quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Até aqui, tudo bem

"Jusqu''ici, tout va bien", diz uma personagem de um filme de Mathieu Kassovitz ("La Haine", 1995), em queda algures entre o vigésimo e o décimo andar.

Assim está a Europa, neste Verão frio de 2011: a bancarrota ameaça alguns países "periféricos", os países "centrais" não sabem o que fazer, os juros disparam, as dívidas agigantam-se, as taxas de desemprego batem recordes, as agências de notação dão mais uns empurrões para baixo, ninguém prevê o que se seguirá, mas todos parecem repetir o "até aqui, tudo bem". Na imponderabilidade da queda, não tememos nenhum mal: o ar está límpido e cair, só por si, não magoa.

Merkel, Sarkozy, Obama, Trichet, Barroso e Coelho telefonam-se mas não sabem como parar a queda. Ou não querem. Até agora, nenhum perdeu o posto. Para eles também é "até aqui, tudo bem".

Entretanto, até a pacata Londres está a arder. Como Paris em 2005. O lumpen que saqueia lojas e o financeiro que aumenta o caos financeiro com o clique de um rato partilham a mesma indiferença pelo amanhã: nenhum se preocupa com as consequências. Mas em Londres a queda terminou. Por enquanto.

No filme de Kassovitz, justamente sobre jovens frustrados dos subúrbios de uma metrópole europeia, a lição era mesmo essa: só se conhece as consequências da queda quando se chega ao chão. Em que andar vamos?

(Esta foi a minha primeira crónica no i; a partir de hoje, escreverei todas as quartas-feiras.)