quarta-feira, 23 de maio de 2007

Reconhecer direitos sem reciprocidade? Nããã...

O Ludwig Krippahl insiste em que uma ética humanista implica deveres para com animais que não são obrigados a reciprocar deveres para connosco, e com os quais, aliás, nunca conseguiremos comunicar satisfatoriamente. (O corolário desta tese é que os animais não humanos nos podem fazer coisas que nós não lhes podemos fazer.) O exemplo que dá, o do cão, é mauzito: os cães não aderem a um dever, submetem-se ao dono. Enquanto não forem capazes de altruísmo desinteressado, ou de reparar um erro, sugiro que os deixemos de fora de qualquer humanismo. Não podemos reconhecer direitos a quem nunca os reconhecerá a nós (os recém-nascidos reconhecê-los-ão com o passar do tempo, as pessoas em coma também).
Mas reconheço que a reflexão que o Ludwig produziu é interessante, e que a frase «a ética nasce neste constrangimento do posso mas não devo, ou do devo mas não quero» é para guardar.
Conclusão: humanismo para os humanos; um tratamento ético para os animais, talvez, mas por prerrogativa nossa e não em nome de deveres que eles não podem reciprocar.

5 comentários :

miguel disse...

Então e os humanos com graves deficiências mentais? Também não podemos comunicar com eles, nem eles responderão às nossas comunicações?

Será que podemos fazer touradas com eles?

panúrgio disse...

a quem estiver interessad@ em aprofundar este tema ultrapassando o vício do pensamento especista aconselho o livro Libertação Animal do filósofo Peter Singer. lá defende-se o princípio da igual consideração de interesses em que a avaliação do ser em questão (animal humano, animal não humano, outros seres vivos), partindo do seu ponto de vista e do que a ciência nos permite conhecer, é a base mais sólida para uma ética universal dos seres.

os animais não humanos não têm os mesmos interesses que os seres humanos, o que não quer dizer que não tenham os seus próprios interesses. é só isto que devemos respeitar. o especismo é a continuação do racismo, do sexismo e de outras formas de discriminação desta feita dirigidas aos animais

argumentações como esta da falta de reciprocidade já foi usada no passado em relação a outros seres humanos. é mais uma forma de dominação e domesticação dos seres usando para isso raciocínios elaborados para ignorar o resultado final que, como se sabe, é calamitoso (das touradas à indústria alimentar)

parte do interesse desta discussão sobre a subjugação animal diz respeito à própria subjugação do ser humano porque quando se abre a porta a um tipo de dominação torna-se mais fácil aceitar outras. o princípio é sempre o mesmo: a aceitação ou a falta de sentido crítico em relação à dominação

Ricardo Alves disse...

Miguel,
os humanos com deficiências mentais pertencem à nossa espécie.

Panúrgio,
são justamente os pontos de vista de pessoas como o Peter Singer que pretendo criticar. Não considero que os interesses dos animais não humanos devam ter o mesmo valor do que os interesses dos animais humanos. Por isso, fica à vontade para me chamar especíista (ou lá como se escreve o palavrão)... ;)

O seu posicionamento, Panúrgio, tem exactamente o problema de raiz que me levou a iniciar esta série de artigos: as comparações (de mau gosto) entre racismo e sexismo de um lado e «especíismo» do outro. Que eu saiba, os negros e as mulheres são seres da nossa espécie, que podem efectuar todas as tarefas e missões sociais que os homens brancos efectuam. Nunca vi um touro a fazer uma cirurgia ou um cão a dar aulas. Arrisco mesmo que seriam incapazes de o fazer. E por isso proponho que sejam tratados de forma diferente.

E não, não considero que a nossa «dominação» sobre os animais «não humanos» possa ser considerada sequer semelhante à dominação do homem pelo homem: os últimos são iguais entre si.

panúrgio disse...

a defesa dos interesses de um ser pela mera pertença à espécie é injustificável. daí a resposta ao miguel ser tão parca.

cada um@ escolhe os critérios que considera importantes para diferenciar os seres. mas, evidentemente, há critérios melhores do que outros. o critério da espécie é dogmático, arbitrário e falha uma premissa importante na ética: a universalidade. o critério da sensiência é muito mais justo para tod@s porque tenta colocar-nos na pele do "outro"

eu não ponho ao mesmo nível o especismo das discriminações entre humanos. estas são concerteza mais graves, tal como o sofrimento de um ser humano em cativeiro é maior que o de um animal nas mesmas condições. o que não faço é ignorar a realidade do especismo e as suas consequências.

quando digo que o pensamento especista e o racista ou sexista são idênticos, refiro-me unicamente ao raciocínio que origina esse comportamento, que certamente segue a mesma lógica em todos os casos: a pretença à raça, ao género, à espécie, etc. e a glorificação das características que o grupo possui e que são elevadas ao estatuto de critério de superioridade (características essas que nem todos os membros do grupo possuem mas, ainda assim, os faz ficar protegidos pela pretença à espécie)

uma última nota: acho sempre incrível aqueles que contribuem activamente para a indústria do sofrimento animal (poderia usar o mesmo argumento em relação aos sexistas, aos homófobos, aos classistas, etc.), como se não bastasse o que já fazem, ainda se disponham a criticar aquel@s que tentam combater essa calamidade. "ai os malandros dos animalistas!!!"

Ricardo Alves disse...

O critério especíista é prático, evidente e garante a reciprocidade de direitos. Não posso ser obrigado a colocar-me na pele de um touro, de um cão ou de um rato.

A espécie é um conceito real. Por exemplo: podemos todos cruzar-nos entre nós. Os chimpanzés, por muito inteligentes que sejam, não pertencem à nossa espécie.