sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Chegados a Vias de Facto

O meu texto Semântica no Trabalho originou uma discussão interessante no Vias de Facto, que eu vou tentar abordar de forma sintética.
A minha ideia era contrapor, ou mesmo refutar, uma tese do Miguel Madeira que me pareceu simplista. Não era apresentar uma tese nova, alternativa. O Miguel Madeira agarrou-se a uma tese que ele pelos vistos julga que eu defendi. Mas não o vi em lado nenhum defender a sua tese inicial, que eu critiquei.
Nos comentários ao texto do Miguel, Manuel Resende, tradutor e cultivador de cenouras que eu tive o prazer de conhecer no salão nobre do Hotel de Ville de Paris aqui há uns anos, perora sobre um futuro tecnológico onde desaparecerão os trabalhos desagradáveis como limpar as retretes. Intuo do texto do Manuel que não sou o único a urinar no pomar (no meu caso, da minha avó), mas para um pomar é uma coisa; para cima das cenouras (ou da salsa) é outra. (Eu sei, é o que fazem os animais selvagens, mas adiante.) E defecar, então, nem pensar (eu é que não queria andar num pomar com esse tipo de adubo não compostado). Isto é para dizer ao Manuel que podemos ser muito tecnológicos e dar excelentes aplicações aos nossos detritos: acho tudo isso ótimo. Mas enquanto não descobrirmos alternativas precisaremos sempre de retretes nas nossas casas e teremos que as limpar. O resto é ficção científica, género que nunca me agradou.

O cervejista Miguel Serras Pereira (este meu texto é tão palavroso e tem tantos links que até parece um dos dele) pega no comentário do Manuel Resende, num texto onde conclui várias coisas. Conclui (bem) que "a interiorização" de uma moral "seria o perfeito oposto da autonomia quer no plano colectivo, quer no da esfera individual" (as minhas objeções à autonomia irrestrita passam por aqui). E conclui (e eu discordo) que o comunismo "só é concebível em condições de abundância e disponibilidade de recursos rigorosamente ilimitadas". Pelo contrário, eu diria isso do autonomismo: só funcionaria em comunidades muito mais pequenas, com populações que não fossem forçadas a conviver e partilhar recursos quotidianamente, isto é, se houvesse muito menos população e menor consumo de recursos.
Disso mesmo se parece ter apercebido o Pedro Viana, que conclui que é necessário "educar para a autonomia e a frugalidade, o que é incompatível com a promoção da dependência e alienação nas actuais sociedades centradas no consumo", mas desde que exista um estado social que "assegure os mínimos". Ora se os mínimos têm de ser assegurados pelo estado é porque dele dependemos, não é? A autonomia e a independência morrem aqui. Por outro lado, concordo inteiramente com o Pedro ser necessário educar ("interiorizar uma moral", diria o Miguel Serras Pereira) para a frugalidade - escrevi isso aqui. A proibição total de publicidade é uma ideia gira, embora algo radical: o que pensaria dela o Luís Rainha?
Não consigo discutir com Zé Neves nem com alguém que chame "formulação cretina" à designação "esquerda cervejista". Não por me chamar cretino a mim; com insultos posso eu bem. Mas por chamar cretino ao Odorico Paraguaçu. Não consigo discutir com quem chama cretino ao Odorico: são demasiadas divergências ideológicas.

2 comentários :

  1. O resto é ficção científica, género que nunca me agradou.

    é um género muito diverso dezenas de milhares de obrazitas

    Quanto aos adubos humanos não compostados assim como os estrumes animais, adubam muitos abacaxis e frutos tropicais em pequenas cooperativas de agricultura familiar no mundo

    No Algarve até 1988 as estrumeiras ainda eram abundantes, provavelmente noutras partes do país em que fossas sépticas e electricidade chegaram mais tarde
    a moda continuou mais uns anos

    Exceptuando se estrumar alfaces ou hortículturas rasteiras
    o risco de contaminação é nulo

    e a XXX euros a saca de adubo
    nitratos naturais precisam-se

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  2. aro Filipe, se ler bem, eu não afirmo que as necessidades minímas de sobrevivência **apenas** podem ser conseguidas através dum Estado Social tal como os que existem em certos países. Existem alternativas, entre as quais se podem identificar algumas que preconizando a existência duma estrutura que se pode identificar como um Estado, advogam para este uma arquitectura política e organizacional radicalmente diferente. É o que defendo. A autonomia não é incompatível com a existência dum Estado. Aliás, é minha opinião que só na presença dum Estado (ie. uma estrutura que consegue impedir o uso da violência interpessoal como meio de resolução de conflitos) é possível a autonomia. O msp concorda com a necessidade da existência de estruturas de coordenação, que assegurem o cumprimento das decisões democraticamente tomadas, mas acha que tal não equivale à existência dum Estado. Acho que a discordância é essencialmente semântica.

    Pedro

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