terça-feira, 31 de outubro de 2006

Capitalismo e capitalismo selvagem

Eu não tenho (quase) nada contra o capitalismo. Aliás acredito na livre iniciativa e na social democracia como o modelo mais civilizado que se conseguiu implementar nos últimos 5000 anos. E acredito na liberdade individual e no papel do estado como defensor das minorias, promotor da educação e da cultura, da liberdade de expressão, da criatividade, do pensamento crítico e da concorrência.

Acho o capitalismo selvagem que a direita defende e tem implementado continuamente desde meados dos anos 70 um sistema social injusto e disfuncional, em que o poder transitou dos políticos eleitos para as empresas. A chamada "desregulamentação" é um eufemismo para o papel activo do estado na criação de uma cleptocracia desenfreada em que as empresas estão protegidas por lei e os cidadãos não.

Não acho que o capitalismo destrua a família, nem a liberdade individual, nem o ambiente, se for regulamentado e se o poder político existir e servir para controlar o poder das empresas.

Sobre o papel disfuncional do capitalismo selvagem no mundo, acho que a invasão do Iraque e as consequências gravíssimas da guerra religiosa que estamos a viver, entre o Ocidente e o Islão, são um exemplo eloquente.

Começada por um grupo organizado de fundamentalistas cristãos, apoiado por um grupo de milionários que elegeu um presidente fundamentalista (que declara publicamente que fala com Deus todas as tardes e teve de ser proibido de dizer a palavra “cruzada” em público), esta guerra nunca teria sido viabilizada por um parlamento que não fosse controlado por quem paga as eleições.

Come escreveu recentemente Richard Dawkins, o nível de educação dos membros do Congresso e do Senado americanos torna estatisticamente impossível que dois terços dos seus membros não sejam ateus e agnósticos.

E contudo, um grupo conhecido de milionários fundamentalistas cristãos controla os media, a Casa Branca, o Senado e o Congresso, e articulado com um grupo de milionários que planeava controlar os recursos petrolíferos da região e um grupo de milionários que vive de vender armas e depende das guerras para se manter, conseguiu começar uma guerra ignóbil contra um terço da população do mundo (os muçulmanos).

Come escreveu Louis Lapham recentemente, a invasão do Iraque pode ser um fracasso ou um sucesso, dependendo do ponto de vista. Para os humanistas é indubitavelmente um fracasso: dividiram-se dois mundos, morreram 650.000 civis, mais de 2000 militares, estão feridas e mutiladas, física e mentalmente, milhões de pessoas. Mas para quem tem acções da Haliburton ou de qualquer companhia petrolífera esta guerra é indubitavelmente um sucesso.

8 comentários :

Pedro Viana disse...

"Não acho que o capitalismo destrua a família, nem a liberdade individual, nem o ambiente, se for regulamentado e se o poder político existir e servir para controlar o poder das empresas."

O Capitalismo exige crescimento económico contínuo, o que só é possível através duma sociedade em que os indivíduos são transformados em consumidores descontrolados (consomem sem necessitarem realmente). Inevitavelmente tal leva à destruição ambiental.

O Capitalismo exige lucros máximos, que logicamente só podem beneficiar poucos. Portanto, opõe-se de todas as maneiras à Democracia, pois nesta é a maioria que decide, e obviamente esta não decidirá que o resultado do processo económico (o lucro) acabe preferencialmente nas mãos de poucos. Ao opõr-se à Democracia, o Capitalismo ataca também a liberdade política, e indirectamente a liberdade de desenvolvimento pessoal por obstar a uma política de Estado de apoio à educação e saúde para todos. Ou seja, na prática opõe-se maximização da liberdade na sociedade, preferindo apoiar a liberdade de poucos fazerem o que querem em detrimento da existência de vidas de escravo para a maioria.

O Capitalismo necessita de mercados receptivos a novos produtos de consumo. Quanto mais atomizada estiver uma sociedade, quanto menor forem os laços afectivos entre pessoas e mais fracas forem as comunidades, e portanto a tradição, mais facilmente o Capitalismo consegue o seu objectivo. De qualquer maneira, o Capitalismo nem precisa de tentar desintegrar as comunidades num território, pois os media e a publicidade encarregam-se de fazer isso, ao exaltarem o consumismo desenfreado, e o egoísmo.

