quinta-feira, 10 de junho de 2010

O 10 de Junho de António Barreto

Perfeitamente lamentável, o discurso de António Barreto hoje de manhã, nas celebrações do «Dia de Portugal». Acompanhei-o pela televisão, não na íntegra, e a comunicação social dá uma versão dirigida do mesmo.

Se concordo que os veteranos devem ser homenageados, no discurso que ouvi António Barreto insistiu que não haverá «ex-combatentes» (o termo não é neutro) «colonialistas», «fascistas» ou «revolucionários», como não os haveria «socialistas», «comunistas» ou «reaccionários». Não é verdade. Há os ex-combatentes que ainda hoje se vangloriam, em surdina, das mortandades em que participaram, e há os veteranos que se recusaram a torturar ou a participar em sevícias. Há os que continuam a pensar que a guerra colonial fez sentido e deveria ter sido continuada, há os que fugiram e há os que a fizeram contrariados (e há casos mais complicados ainda). Todos devem ser respeitados, é certo. Mas a República democrática não pode celebrar a 25 de Abril o fim da guerra colonial, e a 10 de Junho aqueles que pensam que o 25 de Abril foi uma traição. E não pode abdicar de julgamentos éticos em matérias fundamentais a pretexto de um patriotismo bacoco.

O discurso de Cavaco Silva, dirigido aos «portugueses» (não aos cidadãos e cidadãs) e insistindo nas «marcas» portuguesas espalhadas pelo colonialismo (já não há pachorra...), foi também mauzito. Eu nunca me sentirei mobilizado para homenagear uma «Pátria» intemporal (a-histórica), imaterial e quase metafísica. Sou cidadão de uma República e estou unido aos outros cidadãos por um contrato que é uma Constituição laica e democrática. Se deixasse de ser assim, já não valeria a pena.

O 10 de Junho deveria deixar de ser feriado nacional.

13 comentários :

  1. mais do que deixar de ser feriado nacional, o 10 de junho deveria deixar de ser o "dia de portugal"...

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  2. Até que enfim, Ricardo, que encontro alguém que pensa o mesmo que eu do discurso do A. Barreto! Ora veja aqui.
    Abraço

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  3. Cara Joana,
    devo dizer que também estou totalmente de acordo com o seu texto.

    Um abraço,

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  4. O discurso do Barreto foi um susto.
    Compara as guerras justas com as do imperialismo e do colonialimo, as vítimas com os algozes, é a filosofia do sionismo, não da República!
    Um vómito sobre os herois! e sobre a História.

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  5. Eu também me assustei. E meter o Afeganistão ao barulho também foi estranho.

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  6. António Barreto é aquilo que, em Sociologia, se designa por "mulher-alibi", uma figura que encarna o papel da insurreição, oposição e rejeição, a soldo de tudo aquilo que condena, assim fazendo a catarse, por encomenda, e impedindo que as verdadeiras vozes da condenação se possam erguer.
    O seu apetite é invariavelmente voraz, e não admite contraditório.
    No zénite da sua ascensão, poderá presidir às comemorações oficiais do "Regime" que... contesta.
    Presidiu ontem.
    Não ouvi o discurso, mas já o ouvi falar uma ou duas vezes.
    Ficou para sempre.

