quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Homofobia como estilo de vida

Enquanto estava em Itália recebi um email da universidade, com as palavras "muito importante" no título, a dizer que um grupo de estudantes conservadores queria ler - nos termos da lei podem, e eu acho que devem - todos os emails do meu departamento que contivessem as palavras "gay" e "lésbica" e já não me lembro das outras, e o nome do chefe deste grupo de saudáveis rapazes e raparigas, que eu imagino altos, direitos, de faces rosadas e sempre frescos do orvalho matinal da lezíria texana.

A primeira coisa que me irritou foi receber notícias do Texas, quando estava em Itália. A segunda foi a expressão "muito importante". Muito importante seria aqui a universidade ter metido um homem em Marte enquanto eu estava fora, ou descobrir a cura para o cancro. A curiosidade destes rapazes não deveria merecer, em meu entender, que a universidade se metesse imediatamente em sentido, a tremer de medo e a pedir desculpa por não ter ido à missa na semana passada. A terceira coisa que me irritou não tem nenhuma importância, mas é uma tecnicalidade que gostava de partilhar convosco: desculpem-me a franqueza, mas eu estive uma vez sentado junto dos dirigentes deste grupo de guardiães da moral e dos costumes, e fiquei com a ideia que o presidente é um bocado maricas.

Se calhar isto sou eu a embirrar (outra vez), mas parece-me que não há um único destes campeões, destes perseguidores implacáveis do pecado da sodomia - que deve ser grave, porque aqui os gays e lésbicas chamam-se a si próprios LGBTs, que parece uma sigla dum síndroma gravíssimo - que não seja uma bicha doida à espera de ser libertada.

Os anos Bush foram delirantes (também) neste sentido: cada semana aparecia-lhe mais um evangélico na Casa Branca com as calças na mão, literalmente. A começar pelo conselheiro religioso pessoal do presidente, que era o presidente das igrejas evangélicas americanas, um energúmeno chamado Ted Haggard, que não era gay, mas quando dava nas anfetaminas, não sabia bem como, acordava sempre com um prostituto muito simpático...

A lista de evangélicos homofóbicos apanhados com a boca na botija - literalmente - é longa. Mas mesmo que ninguém os apanhasse, parece-me impossível que alguém que não seja, pelo menos, bissexual seja capaz de conceber esta ideia da homossexualidade como estilo de vida que se adopta.

Quem é que, não sendo homossexual, pode conceber a ideia de poder escolher a inclinação sexual pessoal? NUNCA me passou pela cabeça uma dúvida, por mais ténue que fosse, sobre este assunto: se a minha vida dependesse disso, entre ir para a cama com uma halterofilista búlgara de barba e bigode, ou com o ídolo das teenagers do momento, não hesitava em casar-me com a halterofilista (e filiar-me no partido comunista búlgaro). Sou só eu?

PS: Sabiam que Rick Perry - que organizou há 15 dias uma oração pública com 30 mil pessoas da New Apostolic Reformation, um dos grupos mais violentamente homofóbicos do mundo, que é o autor da lei que no Uganda prescreve a pena de morte para os gays e prisão maior para os não delatores - foi cheerleader aqui na minha universidade?