quinta-feira, 3 de maio de 2007

O sucesso social da religião organizada

O facto de as igrejas e outras comunidades religiosas se manterem estáveis durante um número considerável de gerações não tem qualquer mistério. Por definição, uma instituição autoritária é estável: os dogmas não se discutem, as regras não se mudam, quem manda não é questionado.

Mas, mesmo em contextos em que é possível abandonar a religião em que se cresceu, pode haver incentivos para não o fazer. Afinal, uma congregação onde se entra criança e de onde só se sai para o cemitério, com reuniões algumas vezes por mês ou até todas as semanas, permite manter uma rede de apoio social difícil de substituir. Ao longo de toda a vida, aqueles crentes que se vão conhecendo, que aturam as mesmas missas, que acabam por acreditar (ou por dizer que acreditam, o resultado é o mesmo) nas mesmas superstições e nos mesmos valores, desenvolvem naturalmente laços de confiança. Alguns serão (mentalmente) tão ateus como eu. Mas não abandonam o grupo da bisca, perdão, da igreja.

Em sociedades rurais, em que a comunidade da aldeia coincidia com uma unidade religiosa, era muito difícil sair do rebanho. Nas cidades modernas, já não é assim. Do grupo da escola primária (ou do liceu), até aos amigos de bairro ou do andebol, qualquer indivíduo transita entre vários grupos que não se excluem, e que não convergem necessariamente numa qualquer igreja. A urbanização dá uma machadada no papel social da religião.

[Diário Ateísta/Esquerda Republicana]

5 comentários :

João disse...

Está bem visto e é verdade. Mas e os guetos urbanos? E as famílias de alta classe social que vêm nas cerimónias das Igrejas lugar previligiado para estabelecerem os seus contactos?

Ricardo Alves disse...

São excepções. Os dos guetos urbanos, por escaparem a quase todas as redes de solidariedade social (inclusivamente as estatais), acabam por ficar mais vulneráveis ao proselitismo religioso. Os das classes altas, penso que terão igrejas muito escolhidas. Ah, e têm a Opus... ;)

tiago disse...

Temos que abrir uma repartição publica em cada bairro para melhor servir o rebanho...

João disse...

Com a destruição de estruturas sociais pelo neo-liberalismo, essa vulnerabilidade extende-se à maioria da população, que ficará dependente da rede de proteção social da Igreja, e ao mesmo tempo sujeita ao apaziguamento e imposição da mentalidade de escravos e resignação. Razão tinha o Pedro Arroja quando dizia que o Liberalismo não vive sem o Cristianismo (neste caso extensível às outras religiões.
Nos países com menor proteção social estatizada fica assim explicada a maior adesão à religião organizada ex: brasil, eua . não?

João disse...

Outra: as classes mais poderosas necessitam de entrar na religião de uma forma que lhes permita controlar de alguma forma a doutrina para
1: Expiarem a questão moral de explorarem os outros (claro que podes dizer-me que têm outras formas de o fazer, como o evangelho do neo-liberlismo mão invisível, do egoísmo que resulta no bem comum, etc.)
2: controlarem de alguma forma a faceta apaziguadora da religião.

Onde quero chegar: religião é coisa de muito pobres ou de muito ricos. E parece que é para aí que o mundo está a evoluir.