segunda-feira, 5 de novembro de 2012

A «crise» da natalidade tem meio século

Os políticos, muitas vezes, crêem-se omnipotentes (ou tentam-nos convencer de que o são). Estou tão habituado que ao ouvir falar dos «alertas» (sic) do Presidente sobre o «inverno da natalidade», ou de medidas avulsas (mas talvez valorosas) dos autarcas, só sorrio. Porque a queda da natalidade é uma tendência com já meio século de duração: o último alto pico de nados vivos em Portugal foi em 1962 (220 mil); desde aí, tem sido o que se vê do lado direito do gráfico (em 2011, baixámos até aos 97 mil). Note-se bem: há 50 anos havia guerra colonial, ditadura e o palerma de Santa Comba Dão. Depois, houve uma revolução, acabou a guerra, morreu o Cerejeira, instaurou-se a democracia, vieram os «retornados», entrou-se na CEE, passámos de país de emigrantes a país de imigrantes e, finalmente, chegámos à crise do euro. Não deve ter havido primeiro ministro (na ditadura, na revolução ou na democracia) que não tenha prometido «apoiar a natalidade». Foram dezanove e, sinceros ou não, com boas ou más ideias, pouco puderam fazer para inverter a tendência de algo que resulta de um somatório de dezenas de milhar de decisões individuais nada fáceis e muito íntimas.

Todavia, a natalidade não é completamente indiferente à política: do lado esquerdo do gráfico vêem-se bem os dois anos da pneumónica e os anos em que a segunda guerra mundial realmente afectou Portugal (porém, acontecimentos bem para lá do controlo dos políticos nacionais). E, por outro lado, o pico do ano 2000 (que tem o seu lado cómico) não seria possível sem a (relativa) prosperidade da viragem do século. Se realmente os nascimentos este ano caírem para os 90 mil ou para os 80 mil (!), será um sinal (mais um) da crise económica. Mas também «apenas» o agravamento de uma tendência que é de muito longo prazo.