segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A greve geral

Um amigo meu costuma dizer que “toda a gente é de esquerda até ao dia em que preenche uma declaração de impostos”. Não julguem que esse amigo meu deu em ser de direita, apesar de quando éramos colegas de curso, aos 20 anos, ele votar no PSR por causa da legalização da ganza. Continuou de esquerda, mas trabalha e, como é natural, preocupa-se com o destino dos seus impostos.
Também eu me preocupo com o destino dos meus impostos, mas acho muito bem que os pague e nunca questionei as minhas convicções ideológicas sempre que preenchi o IRS. Este teste surgiu verdadeiramente esta semana: toda a gente é de esquerda até ao dia em que tem que fazer uma greve. (Uma greve a sério; não não ir às aulas. Essas fiz algumas no ensino superior e, mais a sério, eram no ensino secundário – também as fiz contra a PGA-: ao menos aí o pessoal apanhava faltas e podia chumbar.) Toda a gente é de esquerda até ser confrontado com prescindir de uma parte do seu salário. Na idade em que o meu amigo votava no PSR e fumava ganzas, eu não tinha a menor dúvida: um trabalhador deveria sempre fazer greve, por solidariedade com os seus colegas.
A greve da semana passada, porém, não era uma greve setorial, e não tinha a ver estritamente com os meus “colegas”: era uma greve geral. E foi por isso que eu aderi: não creio que a minha classe tenha especiais razões de queixa, mas têm todos os trabalhadores. E os desempregados. E os precários. Aderi por estas razões, e desde então tudo tem piorado. Mas não deixo de me questionar: será uma greve o melhor modo de protestar contra as medidas de um governo? Concebo a greve para protestar contra um patrão, mas não é esse o caso. E não estarei, ao fazer greve, a reforçar uma oposição que não tem apresentado grandes alternativas? (Ou quando as apresenta são ainda piores, terríveis no caso do PSD.) Não sei. Uma greve é para exprimir um descontentamento. Eu estou descontente e fiz greve por isso.