sexta-feira, 14 de outubro de 2011

O Estado como bem de luxo I

A propósito do peso do Estado na economia portuguesa, alguns economistas mais liberais da nossa praça - visivelmente incomodados pelo facto de os países europeus mais desenvolvidos terem uma carga fiscal acima da média e por Portugal continuar abaixo da dita média - usam agora uma nova medida para poder distorcer os número e afirmar que o nosso Estado é mais pesado que a média.
Refiro-me a vários textos, como este do blogger-ministro, onde se descarta a habitual medida de despesa* por PIB que é usada pelo Eurostat, OCDE, etc. e se passa a usar despesa por PIB, por PIB, por habitante. Leu bem, é mesmo por PIB por PIB, mas disfarçado de carga fiscal por rendimento por habitante pretendendo mostrar que a nossa despesa pública é alta para o nosso nível de rendimento.
Matematicamente até poderia fazer sentido: à medida que o nosso rendimento pessoal cresce, nós não aumentamos proporcionalmente os nossos gastos em todas as categorias de bens. Por exemplo, quem tem um rendimento baixo gastará 20% em alimentação e apenas 5% em turismo. Ao subir o rendimento disponível, esse extra será gasto de outra forma. Talvez um aumento de 10% em alimentação mas mais 100% em turismo.
O que está implícito na nova medida, é que o peso do Estado deveria aumentar com o rendimento. Ora em economia há um termo técnico para designar o tipo de bens cujo consumo aumenta mais do que proporcionalmente que o rendimento. Chama-se bem de luxo.
E é isso que está implícito neste liberalismo, o Estado é um bem de luxo.

(continua)

*ou receita, no caso da carga fiscal.