segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Wikileaks (7): instantâneo do país dos brinquedos caros

Num telegrama da embaixada dos EUA em Lisboa (revelado pelo Expresso), diz-se que «no que diz respeito a contratos de compras militares, as vontades e acções do Ministério da Defesa parecem ser guiadas pela pressão dos seus pares e pelo desejo de ter brinquedos caros. O ministério compra armamento por uma questão de orgulho, não importa se é útil ou não. Os exemplos mais óbvios são os seus dois submarinos (actualmente atrasados) e 39 caças de combate (apenas 12 em condições de voar) (...) Com 800 quilómetros de costa e dois arquipélagos distantes para defender, os submarinos alemães comprados em 2005 não são o investimento mais sensato». Que os submarinos foram um negócio estúpido, já sabíamos - alguém deve ter ganho uma casa de férias (ou Portas ou outro). Mas a frase sobre o desejo de brinquedos caros é um retrato certeiro e contundente da governança portuguesa. Poderia acrescentar-se que preferimos grandes auto-estradas a cuidar das pequenas estradas nacionais, estádios de futebol ao investimento no desporto jovem, e blindados a policiamento eficaz. Não percebo portanto as insinuações maldosas sobre o senhor embaixador dos EUA - ele mostrou ter-nos entendido muito bem.


Telegrama na íntegra.
  • «Portugal has more generals and admirals per soldier than almost any modern military: 1 per 260. The U.S., by comparison, has a ratio of 1 per 871. The image of generals sitting around doing nothing is no mere allegory. (...) Regarding defense procurement, the MOD´s desires and actions seem to be guided by peer pressure and the desire for expensive toys. The MOD purchases weapons platforms as a matter of pride, regardless of their utility. The two most obvious examples are their two submarines (currently delayed) and 39 fighter jets (only twelve of which are airworthy). (...) Portugal suffers from an inferiority complex and a sense of being economically, politically, and militarily weaker than its European and transatlantic partners. For this reason, the Portuguese tend to focus on qualitative factors rather than quantitative; i.e., how soldiers performed rather than the number deployed. In this regard the GOP regularly searches for validation. GOP officials often complain that we take them for granted. They are particularly cognizant that next door in Spain a government opposed to many of our policies seems to get regular high-level visits and love. In this climate, attention to Portugal from either President Obama or Secretary Clinton would help achieve our goals.» (Expresso)