terça-feira, 19 de junho de 2012

Economismo - um vivo debate

O texto que aqui partilhei do Ludwig Krippahl parece ter dado lugar a um vivo debate. No Blasfémias o Rui Albuquerque respondeu-lhe com este texto, que aqui resumo:




«Reiterando o apelo ao rigor metodológico e científico que o Ludwig invocou no começo do seu texto, principiava por lhe pedir o favor de me especificar as variações tributárias que refere terem ocorrido nos EUA, [...].

Como pode, por exemplo, o Ludwig provar que “Quanto mais dinheiro se tem mais fácil é obter o dinheiro dos outros”; ou que “a melhor forma de enriquecer no sector privado é apropriando-se da riqueza criada por outros”; ou também que a riqueza privada “é simplesmente um somatório de preços”; ou ainda que para que “os agentes económicos possam gerar riqueza num mercado livre é preciso uma data de coisas que só o Estado pode garantir”; ou, ainda e por fim, que “a economia privada só é sustentável se houver redistribuição que compense a sua tendência para agravar desigualdades”. Quem lhe disse todas estas coisas? Como as demonstra? [...] Ou será que o Ludwig está satisfeito com a evolução da justiça, da segurança, da saúde e da educação de Portugal? [...]

A questão de fundo em torno desta problemática é, assim, de natureza moral, e não de mera discussão ideológico-partidária, para que nos remetem as convicções do Ludwig: coagir alguém a entregar-lhe aquilo que é seu, que foi obtido pelo esforço e pelo trabalho individual é, em linguagem comum, um roubo. Não acha, o Ludwig, que a propriedade tem uma dimensão moral inerente? Ou pensará que tudo é de todos, e que aquilo que ganhamos com o nosso trabalho há-de ser disposto por terceiros, sem o nosso consentimento?»

No Douta Ignorância a Priscila Rêgo respondeu com este, que citarei resumindo:

«Primeiro, a questão ética. É difícil discutir com quem parte do axioma de que os impostos têm o mesmo estatuto moral do roubo e que, no que diz respeito a taxas, tudo o que cai acima de 0% já começa a pedir um apelo às armas. Não porque seja um postulado difícil de refutar (os pressupostos também se discutem, e este nem é particularmente robusto), mas porque a relação custo/benefício de entrar por este caminho é péssima. [...]

Em tom irónico, ele pede: "o favor de me especificar as variações tributárias que refere terem ocorrido nos EUA"[...] 

Felizmente, não precisamos de informação tão minuciosamente detalhada. Se o que queremos é perceber o impacto dos impostos no crescimento económico, podemos apoiar-nos em investigação empírica feita por quem sabe. Não é preciso começarmos nós a inventar a roda do nada: há quem já ande nisto há uns aninhos. [...]

Deixem-me repetir, para ficar tudo bem claro. Ninguém nega que os impostos têm um impacto na actividade, e que este impacto é negativo e que pode ser potencialmente destrutivo. O que a investigação empírica mostra é que a magnitude deste efeito é consideravelmente mais baixa do que se pensava há algumas décadas. É possível subir taxas – particularmente quando elas estão a um nível relativamente baixo, como é o caso dos EUA – sem afectar de forma significativa o crescimento económico e sem atingir o “ponto de viragem” da curva de Laffer.

O curioso é que esta até é uma das (poucas) áreas em que a economia das finanças públicas tem produzido resultados relativamente consensuais (na medida do possível, vá) dentro da academia.»

O Ludwig deu resposta às restantes questões no seu texto mais recente (destaques meus):

«A seguir, o Rui questionou algumas afirmações minhas, classificando-as «de simples conteúdo ideológico [sem] sombra de demonstração». Primeiro, que “Quanto mais dinheiro se tem mais fácil é obter o dinheiro dos outros”. Isto é fácil de demonstrar. Quem tem muito dinheiro pode fazer tudo o que poderia fazer sem dinheiro, mais tudo o que só pode fazer com dinheiro. Logo, tem mais opções. Além disso, um dos fundamentos do capitalismo é que o dinheiro pode servir para ganhar mais dinheiro. Que “a melhor forma de enriquecer no sector privado é apropriando-se da riqueza criada por outros” também é fácil de demonstrar. Por muito enérgico e talentoso que um indivíduo seja, só tem 24 horas por dia para trabalhar. Mas se contratar mil empregados e ficar com 10% da riqueza que cada um gerar pode ganhar muito mais. É por isso que quem monta um negócio contrata empregados. Não é para fazer favores, caridade ou combater o desemprego. É porque lucrar com a riqueza que os outros produzem é a melhor maneira de enriquecer. Por muito bem que chute a bola, o Cristiano Ronaldo não consegue ganhar mais do que o Belmiro de Azevedo, com quase quarenta mil a trabalhar por ele. 

O Rui pede-me também que demonstre que a riqueza “é simplesmente um somatório de preços”. O conceito é complicado e varia muito com o contexto mas, em economia, a riqueza acaba por ter de ser quantificada em unidades monetárias. Ou seja, em preço. Se o Rui, quando fala de riqueza, não está a falar de euros então que explique o que quer dizer. Também é fácil perceber porque é que a economia privada sem redistribuição é insustentável. No mercado livre, a riqueza de cada um vai variando, seja por mérito, demérito, sorte ou falta dela. No entanto, enquanto que no extremo inferior se torna cada vez mais difícil obter os meios para enriquecer – o esforço, por si só, não basta, especialmente de barriga vazia – no extremo oposto acontece o contrário. Os ricos têm sempre mais opções e mais poder para as concretizar. Como há um limite para a desigualdade que uma sociedade pode comportar até que a AK-47 se torne mais relevante do que a conta bancária, sem mecanismos de redistribuição é só questão de tempo até que a economia colapse. Mas esta é das tais regras universais que se pode facilmente refutar com um contra exemplo. Basta ao Rui indicar um país onde haja estabilidade e prosperidade sem redistribuição. [...]

O que talvez seja de propósito. Suspeito que os valores deste liberalismo do Rui sejam tão repugnantes, e os factos que presume tão inverosímeis, que a única forma de o defender seja misturando tudo na esperança que a confusão disfarce o disparate. »

1 comentário :

  1. Ó FILHA ESTE está + vivo apesar de andar morto

    Portugal

    417
    Estados Unidos

    410
    França

    9
    Brasil

    6
    Luxemburgo

    6
    São Tomé e Príncipe

    4
    Noruega

    3
    Belarus

    2
    Alemanha

    2
    Dinamarca

    1


    Visualizações de páginas por navegador
    Chrome

    503 (58%)
    Firefox

    176 (20%)
    Internet Explorer

    132 (15%)
    Safari

    35 (4%)
    Opera

    17 (1%)

    Visualizações de páginas por sistema operativo
    Windows

    389 (85%)
    Macintosh

    54 (11%)
    Linux

    9 (1%)
    iPad

    2 (<1%)
    iPhone

    1 (<1%)

    o individualismo de alguns até assusta

    ó atman dos pobres d'espírito

    Ipodphode

    ResponderEliminar

As mensagens puramente insultuosas, publicitárias, em calão ou que impeçam um debate construtivo poderão ser apagadas.