sexta-feira, 25 de março de 2011

A demissão de Sócrates-2

A demissão do segundo governo de Sócrates reflecte três problemas de fundo: a ausência de uma cultura política de negociação, a transformação da União Europeia num «Império» informal dominado pela Alemanha e vulnerável ao poder financeiro, e os milhentos esquemas que existem encostados ao Estado português, muitas vezes sem abdicar, paradoxalmente, de um discurso de «dispensabilidade» do Estado.

Há um quarto de século que as eleições legislativas em Portugal são encaradas como a coroação de um César, que se considera sempre legitimado para governar sozinho mesmo que tenha uma maioria relativíssima, e que se esquece que a substância da democracia é negociar e fazer compromissos entre o programa apresentado ao eleitorado, e as medidas que se podem executar com os aliados parlamentares eleitos com igual legitimidade.

Há duas décadas que se sabe que a União Europeia, enquanto projecto essencialmente monetarista unindo Estados muito diversos social e economicamente, era vulnerável aos especuladores e aos interesses corporativos, e que facilmente seria, num momento de crise, dominada pela Alemanha. Que Merkel critique o Parlamento português perante o parlamento alemão é um sinal da hierarquia entre Estados que deixámos que se instalasse.

E nunca como hoje foi tão claro que o Estado português é pobre demais para sustentar parcerias público-privadas, contratos de associação, os desvarios de Jardim, os estádios de futebol e as oligarquias económicas que parasitam empresas públicas, monopólios naturais e negócios extraordinários.

Eleições, só por si, não resolvem nenhum destes problemas.