quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Mudam-se os governos, calam-se as repugnâncias

Nos tempos do defunto Sócrates, a direita blogosférica rasgava as vestes, furibunda, cada vez que se assinava um contrato qualquer com a Venezuela. Segue em baixo uma breve antologia do ódio da direita às relações de Sócrates com Chávez.
  1. «Ontem, a caminho de casa, ouvi na TSF José Sócrates, apelando a Hugo Chávez que considerasse Portugal como sendo a sua casa. Por momentos tremi. Receei que hoje, ao acordar, a TVI e a SIC tivessem sido fechadas, que os colégios não alinhados no politicamente correcto fossem igualmente encerrados, que todos os peixinhos que povoam as nossas águas bem como o sol no Algarve fossem declarados como sendo de todos portugueses» (Insurgente, 21/11/2007; note-se como uma trivial amabilidade diplomática convocava o fantasma da «sovietização» de Portugal).
  2. «Temos o nosso primeiro-ministro e mais alguns membros do governo transformados em figurantes dos shows de Hugo Chávez, não discutimos sequer o preço político que pagamos não só pelo petróleo venezuelano mas também para que a comunidade portuguesa naquele país não sofra represálias governamentais (...)» (Helena Matos, 14/5/2008; acharia esta inolvidável colunista que os imigrantes portugueses estavam prestes a ser chacinados?).
  3. «As declarações de Sócrates e de Chávez lembram os acordos internacionais entre países comunistas. (...) Os capitalistas andam a dormir. Os socialistas é que têm jeito para o negócio» (João Miranda, 15/5/2008; Sócrates transformado em comunista por associação a Chávez, que também não o é, em rigor).
  4. «Foi um grande dia para o Chavismo, em Portugal e também na Venezuela. Em Portugal, Sócrates ganhou as eleições internas do PS. Na Venezuela, Chávez ganhou o referendo» (João Miranda, 16/2/2009; idem).
  5. «José Sócrates andou a promover negócios com a Venezuela sem ter em conta o risco político» (João Miranda, 10/5/2009; suponho que o risco agora será zero, claro).
  6. «Chávez só aparecia como um democrata para aqueles que, por ódio aos EUA ou, em Portugal, por amor às amizades de José Sócrates e Mário Soares, se recusaram a ver o que sempre foi evidente» (Alexandre Homem Cristo, 4/8/2009; Chávez não era um democrata).
  7. «Momento Sócrates: Protestar contra Governo de Chávez passa a ser crime» (Vasco Campilho, 3/9/2009; novamente Sócrates a tornar-se ditador «por associação» a Chávez).
  8. «O Governo português deve ter especial cautela na relação com quem governa a Venezuela e não tentar reduzir tudo a uns negócios sedutores no curto prazo sobre um fundo de “exotismo” (...) Ou percebemos isto a tempo ou um dia a José Sócrates ou a outro qualquer primeiro-ministro de Portugal já não bastará agradecer “gentilezas” “do fundo do coração” a Chávez pela prosaica razão de que o fundo do coração terá dado lugar à fase do coração nas mãos no que respeita aos direitos dos empresários e dos emigrantes portugueses na Venezuela» (Helena Matos, 4/6/2010; o fantasma da sovietização da Venezuela e do exodo dos imigrantes portugueses, que teima em não se materializar).
  9. «Portugal é o segundo país em que o chavismo não funciona. (...) Quando a democracia for restaurada na Venezuela, a diplomacia portuguesa vai ter muito trabalho a reparar os danos dos últimos 5 anos. (...) Chávez é um ditador pouco recomendável. A relação personalizada entre ele e um PM português, misturando questões de estado com supostas amizades pessoais, só nos envergonha.» (João Miranda, 25/10/2010; Chávez era um «ditador pouco recomendável» e pronto, não se devia negociar com ele).
  10. «O investimento diplomático em ditadores é uma má política. Como se vê com a situação de Khadhafi e com o isolamento cada vez maior de Chavez na América do Sul, os seus regimes são muito vulneráveis» (João Marques Almeida, 29/7/2011; idem).
Após uma mudança de governo em Portugal, Paulo Portas fez uma visita à Venezuela. Os negócios continuarão. Na boa. E a direita, essa, calou-se. Chávez já não é «ditador» nem proto-comunista. Os negócios já não são «arriscados» e os imigrantes portugueses não estão em risco.