terça-feira, 2 de novembro de 2010

Da caridadezinha: quanto mais religioso, menor é a preocupação com os pobres

A minha dúvida começou com uma observação simples, no mundo ocidental aparentava haver uma correlação entre religiosidade e desigualdade económica, basta pensar pensar nas Américas vs. Europa. Mesmo dentro da Europa, temos o mesmo fenómeno: o Norte é mais solidário graças ao enorme sistema de redistribuição de riqueza, enquanto o Sul é mais desigual e religioso. Até entre os países católicos, ou entre os países protestantes, há a mesma tendência.
Para lá da correlação, e contra o discurso cristão (e não só) da caridadezinha aos pobrezinhos, será que a religião seria uma variável determinante na desigualdade de rendimentos dentro de um país? O Google Scholar levou-me a um rotundo SIM.
Em The effect of religiosity on income inequality, Priyanka Palani faz uma análise econométrica muito simples: usando 49 países, analisa a influência conjunta de vários parâmetros sobre a desigualdade (medida tanto pelo coeficiente de Gini como pelo rácio entre o rendimento dos 20% mais pobres sobre os 20% mais ricos). Mais do que o PIB, a distribuição etária, o nível de educação ou de desenvolvimento, é o nível de importância de Deus na vida dos cidadãos de um país que é mais (estatisticamente) significativo na determinação da desigualdade. Por cada ponto (numa escala de 1 a 10) da importância pessoal de Deus, o coeficiente de Gini cresce 3.29 pontos*.
Quanto mais religioso é um país, menos fraterno é.

* Para se ter uma ideia, segundo a ONU, Suécia, Portugal e Brasil têm um coeficiente de 25, 38 e 57.

3 comentários :

TMC disse...

Não li o artigo mas assim de relance acho que o autor, ou tu, estão enganados ao atribuírem a sinonímia de religiosidade com a crença na existência de Deus.

De qualquer modo, é um assunto polémico: o norte da Europa é de facto menos religioso, mas isso não significa que os efeitos culturais e éticos proporcionados por uma prévia religiosidade não tenham fomentado os comportamentos que subjazem à actual redistribuição da riqueza: a ética protestante é um exemplo do que quero dizer.

Abraço

mikael ar canjas disse...

o Sul é mais desigual e religioso...
Irlanda do Norte, o Brabante, o norte russo, a Polónia, o palatinado...

e a distribuição da riqueza na América do norte
quer no bible belt
quer nas babilónias suburbanas

é de facto superior
há caixotes e caixas de cartão para todos

e parques de caravanas como havia na Inglaterra em 91 e em Portugal em 75-79

é faz sentido
estatisticamente pouco fraterno
assinado: caixa de bigodes

Miguel Carvalho disse...

Para sermos precisos, a variável analisada não é nem religiosidade, nem crença em Deus, mas sim a resposta à pergunta "Deus é importante na sua vida?", com respostas de 1 a 10.
Definir religiosidade seria algo que daria pano para mangas.

Quanto à herança religiosa, é uma questão do que vem antes, se o ovo ou a galinha. Além de ser uma variável para dá para justificar tudo e não justificar nada, já que herança religiosa existe em todos os países.
O que talvez fosse interessante fazer seria comparar apenas entre católicos e depois apenas entre protestantes. Mas mesmo aí - e como escrevo no texto - à primeira vista parece-me que a "religiosidade" actual continua a ser correlacionada com desigualdade.
(Ex: França menos desigual que Portugal/Itália, Suécia menos desigual que Holanda)


Abraço