sábado, 4 de dezembro de 2010

Eu, o Sócrates, e a crise - VI

A meu ver, um dos nossos maiores problemas é o da corrupção. Em Portugal, como em muitos outros países, o centro político está associado a trocas de favores e tráfico de influências, sacrificando os interesses públicos em nome dos interesses privados de quem está melhor relacionado com o poder.

Seja Ferreira do Amaral, seja Jorge Coelho, seja Domingos Névoa, existe a sensação de os políticos do «centrão» e os seus «amigos» são frequentemente desonestos, e que essa desonestidade passa sempre impune.

Este problema torna-se naturalmente mais gravoso em tempo de crise. É particulamente problemático, para mim, na medida em que me considero ideologicamente próximo do centro, mas acabo por poder ter menos confiança nos políticos mais próximos do meu quadrante ideológico, desconfiança esta que a opacidade do seu discurso faz pouco por afastar.

Uma das consequências desta desconfiança é o meu agnosticismo face ao TGV. O TGV é um projecto caro, cuja avaliação não se faz com meia dúzia de chavões («o país não tem dinheiro» / «temos de investir no futuro»), mas sim com um conhecimento profundo de causa, e dos diversos aspectos técnicos. Na incapacidade de fazer essa avaliação pessoalmente, teria de usar uma heurística - confiar na avaliação de quem estudou em detalhe o projecto, os diversos aspectos técnicos, desde as previsões da procura aos impactos indirectos na nossa economia, passando pelos custos prováveis (derrapes incluídos) e impactos ambientais positivos ou negativos. No entanto, todos aqueles que se pronunciaram contra ou favor com algum conhecimento técnico eram parte interessada na discussão política a este respeito. E sem confiança na avaliação técnica de alguém de cuja honestidade não duvido, é-me dificil pronunciar-me sobre este assunto.

A desconfiança em relação aos políticos do centro também justifica o cepticismo generalizado com que a população acolhe os "sacrifícios" que o PEC III mal começou a impôr (para o ano é que "vão ser elas").

A este respeito, no passado o PS tinha, a meu ver, uma atitude mais saudável que o PSD. Quando existiram suspeitas - que vieram a verificar-se infundadas - que António Vitorino tinha sido menos correcto no pagamento dos seus impostos, este demitiu-se de imediato, sem qualquer apego ao poder. Na verdade este excesso parece-me errado, contribuindo para que o lançamento de suspeitas infundadas pressione um político a demitir-se.

Mas antes isto que o seu contrário: as escutas a Sócrates provaram, não do ponto de vista criminal, mas do ponto de vista político, que existia um plano por parte do governo de José Sócrates para usar o erário público por forma a condicionar a informação transmitida por um canal televisivo - a TVI. O Partido Socialista deveria ter demitido imediatamente José Sócrates. Os orgãos do PS, ao optar por fechar os olhos às evidências, acabaram por fortalecer a convicção de que a corrupção passa impune.

Deixar que José Sócrates minta impunemente ao parlamento, mesmo depois dessa mentira ser evidente para todos os cidadãos atentos que não estejam cegos pelo seu clubismo, é destruir qualquer vestígio de confiança nos políticos que apoiam este governo. Como cidadão creio que um partido que trilha este caminho tem de ser penalizado. E diferentes episódios ocasionais, dos quais o mais folclórico foi o do roubo dos gravadores, reforçam a necessidade de moralizar os abusos do centrão.

No próximo texto, falarei sobre a forma como acredito que o nosso governo deveria reagir à crise actual.

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