segunda-feira, 21 de maio de 2007

O humanismo aplica-se aos bois?

No Que Treta!, o Ludwig Krippahl defende galhardamente os direitos dos touros e outros quadrúpedes.
A raiz da nossa divergência cresce do entendimento que o Ludwig faz da ética humanista, cuja aplicação ele estende a outros animais (embora, aparentemente, apenas aos mamíferos). Acontece que uma ética humanista não se esgota no enunciado dos seus valores fundamentais: é necessário explicitar quem são os sujeitos dos direitos e deveres resultantes. Mas concordo com o Ludwig que nenhuma ética humanista pode ser centrada em seres divinos imaginários, e portanto proponho que o humanismo seja centrado no animal humano, à exclusão de animais não humanos. Apenas seres que podem estabelecer relações de reciprocidade entre si podem ter direitos (e deveres) iguais. É o caso dos seres que pertencem à nossa espécie, mas não podemos definir «direitos dos animais» da mesma forma que não podemos enunciar «deveres dos animais». (Confesso que nunca vi um animal não humano reclamar direitos ou organizar-se para esse fim, mas posso andar distraído.)
O Ludwig argumenta que teremos deveres para com os animais, sem exigir que eles os tenham para connosco. Pessoalmente, discordo. Se formos por aí, desembocaremos no pior paternalismo, para além das contradições inevitáveis (o boxe é mais voluntário do que uma luta de cães? Porquê?). A defesa de que os animais não sejam tratados com crueldade pode ser feita, não a partir de «direitos» reconhecidos aos animais, mas sim a partir da nossa preocupação com eles.
Finalmente, o Ludwig diz que «a nossa espécie é parte de um contínuo biológico». Será verdade, mas há vários tipos de contínuo. O contínuo dentro da nossa espécie é bastante mais suave do que o contínuo acidentado entre a nossa espécie e os seus parentes mais próximos. Sugiro que deixemos de fora do humanismo as espécies animais que não desenvolveram linguagens complexas e com as quais não nos podemos cruzar (seria fascinante discutir o que fazer com os homens de Neanderthal; ou com os homens das Flores; mas...).



Outras reacções: A ética das touradas (notar o «todos deveríamos ser vegetarianos» do autor, para exemplo de como as «consequências remotas» que enunciei no primeiro artigo não estão assim tão longe); Sobre direitos dos animais e touradas (mas eu não disse que não pode haver manifestações a favor de uma proibição...).

4 comentários :

matarbustos disse...

Ricardo:

ando um bocado afastado da polémica, confesso que não tenho tido tempo para ler as caixas de comentários, mas parece-se exagerando insistir a agitar o «todos deveríamos ser vegetarianos», os limites absurdos de proibição do boxe e demais espantalhos argumentativos.

não é exaltando a irrazoabilidade de um extremo que se justifica que se cole ao extremo oposto.

neste momento tendo a subscrever o primeiro post do ludwig que me parece a opinião mais equilibrada até agora.

matarbustos disse...

no meu comentário, a gralha 2 em 1:
"parece-me exagerada"

panúrgio disse...

não li tudo o que foi discutido para trás mas tenho algumas questões a pôr acerca deste assunto

"Apenas seres que podem estabelecer relações de reciprocidade entre si podem ter direitos (e deveres) iguais."

no caso de bebés ou pessoas com deficiência mental aplica-se o mesmo critério da reciprocidade? porque é que se elege este critério como decisivo? penso que será importante mas não vejo razão nenhuma para o tornar decisivo


a questão dos direitos e deveres é secundária e parece-me que está a trazer confusão à questão. por isso concordo com esta enunciação que o Ricardo Alves faz:

"A defesa de que os animais não sejam tratados com crueldade pode ser feita, não a partir de «direitos» reconhecidos aos animais, mas sim a partir da nossa preocupação com eles."

sendo que o mesmo princípio pode ser aplicado aos humanos

por último, ainda não percebi em que é que o Ricardo Alves sustenta a ideia de distinção de consideração entre humanos e não humanos. se for por uma questão de capacidades superiores (racionalidade, memória, etc.) então não passa de especismo que é tão insustentável como o racismo

para mim esta questão passa necessariamente pela consideração do sofrimento (e também o prazer, os interesses, as expectativas, os projectos de vida, etc.) como foi falado no sos acriticismo. isto faz-nos, a nós humanos, mais passíveis de consideração e preocupação mas não exclui os outros animais, pelo contrário, abrange-os tendo em conta as suas particularidades

Diógenes de Roterdão disse...

Ricardo, a resposta a esta posta encontra-se em:

http://sosacriticismo.blogspot.com/2007/05/responsabilidades-humanistas.html