quarta-feira, 23 de maio de 2007

Há licenciados a menos

«Andamos a formar engenheiros e doutores para o desemprego»

«Em Portugal tudo quer ser doutor. Temos é doutores a mais»


Quem não ouviu já estas afirmações? Seguramente afirmações do tipo não são novas para o leitor.
Convém deixar bem claro que são um rematado disparate.

De acordo com números de 2002, a população portuguesa em idade activa como Ensino Superior era apenas de 9%, sendo de 29% na média da OCDE [página 51 daqui]. Leu bem: Portugal não tem licenciados a mais - tem licenciados a menos.

Em segundo lugar convém lembrar que em Portugal a taxa de desemprego entre licenciados é significativamente menor que entre não-licenciados. Vejam-se os valores obtidos neste estudo do Banco de Portugal [a partir da página 73]:




Em Portugal, um licenciado ganha, em média, muito mais que um não licenciado, e o investimento em educação superior é dos mais rentáveis que um indivíduo pode fazer:



Deve notar-se que o ensino superior traz muitas vantagens ao indivíduo além do dinheiro. Mas ainda assim, o investimento numa licenciatura garante, em média,
uma taxa de rentabilidade real de 15 por cento — uma rentabilidade definitivamente excepcional.

O irónico nisto tudo, é que não só vale a pena estudar em Portugal, como vale mais a pena que noutros países. O que faz sentido, visto que Portugal, tendo menos licenciados, tem mais falta deles:



O artigo do Banco de Portugal também desmonta muitas das objecções que são geralmente feitas: a de que estas diferenças se devem a capacidades inatas dos indivíduos, a de que a Universidade não faz mais do que certificar habilidades, a de que este efeito é devido à auto-selecção dos indivíduos, entre outras.
Vale a pena ler.


Conclusão: alguma (muita?) direita não gosta que o estado invista em educação. O investimento estatal em educação não se limita a atenuar as diferenças sociais: enriquece toda a sociedade, que assim fica mais próspera e com maior capital humano.
Isso é válido para (entre outros) o Ensino Básico, o Ensino Secundário e o Ensino Superior.
Em Portugal, no que respeita ao Ensino Superior, este merece sem dúvida um investimento forte. É imperativo manter a qualidade (ou elevá-la), mas também formar em quantidade. Portugal tem falta de licenciados, e é importante formá-los.
Quando se diz que existem licenciados a mais em Portugal, diz-se um disparate patético e absurdo, sem qualquer relação com a realidade. É importante «acordar» aqueles que continuam a espalhar esses mitos sem fundamento para a realidade dos factos.

4 comentários :

miguel disse...

Há ainda o mito de que há muito desemprego em percentagem absoluta entre os licenciados.

É verdade que ela é alta, mas apenas porque não se toma em consideração o facto de o nível de actividade entre os licenciados ser muito maior. Ou seja, se considerarmos a percentagem de desempregados entre os licenciados QUE PERTENCEM À POPULAÇÃO ACTIVA, então este valor é bem baixo do que o valor dos indivíduos com pouca formação

Fulano de Tal disse...

Tb seria interessante saber a distribuiçao dos licenciados por área de formação, relativamente aos restantes niveis de ensino.

Ricardo Alves disse...

Dados muito interessantes, João Vasco!

João Vasco disse...

Fulano de Tal:

Veja a hiperligação do artigo.
O relatório tem uma tabela que ocupa uma página inteira sobre esse assunto.

Basicamente os cursos de Saúde e Engenharias são os mais procurados. Os cursos de letras são os menos procurados, tanto quanto me lembro.

A área era um factor realmente muito decisivo, de acordo com o relatório.



Ricardo:

Obrigado. Também achei isso. :)