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  7. Em todo o Mundo civilizado, e não só, em Países Ricos, cidadãos protagonistas dos grandes conflitos e catástrofes com eles relacionados, vencedores ou vencidos, recebem apoio, sobretudo nos capítulos socais da assistência, na doença, na educação, na velhice e na morte como preito de homenagem da Nação àqueles que lutaram pela Pátria, com exposição da própria vida.
    Todos os que vestiram a farda da Grã-Bretanha, França, Rússia, Alemanha, Itália e Japão têm tratamento diferenciado. Idem para a Polónia e Europa de Leste, bem como para os Brasileiros que constituíram o Corpo Expedicionário destacado na Europa.
    Idem para os Malaios, Australianos, Filipinos, Neo-zelandeses e soldados profissionais indianos.
    Nos EUA a sua poderosíssima "Veterans War " não depende de nenhum secretário de Estado, nem do Congresso, depende directamente do Presidente dos EUA, com quem despacha quinzenalmente. Esta prerrogativa referendada por toda uma Nação permite que todos aqueles que deram a vida pela Pátria repousem em cemitérios espalhados por todo o Mundo, duma grandiosidade, beleza impares, ou todos aqueles que a serviram , tenham assistência médica e medicamentosa para eles e família, condições especiais de acesso às Universidades, bolsas de estudo, e outros benefícios sociais durante toda a vida.
    Esta excepção que o povo americano concedeu a este tipo de cidadãos é motivo de orgulho de todos os americanos.
    O tratamento privilegiado que todo o Mundo concedeu aos cidadãos que serviram a Pátria em combates onde a mesma esteve representada, é sufragado por leis normalmente votadas por unanimidade.
    Também os civis que ficaram sujeitos aos bombardeamentos, quer em Inglaterra, quer em Dresden,quer em Hiroshima e Nagasaki, têm tratamento diferenciado.
    Até o Irão dá tratamento autónomo e especifico aos cidadãos que combateram na recente guerra Irão-Iraque, onde morreram 1 milhão de iranianos.
    Até países da Africa terceiro mundista e subdesenvolvida, como o Quénia, atribuiu aos ex-maus-maus,esquemas de protecção social diferentes dos outros cidadãos.
    Em todo o Mundo, menos em Portugal.
    No meu país os talhões de Combatentes dos vários cemitérios, estão abandonados, as centenas de cemitérios espalhados pela Guiné, Angola, Moçambique, India e Timor, abandonados estão, quando não, profanados. No meu Pais, a pouco e pouco, foi-se retirando a dignidade devida aos que combateram pela Pátria, abandonando os seus mortos e retirando as poucas “migalhas” que ainda tinham diferentes do comum dos cidadãos, a assistência médica e medicamentosa. No meu país temos gente que se incomoda e ofende por António Barreto ter lembrado num discurso que: (…)Os soldados cumprem as suas missões por diversos motivos. Por dever. Por convicção. Por obrigação inescapável. Por desempenho profissional. Por sentido patriótico, político ou moral. Só cada um, em sua consciência, conhece as razões verdadeiras. Mas há sempre um vínculo, invisível seja ele, que o liga aos outros, à comunidade local ou nacional, ao Estado. É sempre em nome dessa comunidade que o soldado combate(…)
    No meu país só não temos traidores apesar de apresentarem percursos militares mal explicados e terem sido defensores dos movimentos nacionalistas (ao serviço da Guerra Fria). Sendo que o crime de traição é considerado em relação à Pátria, não em relação a governos ou regimes. Não há traidores “democráticos” ou traidores a ditaduras, ou outra coisa qualquer. A traição é sempre relativa a uma causa, um juramento, uma crença. E para encurtar razões, que legitimidade tem esta gente para invocar a democracia e a liberdade, para justificar a sua acção contra a guerra colonial, quando na altura eram membros do PCP – uma das mais fiéis correias de transmissão do Kremlin.

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  8. Senhor Américo Nunes,
    eu disse explicitamente no meu texto que acho que os veteranos devem ser homenageados. Acrescento que existe em Lisboa um monumento aos soldados mortos na «Guerra d´África» (foi o termo usado na inauguração), que creio ter o nome de todos os que pereceram nessa guerra. E que foi inaugurado pelo Presidente da época (Jorge Sampaio), justamente num 10 de junho. Existe também uma pensão específica do Estado - que infelizmente é pequena. Não me viu contestar nada disso.

    O que eu contesto é a «igualização» que António Barreto faz de todos os veteranos. E o relativismo ético que transparece daquilo que diz. Não se pode julgar da mesma forma a guerra de Angola entre 1961 e 1974 e a nossa participação no Iraque (que aliás foi restrita a GNR´s, se não estou em erro). A primeira era em defesa de um território português, e foi decidida por uma ditadura. A segunda era para «exportar» a democracia, e foi decidida por um Parlamento democrático. Já para nem falar na presença de militares portugueses no Cosovo e na Bósnia, que acontece em circunstâncias totalmente diferentes. Barreto mete tudo no mesmo saco - e o meu problema é esse.

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  9. Caro Ricardo, presumo que não leu com devida atenção o discurso de António Barreto, nomeadamente este parágrafo:
    (...)Todos esses militares, os de Luanda ou do Líbano, os da Guiné ou da Bósnia, merecem o nosso respeito. São antigos combatentes. São Veteranos. São soldados que cumpriram os seus deveres e que, com excepção dos que tenham moralmente abusado das suas funções, merecem a nossa homenagem. Não há lugar, não deve haver lugar para diferenças entre esses Veteranos. Não há Veteranos melhores ou piores do que outros. Não há Veteranos que mereçam aplauso e Veteranos a quem se reserve o esquecimento. Não há Veteranos ou Antigos Combatentes fascistas ou democráticos, socialistas ou comunistas, reaccionários ou revolucionários. Não há Veteranos de antes ou de depois do 25 de Abril. Não há Antigos Combatentes milicianos ou de carreira ou contratados. Há Veteranos e Antigos Combatentes, ponto final! É o que nós lhes devemos. Nós, todos, os que fizeram ou não, os que concordaram ou não com as guerras, sem distinção de época, de governo ou de cor política(...)
    António Barreto, aponta as excepções :(...)São soldados que cumpriram os seus deveres e que, com excepção dos que tenham moralmente abusado das suas funções, merecem a nossa homenagem(...)a leitura que faço é também esta, todos os os combatentes que cumpriram os seus deveres sem abusos, merecem a minha homenagem.

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  10. Realmente não me tinha apercebido, ao ouvir o discurso na televisão, da ressalva «com excepção dos que tenham moralmente abusado das suas funções». Mesmo assim, mantenho o que escrevi na altura, e é possível que volte ao assunto agora que o discurso já está na internet.

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  11. Idem, Ricardo, talvez volte ao assunto. Já agora e porque ainda não procurei: onde está o discurso? Há vídeo?

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  12. Joana,
    o discurso está no blogue do António Barreto:

    http://o-jacaranda.blogspot.com/2010/06/dia-de-portugal-de-camoes-e-das.html

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