Revolução francesa reacionária, a DUDH reacionária, e a Constituição portuguesa de 1976 reacionária.

      «O último parágrafo do meu comentário anterior não é provocação nenhuma.»

      Então explica-o lá. É que nem eu nem o João Vasco temos uma visão dicotómica («bondade»/«maldade») da natureza humana. Aliás, eu já escrevi sobre isso neste blogue. Por isso não percebo mesmo onde queres chegar.

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