terça-feira, 20 de março de 2012

Revista de blogues (20/3/2012)

  • «(...) É verdade que o valor nominal dos impostos será menor se o Estado investir menos em educação, sendo o resto constante. Mas é falso que isto represente uma redução no esforço económico médio das pessoas que contribuem os impostos. Isto porque custa muito menos pagar dois mil quando se ganha seis mil do que pagar duzentos quando se ganha seiscentos. Os impostos são a melhor forma de reduzir o sacrifício médio de pagar algo que a maioria deseja, pela forma como distribuem o esforço. (...)

    Haverá sempre quem tenha dinheiro para pagar cursos da treta, e haverá sempre empreendedores a lucrar oferecendo-os. Quanto mais o Estado se ausenta do ensino, mais o critério principal de concorrência passa a ser o lucro, que depende mais da capacidade de cobrar dinheiro aos clientes do que de de dar uma boa formação aos alunos. (...)

    Felizmente, o curso não é o mais importante, porque o fundamental no ensino superior é que os alunos aprendam a aprender. Tanto faz que estudem física nuclear, biologia molecular ou história da arte, o que importa é que desenvolvam a capacidade de lidar com informação nova, de a examinar de forma crítica e de testar as opiniões que vão formando. Não é realista planear antecipadamente uma carreira de quarenta anos. Mas saber ler, escrever, aprender e pensar é sempre uma vantagem, e a proficiência nisto exige muito mais formação do que a maioria julga.
    (...)

    A educação superior tem benefícios económicos. Em média, ganha-se mais dinheiro quanto mais formação se tiver. Mas, ao contrário do que o Luís Rocha julga, isso até justifica o investimento público na educação, por mitigar a injustiça de só alguns nascerem com pais ricos. Além disso, um salário melhor é apenas um de muitos efeitos práticos da educação, e está longe de ser o mais importante. A educação importa para a cidadania e para a participação na democracia. É um antídoto potente contra a intolerância, o preconceito e a discriminação. Sempre que é preciso aprender e adaptar-se a situações novas, sejam profissionais, legais ou de saúde, ter mais formação é uma vantagem. E tanto faz se o curso é de mecânica ou filosofia.

    Mas o maior valor da educação não é instrumental. É intrínseco. A educação é um direito que não deve ser reservado aos ricos, que não deve ser cobrado a quem o queira exercer, e que não carece de justificação prática para que seja garantido a todos. É claro que há limitações práticas de implementação, há muita coisa que se pode disfarçar de educação sem o ser, como cursos de astrologia, psicanálise, medicinas alternativas ou teologia, e será sempre preciso trabalhar para que os cursos superiores ensinem mesmo a aprender, a pensar criticamente e a avaliar hipóteses, e não apenas a papaguear especulações alheias. Mas nada disto torna virtuoso obrigar quem tem menos dinheiro a endividar-se para comprar educação, e nenhum destes problemas pode ser resolvido visando o lucro, com mercados ou empreendedorismo.» (Ludwig Krippahl)