Capitalismo e livre iniciativa não são a mesma coisa. Pode haver, e houve, livre iniciativa em sociedades não-Capitalistas. O Filipe acha que o Capitalismo pode ser "domado" pelo Estado. Triste ilusão, comum a tanta gente de Esquerda. Está hoje à vista de todos que o breve período em que isso aconteceu parcialmente, entre as décadas de 30 e 60, já há muito acabou. Entretanto, as forças mais radicais dentro do Capitalismo continuaram a prosperar e a planear o "roll-back" de todos os constrangimentos que lhes foram impostos pelos Estados (e em grande parte com a sua aquiscência, assustados com o vigor ideológico do comunismo nas sociedades ocidentais nas décadas 30-60). Aí está. Filpe, lamento, mas do outro lado não está gente razoável com quem "negociar". Eles nunca aceitarão que a maioria lhes diminua o seu poder de acção. Tudo, literalmente tudo, farão para que tal não aconteça. O Capitalismo não é "domável". Deve ser substituído por um sistema económico, provavelmente menos "eficiente", que privilegie a cooperação em vez da competição, a distribuição equatitativa na fonte dos resultados, em vez da sua concentração.

Anónimo disse...

Você deve sentir-se quase órfão, hoje em dia... POrque é que não se muda para a Coreia do Norte?

Anónimo disse...

Coreia do Norte....boa!
Mas antes do Filipe Castro deviam la estar tantos que ja nao haveria lugar para ele!

Libertário disse...

Sinceramente também já tinha chegado à conclusão óbvia de que nos EUA é preciso ser rico para chegar a presidente. Ficar-me-ia pela ideia de que nos EUA as coisas são injustas se não fosse o facto de nos EUA as coisas funcionarem muito melhor do que em Portugal. Sinceramente essa obsessão de que ser rico é mau não só conduz a economia ao estado em que está no nosso país como faz com que a política seja um "tacho" o que não se passa nos EUA. Além disso existem políticos humanos que têm origem humilde como Condoleezza Rice, embora é claro tenham que provar a sua competência antes. A dita senhora já tinha sido administradora na Chevron antes de assumir o cargo público. Quanto à guerra ainda não consegui perceber qual a posição dos que eram vitimas do regime de Sadam, refiro-me aos Xiitas e Curdos, porque dos Sunitas não se esperava outra coisa.
Quanto aos fundamentalistas cristãos não sei se partilho da sua opinião, parece que Bush está à beira de perder o apoio dos Envangélicos nos EUA pela falta de respeito que ele e o seu staff mostram pelos mesmos em privado.

André Carapinha disse...

Mais um grande post, Filipe, parabéns.
É preciso desmascarar a falácia de que quem é contra esta selvajaria é necessáriamente "contra o capitalismo", "comunista" ou "apoiante da Coreia do Norte". Nós sabemos que outro caminho é possivel, e que não somos obrigados a escolher entre o neo-liberalismo e o Fidel Castro.

Pedro Viana disse...

Olha, olha, o máquina zero ainda anda por cá a mamar no Estado (Socialista) Português! Sente-se confortável com o Estado a tomar conta de si, é? Mexa esse rabo! Devia ir rapidamente para a Somália aproveitar a fantástica liberdade que a ausência de Estado tem possibilitado, antes que as milícias islâmicas acabem com a festa. Por outro lado pode sempre ir para o Afeganistão. Uma maravilha de lugar, onde não há impostos, cada vez há menos Estado, pode fazer o que quiser. Não é tal liberdade maravilhosa?!... Num registo um pouco diferente, recomendo também a Coreia do Norte, onde o maior neoliberal vivo não se cansa de gritar:

"Eu quero poder fazer e ter tudo o que quiser! Eu quero a máxima liberdade individual para mim! Ninguém me para!" - Kim Jong-Il

Anónimo disse...

Olhó, o tarado-zero...

Sabiam que ele é o Paulo Portas.. Não sabiam?

Ricardo Alves disse...

Nem Pinochet nem Kim-il Sung!