quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O regresso da democracia?

Todos os estados da UE são democracias, mas a UE não é uma democracia. Este axioma serviu na era do mercado único, mas tornou-se insustentável em dez anos de moeda única.

Anteontem, Georges Papandreou blasfemou, ao anunciar que será o próprio povo grego a decidir, em referendo, sobre o enésimo pacote de austeridade que esse mesmo povo sofrerá, embora decidido pelo BCE e por políticos eleitos por outros povos.

As reacções foram violentas: quer do lado de mercados, bancos, bolsas e agências de rating, quer do lado de líderes, mais preocupados com essas entidades que com os cidadãos a quem, teoricamente, devem a sua legitimidade decisória. Mas se os mercados se enervam com a instabilidade política das democracias nacionais, as pessoas estão ainda mais fartas da instabilidade que a UE realmente existente trouxe às suas vidas.

A menos que a oposição o trave, ou que Papandreou seja um tacticista que quer subir a parada, o seu gesto poderá assinalar o regresso da democracia a uma Europa construída por primeiros-ministros reunidos à porta fechada e obcecados com a estabilidade monetária e não com o empregos.

Não havendo condições para avançar para a democracia de âmbito europeu, recuar para democracias nacionais é o mal menor. Caso contrário, a fractura entre os decisores europeus e os povos do continente assemelha-se cada vez mais a uma ditadura de novo tipo.