domingo, 1 de outubro de 2006

O Neo-liberalismo

Acho que na Europa se confunde às vezes o liberalismo político e o liberalismo económico, ou “neo-liberalismo” como às vezes se lê.

O primeiro é uma doutrina política esclarecida e equilibrada que tem as suas raízes no racionalismo e no positivismo.

O segundo é uma ideologia sinistra, que quando é defendida por pessoas inteligentes pretende apenas esconder a ganância mais miserável e o nihilismo mais negro (só o curto prazo é que lhes interessa), e quando é defendida por idiotas é uma religião baseada num conjunto de axiomas de fé indemonstráveis e infantis.

Para ilustrar a posição dos primeiros apetece citar Galbraith: "The modern conservative is engaged in one of man's oldest exercises in moral philosophy; that is, the search for a superior moral justification for selfishness." ou "People of privilege will always risk their complete destruction rather than surrender any material part of their advantage."

Para ilustrar a posição dos segundos apetece citar Galbraith outra vez: "It is a far, far better thing to have a firm anchor in nonsense than to put out on the troubled sea of thought."

O liberalismo económico energicamente defendido pelos neo-conservadores que detém o poder nos EUA é porventura ainda mais sinistro. Baseia-se no darwinismo social do século XIX e pressupõe a existência de grupos de pessoas dominantes e grupos de pessoas dominadas, cuja vida tem menos valor.

Há uns meses Francis Fukuyama, que se há muito se afastou dos neo-cons, dizia na televisão a William Kristol que ele era “leninista”, no sentido em que defendia abertamente a imposição do liberalismo económico pelas armas.

O que Fukuyama quiz dizer foi que a metafora do “comunismo científico” se aplica aqui perfeitamente: os neo-cons são um grupo de tarados que acredita que vai construir um mundo novo e que nos explica com uma cara séria que para isso tem se de matar alguns de nós. Cortar os ramos podres, como diria Estaline.

14 comentários :

Pedro Fontela disse...

As ambiguidades da linguagem tornam complicado comentar o post...

O que é o liberalismo económico indesejável? Modelo americano de trabalho e iniciativa? Modelo inglês? Modelos académicos que nunca foram testados?

Qual é a alternativa ao modelo anglo-saxão? É que se é o modelo francês o melhor é pensar duas vezes...

Miguel Madeira disse...

"O liberalismo económico energicamente defendido pelos neo-conservadores que detém o poder nos EUA"

Atenção, os neo-conservadores não são "liberais económicos" - a linha neo-conservadora em economia é que o New Deal foi bom, mas que a Great Society do Johnson foi longe demais. Provavelmente, na direita norte-americana, os neo-conservadores são a facção que mais apoia (ou menos se opõe a) o intervencionismo do governo federal (é em parte por isso que têm um "neo" atrás)

Miguel Madeira disse...

[por outro lado, o Filipe Castro está no Texas, logo o seu conhecimento dos neo-cons é capaz de ser melhor que o meu]

Arnaldo Madureira disse...

Heritage Foundation / 2006 Index of Economic Freedom
3º Irlanda 4º Luxemburgo 6º Reino Unido 8º Dinamarca 9º Austrália 10º Nova Zelândia 11º Estados Unidos da América 12º Canadá 13º Finlândia 15º Suíça 17º Holanda 18º Áustria 19º Alemanha 20º Suécia

Pedro Viana disse...

Caro Filipe,

Através do seu post torna-se transparente a diferença básica entre Esquerda e Direita: a atitude perante a diferença de Poder entre as pessoas. A primeira defende, no extremo, que ninguém merece mais (Poder) do que outro, enquanto que a segunda defende que há pessoas que merecem mais (Poder) do que outras, no seu extremo, que há apenas algumas pessoas que realmente merecem e merecem muito mais (Poder) do que todas as outras.

Resumindo, a Esquerda defende que as diferenças de Poder (político, social, económico) entre as pessoas devem ser mínimas, porque ninguém merece ter (muito) menos Poder do que outro. A Direita defende que o mérito deve ser tido em conta quando da distribuição de Poder, podendo esse mérito, conforme a orientação ideológica, ser o mérito de nascimento (merecem porque são filhos de alguém que merece: monárquicos, e todos aqueles que defendem o conceito de herança), o mérito económico, o mérito social, o mérito da força (aka militar, merece porque é mais forte), etc.

Olhar para a diferença entre Esquerda e Direita deste ponto de vista clarifica muito as suas posições ideológicas recíprocas , e em particular a aversão da Direita à Democracia. Apesar de haver quem à Esquerda ache (erradamente) que é apenas possível a distribuição de poder económico-social se o poder político estiver concentrado numa "vanguarda". E à Direita há quem ache que a Democracia "formal e representativa", aka "liberal", é a melhor maneira de evitar uma revolução, mantendo assim o poder económico-social concentrado à custa da "partilha" de parte do poder político... mas estão sempre cheios de medo que a maioria realmente tome o controlo do poder político e lhes retire o seu poder económico-social.

Filipe Castro disse...

...e é talvez por isso que a Franca faz tanta confusao à direita. Um pais onde os sindicatos param a economia uma vez por ano e onde os intelectuais sao respeitados (ainda que às vezes um bocado mais pela pose que pelas ideias :-)).

Filipe Castro disse...

Em relacao aos comentarios do Pedro e do Arnaldo Madureira, acho que os neo-conservadores podem nao se declarar liberais economicos, mas a concentracao da riqueza nos EUA demonstra bem o grau de desregulamentacao que tem vindo a ser imposto.

