segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Um mal que aumenta proporcionalmente não deixa de ser um mal a aumentar

A Priscila Rêgo d´A Douta Ignorância deu-se ao trabalho de comparar as taxas de desemprego (totais, jovens, licenciados) em 1998 e 2010. Bom trabalho. Conclusão factual: as taxas de desemprego para os três grupos mencionados aumentaram todas sensivelmente do mesmo factor (entre 2,1 e 2,3). Conclusão opinativa (com que não concordo): os jovens licenciados não têm razão de queixa.

Não acho que seja assim tão simples. O facto mais saliente nos gráficos do desemprego do post da Priscila é aquelas colunas de desempregados a mais do que duplicarem. Está bem, duplicam quase da mesma forma para a percentagem total de desempregados, para a de jovens desempregados, e para os licenciados desempregados. Mas o facto é que duplicam, e em pouco mais de dez anos. E quando o desemprego entre os jovens, mesmo que licenciados, ultrapassa os 20%, não se pode esperar um silêncio resignado (como não se pode esperar da restante parte dos desempregados). E há outra conclusão que se pode retirar: de 1998 a 2010, o valor do factor «ser licenciado» não subiu no mercado de trabalho. Manteve-se estável. O que não pode ser considerado positivo.

Mas há outro problema, e que não pode ser deixado de fora desta discussão: o da precariedade. Uma crescente parte do trabalho, e mesmo do trabalho qualificado, é cada vez mais precária, de diversas formas: estágios, bolsas, recibos verdes, contratos a prazo, etc. Seria útil que alguém fosse comparar como evoluíram estes segmentos nos últimos 10/20/30 anos. A percepção geral é que todos aumentaram, e duvido que não tenham aumentado mais entre os jovens do que entre a população em geral. Porque o paradigma do «emprego para a vida», que não era exclusivo da função pública mas também se estendia às grandes empresas, mesmo as privadas, morreu lentamente a partir dos anos 80. Enquanto um jovem licenciado até, vá lá, 1985, só não encontraria um emprego estável se não quisesse, hoje será quase impossível.

Claro, é tudo a bem da economia e da flexibilidade, ou, sobretudo, das empresas e da competividade. Mas o que tudo isto faz à vida das pessoas não é bonito. E portanto não admira que a canção dos Deolinda se tenha tornado um lugar comum dos nossos dias.