domingo, 18 de setembro de 2011

Liberdade e a falta dela...

A questão da censura de ideias e opiniões na Universidade Católica - quando andei lá um professor disse-me para não ler o Max Weber, "que não valia a pena" - tem uma vertente muito divertida, que acho que merece ser discutida: a direita em Portugal age sempre como se não tivesse dúvidas nenhumas que, se houver liberdade de escolha, não é escolhida.

Eu dou aulas numa universidade que todos os anos aparece em primeiro lugar nos rankings das universidades públicas mais conservadoras dos EUA.

Os meus alunos são maioritariamente conservadores, religiosos e puritanos, quase 30% vêm de ambientes rurais e são a primeira geração de estudantes universitários, são quase todos criacionistas e vêem a FOX todas as noites. Mas a esmagadora maioria não tem medo das minhas ideias, porque os americanos são educados a não terem medo das ideias.

Uma das primeiras coisas que eu lhes digo no princípio de cada semestre é que não acredito que os professores podem ser neutros e que portanto eles devem ouvir com atenção e sentido crítico as coisas que eu digo e as ler com atenção e sentido crítico as coisas que eu os faço ler, porque eu sou de esquerda. Depois alerto-os: se acham que as convicções políticas e religiosas deles são fracas e estão coladas com cuspo, e se têm medo de mudar de opinião, ao fim destes anos todos, só por me ouvirem durante um semestre, devem fugir das minhas aulas e escolher outro professor!

Na Católica a estratégia é diferente: criar um ambiente onde os empregadores possam recrutar os alunos sem medo que eles tenham sido expostos a ideias dissonantes do pensamento único: o capitalismo, a globalização, os direitos dos homens e dos europeus sobre as mulheres e os outros povos "menos desenvolvidos".

Sabendo que estas coisas são complicadas e contingentes, acho que vale a pena perguntar se esta atitude - que tem prevalecido no ensino desde a Contra-Reforma - não será uma das causas do atraso de Portugal: uma oligarqia que controla os meios de produção, uma organização multinacional que opera no país com a protecção do governo e que promete uma vida eterna no céu a quem respeitar esta oligarquia em vida, e uma atitude de desconfiança hostil em relação à ideia de uma classe média forte, culta e informada.

O que a Universidade Católica fez foi gravíssimo: ignorar a competência de um candidato e recusá-lo por considerar as ideias dele dissonantes. Ou seja, reforçar a ideia de que a uniformidade faz a força. Eu acho que não: acho a uniformidade cinzenta e triste e medíocre, contrária à competição, à criatividade e à formação de um mercado das ideias.

Um dos comentadores do meu primeiro texto sobre este assunto escreveu que "nem que me pagassem uma fortuna, recusaria matricular-me num curso que aceitasse o Filipe Castro como professor". O desprezo pelo vil metal fica-lhe bem, mas eu acho que faz mal em pensar assim: a minha universidade é uma das universidades mais conservadoras dos EUA e está cheia de professores de direita, de esquerda e do centro (seis com prémios Nobel), que se respeitam, discordam e fazem listas de discussão onde todas as ideias são discutidas aberta e vigorosamente. Há uns anos, quando fui promovido a professor associado, o meu mentor foi o professor mais reaccionário do departamento, que eu acho que votou Bush duas vezes e apoiou a invasão do Iraque.

No dia 14 de Outubro torno-me cidadão americano e nenhum dos meus amigos de direita tem problemas com o meu empenho em promover activamente as ideias de George McGovern contra as de Nixon (e Bush e Perry): o país mais rico e mais poderoso do mundo devia lutar para melhorar a vida no nosso planeta, cada vez mais pequeno, em vez de se deixar governar por um grupo de criminosos que legalizou a corrupção e usa a violência e a intimidação para roubar os pobres e destruir o ambiente. Foi aliás Bush, mais precisamente John Ashcroft, quem me deu o estatuto de "outstanding professor or reseacher" que me permitiu receber a cidadania 13 anos depois ter começado o meu mestrado, com um visto de estudante por dois anos.

Ao contrário da administração da Universidade Católica, os americanos não têm medo das ideias. Hoje vi o documentário de Oliver Stone sobre Hugo Chavez com os meus filhos, na televisão. Está on-line, para toda a gente ver.