sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Sarkozi e os ciganos

Julgo que ninguém, aqui e em França, duvida que Sarkozi é um crápula e que a expulsão de cidadãos da UE, legal ou não, é uma jogada política populista.

Acho importante, no entanto, que nos metamos na pele dos franceses que aplaudem esta iniciativa e tentemos imaginar porque o fazem.

Os imigrantes são frequentemente difíceis de integrar. Não se aprende uma língua de um dia para o outro e não se abraça uma cultura diferente em poucos anos. Sobretudo numa Europa economicamente deprimida e cheia de tensões étnicas e religiosas, onde os tecnocratas conspiram contra a classe média num ambiente tenebroso e anti-democrático.

Parece-me fácil demais atirar pedras a quem está farto de ser roubado, ou vive aterrorizado com a criminalidade associada a grupos de imigrantes. Estes problemas são sérios e requerem soluções sérias. Não se podem ignorar sob pena de vermos a extrema-direita eleita em toda a Europa em poucos anos.

A França tem um atradição longa de tolerância e tem feito um esforço enorme para receber e integrar milhões de imigrantes económicos. Quem é que não viu o filme de Laurent Cantet "Entre les murs"?

Acho que não nos devemos esquecer que as tensões entre franceses - de ascendência francesa ou outra - e imigrantes recentes têm causas reais: criminalidade, ruído, problemas sanitários, diferenças religiosas ou culturais difíceis de conciliar.

Quem de entre os críticos de Sarkozi na imprensa europeia não se importava se o vizinho de cima convidasse os primos todos (dúzias e dúzias de primos) para matar, esfolar e cozinhar um cabrito no andar de cima, ao domingo, a começar às sete da manhã, com a telefonia aos berros e o sangue a escorrer da varanda e pelas escadas abaixo? E o elevador (mais uma vez) vandalizado por magotes de miúdos mal educados?

Tenho um amigo holandês cuja mulher é frequentemente insultada em Amesterdão por andar sozinha e com a cara destapada. Em Zandvoort, o carro da minha sogra foi vandalizado quatro vezes seguidas em frente à casa para lhe roubarem gasolina. O vizinho de cima tentou impedir os miúdos, foi brutalmente espancado e acabou internado num hospital.

Há muitos anos, em Santarém, tive um acampamento de ciganos no jardim da casa em frente da minha durante mais de um ano. Adorei. A minha experiência foi óptima. Eram simpáticos e divertidos, tinham sempre a música aos berros dentro de uma das carrinhas - flamenco! - e tive imensa pena quando se foram embora. Mas sei que há pessoas que têm experiências muito diferentes com vizinhos de outras culturas.

3 comentários :

  1. «Há pessoas que têm experiências muito diferentes com vizinhos de outras culturas.» A solução é expulsá-los, construir um mundo em redor da Europa, esvaziada porque não quer ter filhos? Ou escolher raças «limpas» (já houve quem o fizesse...)?

    Eu vivi uns anos na Bélgica, num bairro bem burguês, onde era «descriminada» porque puxava o autoclismo depois das 22h. Também não somos sempre bons vizinhos...

    Fácil? Claro que não, mas é assim o mundo - diferenciado e, definitivamente, misturado.

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  2. Joana,
    tivemos uma luta difícil com o cristianismo, de séculos, para organizar a sociedade em moldes que fossem aceitáveis para todos - mais ou menos religiosos, ou mesmo anti-religiosos.

    Agora, em metrópoles europeias como Amesterdão, Bruxelas, Paris ou Londres, descobrimos (nem todos ainda o descobriram) que vamos ter que explicar tudo outra vez: que o corpo da mulher não é «impuro», que uma mulher pode andar de cara descoberta na rua (!), que se pode criticar a religião, etc. Em cima disto, temos os problemas de pobreza e criminalidade, que não resultando do islamismo, se combinam com o problema religioso por serem as mesmas pessoas.

    Tenho o maior asco por Sarkozy, Wilders e Berlusconi. Mas não podemos meter a cabeça na areia e fingir que não existe um problema novo, porque o problema é bem real.

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  3. A França tem um a tradição longa de tolerância
    nunca na prática
    os bidonvilles cheios de portugueses ainda existiam nos anos 70
    mesmo nos anos 90 se falamos bem francês e não somos pieds noirs nem argelinos podemos ser condescendentemente considerados
    bons servos

    os pieds noirs já arribaram há 50 anos são franceses
    e mesmo hoje os seus descendentes em grenoble levam pancada com os argelinos de recente arribação


    e tem feito um esforço enorme para receber...sim

    e integrar milhões de imigrantes
    não...
    os guetos policiados são maiores do que os dos anos 30

    quando deportavam os espanhóis para as mãos de franco
    o filho do polaco ou português é francês
    mas o pai é um corpo estranho
    conjuntamente com convertidos
    às missões que embora franceses
    e católicos ainda têm a pele um poucochinho escura

    eu sou francófobo só os do sul se safam e depende das zonas e o midi...
    tem tantas variantes

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