domingo, 3 de julho de 2011

A Esquerda é mais liberal que a Direita? - Parte III

A pergunta que dá o título a esta série de textos foi colocada aqui, e o texto anterior pretendeu mostrar alguns dados que lançam luz sobre a questão. É interessante procurar as causas destas diferenças, por exemplo ao nível dos valores morais que suportam as convicções políticas. Afinal, muitas das diferenças políticas entre aqueles que ponderaram melhor sobre as suas convicções políticas e estão mais informados reflectem diferenças de valores morais.

É possível encarar uma perspectiva que divide a sensibilidade moral das pessoas em cinco categorias, que passo a descrever:

-Magoar/Cuidar: é condenável provocar sofrimento desnecessário a terceiros; é louvável ajudar terceiros; é louvável proteger os mais fracos

-Justiça/Reciprocidade: é louvável a gratidão; é louvável castigar os que agrediram outros

-Pertença ao grupo/Lealdade: é louvável defender os interesses do grupo acima dos interesses do próprio; é condenável o abandono do grupo; é condenável criticar o grupo

-Autoridade/Respeito: é louvável obedecer à autoridade instituída; é condenável criticá-la

-Pureza/Santidade: é condenável o que nos provoca naturalmente um sentimento de repulsa, tudo o que é «contra-natura»; é condenável o hedonismo; é louvável o auto-controlo no que diz respeito aos prazeres hedonistas


Qual é a sensibilidade moral de um liberal? Quais destas dimensões deveriam ser mais salientes?
Tratando-se de um liberal, dificilmente seria mais saliente a dimensão relativa ao respeito pela autoridade instituída; ou a lealdade entre o grupo. Ou não sejam o totalitarismo e o colectivismo - duas coisas que o liberalismo vê como abejctas - o corolário da aceitação desses valores morais.
Pelo contrário, para um liberal o valor que a lei deve proteger é fundamentalmente o segundo (justiça/reciprocidade), talvez em certa medida o primeiro (magoar/cuidar), dependendo da sensibilidade moral do liberal em questão.

No entanto, quando comparamos as pessoas de Esquerda e de Direita nos EUA, repetidamente se verifica que são as que se identificam como sendo de Direita aquelas que dão mais valor à terceira e quarta componentes (e à quinta, também); sendo (em termos relativos) as pessoas de Esquerda aquelas que mais valorizam as duas primeiras.



As pessoas de esquerda nos EUA são designadas como «liberals», mas a palavra tem lá um significado diferente daquele que damos na Europa, e daquele que corresponde à sua origem etimológica.

Aquilo que é curioso é que estes estudos demonstram que, de acordo com o significado que nós (europeus) damos à palavra liberal, a esquerda nos EUA é significativamente mais liberal que a direita.



Temos alguma razão para acreditar que em Portugal acontece o oposto?
Não encontro nenhum fundamento para tal alegação.

4 comentários :

  1. João, a tua "evidência empírica" reporta-se somente aos EUA, uma sociedade bem diferente da europeia do sul, por exemplo. Todas as conclusões a que chegas podem ser válidas para os EUA, mas não o são para outros tantos países. E não o são em geral. Continuo a achar que, em geral, a questão que levantas não tem resposta. Não faz sentido.

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  2. Filipe Moura:

    Eu especulei que o mesmo fenómeno acontecesse em Portugal. A especulação baseava-se nas enormes semelhanças culturais.

    O Miguel Madeira, nos comentários ao primeiro texto, disse algo que indicia que esta especulação tinha razão de ser:

    «"Em Portugal não existem estudos que nos possam dar uma resposta directa."

    Existe pelo menos um estudo (com resultados semelhantes aos que o João Vasco apresenta), mas vio-o num livro (tenho uma vaga ideia que do José Adelino Maltez) que folhei numa livraria - ou seja, não tenho nenhuma pista para a sua identificação. O estuda analisava uma perferencia por igualdade vs. liberdade na economia e no resto e chegaram à conclusão que a defesa da "liberdade" na economia estava associada à defesa da "igualdade" (entendida aqui como uniformidade) no resto, e vice-versa (a explicação que os autores sugeriam era que, como Portugal teve uma ditadura com grandes desigualdades de riqueza, isso levava os defensores do igualitarismo económico a serem contra ditaduras).»

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  3. Miguel Madeira,

    «na economia, a esquerda tende a ser colectivista e a direita individualista; mas, em termos culturais e intelectuais, é a esquerda que valoriza mais a ideia do individuo pensar por si próprio e não ligar aos "preconceitos sociais", enquanto é a direita que valoriza mais a ideia de que uma tradição comum é o "cimento" da sociedade e que é impossivel o individuo procurar a "verdade" por sí próprio, ignorando os "ensinamentos" dos antepassados»

    Pois, é a situação descrita na segunda imagem do primeiro texto.

    De qualquer forma, em rigor poder-se-ia alegar que a defesa da propriedade privada é que é colectivista... afinal é a «ditadura da maioria», a gigantesca maioria que prefere abdicar de furtar para evitar o esforço constante de proteger os bens a que tem acesso (maioria na qual me incluo sem reservas).

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