sexta-feira, 11 de março de 2011

Eu não gosto nada da canção dos Deolinda (mas é claro que vou à manif à mesma) (II)

Mas a parte mais parva, a parte que mais irritação causa (a mim e a muitas outras pessoas) é

E fico a pensar,
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.


Conheci os “Deolinda” num arraial no Instituto Superior Técnico, em 2008. Gostei to muito do concerto e do grupo. Na altura, ao apresentar a banda, e tocando para engenheiros, a vocalista Ana Bacalhau disse que o seu próprio marido era engenheiro, mas tinha acabado por se dedicar à música. Para de seguida recomendar aos futuros engenheiros que “estudassem muito, pois senão iriam acabar como ele”, perante a risota geral. Mais de dois anos depois, gostaria de perguntar ao marido da Ana Bacalhau (peço desculpa, mas não me recordo do seu nome) se, a título pessoal, cantaria “que parvo que eu sou: tirei um curso de engenharia para tocar nos Deolinda”...
Repito: gosto dos Deolinda e acho que representam uma verdadeira lufada de ar fresco na música portuguesa – não aprecio particularmente é o seu mais recente sucesso, muito devido aos polémicos e criticados versos acima. Há que afirmar sem complexos: uma (hipotética) sociedade de escravos educados é melhor que uma sociedade de escravos analfabetos ou pouco educados. Mesmo pensando em termos de liberdade, a educação liberta ou, pelo menos, torna muito mais difícil manter preso alguém educado (que tenderá a revoltar-se) que alguém pouco educado. Não aceito esta secundarização da educação e do conhecimento face à liberdade.
A mentalidade subjacente é, infelizmente, tipicamente portuguesa: estuda-se não para sermos melhores, em todos os aspetos, mas para “termos um diploma” e “sermos «doutores»”. Com a democratização do ensino, ter um grau académico já não garante nada, mas não é por isso que devemos deixar de procurar obter os graus académicos, desde que isso represente obter conhecimentos.
Há que dizer que o maior representante deste paradigma é o atual primeiro ministro.
Não está agora em causa a legitimidade da sua licenciatura: Sócrates sempre se apresentou como licenciado pela Universidade Independente e, como tal, nunca enganou ninguém, e tudo o que se veio a saber posteriormente só pode impressionar quem se deixar: quem realmente ainda se impressiona só com um “diploma”, seja este qual for. Não acredito que todas as trapalhadas sejam “da licenciatura de Sócrates”, mas “dos licenciados da Universidade Independente”, entre os quais deve haver muitos mais com diplomas passados ao domingo. Não alinho na perseguição pessoal: para mim o que conta é que Sócrates estava inscrito para acabar a licenciatura numa instituição credível, o Instituto Superior de Engenharia de Lisboa, que trocou pela Universidade Independente somente para obter um título da forma mais fácil possível.