Quanto aos rankings da Heritage Foundation... :-) ...a Heritage Foundation é uma instituicao fortemente politizada, com uma agenda muito clara e eu nao me fiava em chavoes como "liberdade economica" e em rankings onde a Dinamarca aparece à frente dos EUA.

Por exemplo, aqui o imposto sucessorio, que os publicistas da Heritage Foundation designam por "Death Tax" (isto e, o imposto que as pessoas pagam por morrerem), aplicava-se a 2% dos americanos e foi praticamente abolido. :-)

A concentracao da riqueza e a percentagem de pobres que vivem nos EUA neste momento (apesar da definicao de pobreza ter sido alterada) sao um resultado directo da desregulamentacao economica (ou aumento do que eles chamam liberade economica) que comecou com Reagan. Eu houvi ha poucos anos Newt Gingrich dizer que os operarios americanos precisam de abandonar a idea da proteccao social se querem continuar a ter emprego.

Arnaldo Madureira disse...

Pedro
Essa história da esquerda a da direita é muito engraçada. Os tipos direita e esquerda que definiu são tão restritos que não poderão albergar mais do que 20% dos eleitores portugueses. Os outros 80% não são dessa esquerda, porque não desejam essa igualdade. Também não são dessa direita, porque não têm poder sócio-económico, muito menos desejam a sua concentração e não são avessos à democracia.

Filipe
1. A França confunde-se a si própria, à direita e à esquerda.
2. Pouco me importa se a Dinamarca está à frente ou atrás dos EUA. O que me importa é que os países onde há mais liberdade política e económica são aqueles e são os países onde se vive melhor. E até hoje ainda não se viu melhor. E todas as tentivas em contrário deram mau resultado.
3. Quanto às desigualdades, quer por aqui os dados da distribuição da riqueza nos EUA e nos países mais ricos da UE? Eu também vou procurá-los.

Rui Curado Silva disse...

Exactamente! Muito bom texto!
Realmente em Portugal existe uma grande confusão sobre o assunto.

Pedro Viana disse...

arnaldo,

Eu não disse que todas as pessoas, ou sequer a maioria eram claramente de Esquerda ou de Direita. Eu apenas chamei a atenção para o que considero o aspecto essencial que destingue a Esquerda da Direita. Concordo que a maioria das pessoas não é "puramente" de Direita ou de Esquerda, até porque puramente de Esquerda só quem ache que todas as pessoas devem ter rigorosamente o mesmo Poder, e puramente de Direita só quem ache que todo o Poder deve estar concentrado numa pessoa, que põe e dispõe dos outros a bel-prazer. Por isso tive o cuidado de colocar várias vezes a expressão "no extremo". E porque as ideologias só estão bem-definidas "no extremo".

E já agora porque é que as pessoas não se posicionam habitualmente nos extremos ideológicos?... a meu ver em grande parte porque são conservadoras e nós vivemos em sociedades que são resultado de compromissos ideológicos. Ou seja, em grande parte as pessoas não são extremistas porque estão (até ver) mais-ou-menos bem e têm receio da mudança que uma política ideologicamente "pura" possa trazer, mesmo que há partida até lhes pareça atraente. São portanto "pragmáticas" (até lhes pisarem demasiado "os calos" como diz o Galbraith).

Quanto aos neo-conservadores o que eles defendem é essencialmente uma sociedade oligárquica, e portanto a nível económico defendem toda desregulamentação e intervenção governamental que beneficie as grandes empresas. Desregula-se para dar mão livre às grandes empresas, e se estas precisarem o Estado ainda ajuda com ex. uns programas militares (Boeing, etc) ou subsídios directos (à exportação), ou uma ou outra invasão militar (Iraque, etc).

Filipe Castro disse...

Caro Arnaldo,

Isto é um pedido escandalosamente preguicoso, porque eu acho que temos aqui os relatorios todos do desenvolvimento na biblioteca e o meu departamento e pertisimo da biblioteca, mas a verdade e que eu ainda nao tive tempo para os ir consultar.

O indice que interessa e o ratio dos rendimentos dos 20% mais ricos com os dos 20% mais pobres.

Vai ver que ha uma diferenca abissal entre a Dinamarca e os EUA (ou a Irlanda, por exemplo, que deve ser um dos paises mais desiguais da UE).

Uma coisa e a riqueza e outra o bem estar: se o Bill Gates lesse este blog o rendimento medio das pessoas que leem este blog disparava e nos nem por isso sentiamos a diferenca. :-)

Arnaldo Madureira disse...

Repare que eu nunca disse que a minha referência é os EUA. Se eu tivesse muita necessidade de emigrar, quereria ir para o NORTE da Europa.

Apesar disso, continuo. Haverá mais desigualdade nos EUA, mas não é tudo defeitos. Não é por acaso que os melhores "cérebros" de todo o mundo encontram nos EUA as melhores condições de trabalho. Não é por acaso que o PIB por pessoa PPP americano é superior ao de quase todos os países europeus, o que faz com que os americanos do quintil mais pobre sejam menos miseráveis do que os de muitos países da Europa. Não é por acaso que o crescimento económico é maior nos EUA do que na Europa.

Filipe Castro disse...

Com certeza que nos EUA "nao e tudo defeitos" :-) Eu, por exmplo, vendi a minha casa de Lisboa este verao e nao faco tensoes de voltar para Portugal. Sou felicissimo no Texas, apesar dos talibans todos e das cem igrejas, sinagogas e mesquitas de College Station. :-)

jcd disse...

«O indice que interessa e o ratio dos rendimentos dos 20% mais ricos com os dos 20% mais pobres.»

Esse rácio é muito baixo no Azerbeijão. Deve ser o melhor país do mundo.