terça-feira, 3 de outubro de 2006

Esquerdas e direitas…

A propósito dos que em Portugal ainda defendem os neo-cons - quando em Washington todos os ratos abandonam o barco o mais depressa possível, incluindo um dos ícones mais lascarinos, Bob Woodward, que já morde em público a mão que alimentou durante os últimos seis anos - apeteceu-me escrever este comentário.

A única esperança dos extremistas que tomaram de assalto o partido republicano são as máquinas de voto... mas isso é uma outra história, para outro posting. Em todo o caso, é inquietante saber que ainda há em Portugal quem defenda as invasões do Líbano e do Iraque, a política do ambiente de Cheney, os assaltos à decência de Ashcroft e Gonzales, a tortura, a calúnia organizada como arma de propaganda política ou as outras mil e uma barbaridades cometidas por esta administração.

Ignorância à parte, juntamente com um certo cinismo europeu – os europeus esperam que os seus políticos mintam, roubem, torturem e assassinem e não percebem que nos EUA as pessoas escrevem aos politicos e eles respondem – e para além das opiniões fundadas em interesses porventura inconfessáveis, acho curioso que ainda haja quem defenda em Portugal este amontoado de asneiras que foi a administração Bush nos últimos seis anos.

Numa altura em que todos os republicanos decentes – e são muitos – se escondem o melhor que podem.

Acho que no fim do dia, tal como nos EUA, tudo pesado, parece evidente que as coisas em Portugal são mais entre pessoas sinistras, de esquerda ou de direita, e pessoas decentes, de esquerda ou de direita.

Acho que toda a gente concorda que há muito mais afinidades entre o Jorge Coelho e o Luís Nobre Guedes do que entre qualquer destes dois indivíduos e, por exemplo, o Prof. Freitas do Amaral.

Claro que há ideias incompatíveis entre os dois campos.

As pessoas de direita são geralmente mais moralistas e mais controleiras, tendem a não dormir descansadas com a ideia de haver um casal homossexual no bairro, preferem a ordem à criatividade e à liberdade, odeiam a mudança, têm tendência para respeitar a autoridade e o poder sem fazer perguntas, adoram embasbacar-se com casamentos reais, missas e procissões, demonstram uma insensibilidade total pelo sofrimento dos desfavorecidos, adoram punir os que transgridem, tratam os drogados como criminosos e gostavam de proibir todas as coisas relacionadas com o prazer sexual em geral e os orgasmos que não se destinam exclusivamente à procriação em particular. Além disso, são incapazes de pensar a médio prazo.

As pessoas de esquerda tendem a ter menos respeito pelo poder, menos necessidade de ordem, de polícias e de militares, menos carinho por fardas e por aristocratas, ou por ditadores e por eminências religiosas, paradas e desfiles, são mais sensíveis ao sofrimento dos fracos e dos desfavorecidos, defendem a generosidade e a reabilitação como virtudes sociais, são menos moralistas, tendem a ser mais informados, mais interessados por ideias e mais sensatos quando pensam no mundo que vamos deixar aos nossos próprios filhos.

Fica claro que nesta esquerda não se inclui nem o PC nem a massa informe de arrivistas sem idelogia nem escrúpulos em que o P”S” se transformou. E enfim, tem de se incluir, sem entusiasmo, o mundo absolutamente irracional dos ambientalistas que preferiam ver morrer de fome dez mil mexicanos pobres a destruir o ninho de um condor da California...

11 comentários :

João Moutinho disse...

No respeitante aos EUA parece que a vossa preferência não vai para os Republicanos e o vosso site é Republicano.

Arnaldo Madureira disse...

Dá uma no cravo e outra na ferradura. Começa com a história das pessoas decentes, que é mais importante serem decentes do que serem de esquerda ou direita, e tal. E acaba no mesmo. Exagerando as qualidades das pessoas de esquerda, onde se esqueceu (propositadamente?) das competências e da capacidade de trabalho e de empreendimento. Excluindo da esquerda aquelas que ninguém duvida que são mesmo de esquerda. Restrinigindo tanto a esquerda, que poucos lá caberão. Empurrando para a direita todos os Neandertais sobreviventes.
Enfim, compreendo a dificuldade de querer classificar toda a gente nas classes únicas esquerda e direita. Não acha que era melhor acabar com a esquerda e a direita e pegar a sério nas classes decentes e indecentes?

Filipe Castro disse...

Eheheh. Nao. A esquerda que eu descrevi e a do Partido Democrata tradicional e ate a de parte do Partido Republicano antes de Reagan. As pessoas esquecem-se que a America e o pais que, no seculo XVIII, determinou que o governo devia ser do povo, pelo povo e para o povo.

E a valorizacao da competencia, da capacidade de trabalho e de empreendimento nao faz parte dos valores da direita tradicional. A mobilidade social ainda é considerada um crime em Portugal: todo o pais faz troca dos "novos ricos", abomina "os arrivistas", etc.

Quando a direita diz que se deve "premiar a capacidade de empreendimento", quer dizer que se devem proteger as fortunas instituidas no tempo em que era precisa uma autorizacao da Camara Corporativa para abrir uma fabrica (para evitar a concorrencia).

Arnaldo Madureira disse...

É o que eu digo. Reserva a esquerda para uns poucos tipos exemplares. A direita para os Neandertais. Os comuns mortais não são carne nem peixe.

Arnaldo Madureira disse...

Reparei que apresenta o Quarta República como um blog de direita. Acha mesmo que os bloggers do Quarta República, nomeadamente o amigo Pinho Cardão, se enquadram na sua caracterização da direita? E acha mesmo que o comunismo (pelo menos o real) é de direita?

Ricardo Alves disse...

Arnaldo Madureira,
coloquei o «Quarta República» como «blogue de direita» porque me pareceu próximo do PSD. Para a maior parte das pessoas, o PSD é de «direita» como o PS é de «esquerda», embora realmente isto signifique muito pouco a nível, por exemplo, de prática governativa.
Mas realmente ficou na mesma secção dos blogues «neandertais»...

Anónimo disse...

Ora, claro está! A esquerda imaculada e moralmente superior só poderia ser do Bloco. Obviamente os trogloditas do PC não se podem comparar com os intelectuais de esplanada do BE. Tão pouco o apego ao poder dos socialistas poderá rivalizar com o altruismo politico dos bloquistas. Menos moralistas? Mas facilmente se poem num pedestal. Se há coisa que vos caracteriza, caro Filipe, é a facilidade e a frequencia com que tecem auto-elogios como o dos últimos parágrafos deste post.

ANÓNIMO-NÃO-PERTENCENTE-À-ESQUERDA-IMACULADA -DO-BE

Pedro Viana disse...

Grande confusão... a Esquerda e a Direita não se distinguem em termos de políticas nem em termos de características pessoais dos seus apoiantes. O que interessa são os objectivos que pretendem alcançar. Uma política (nem todas) pode ser de Esquerda ou de Direita conforme o enquadramento e a sinergia com outras políticas. E então essa de associar características pessoais à Esquerda e à Direita...

"As pessoas de direita são geralmente mais moralistas e mais controleiras(...)"

não necessariamente, diria até que nos países europeus mais à Esquerda que à Direita se vota com bases em argumentos morais, como justiça e solidariedade; quem se está a marimbar para os outros e só quer lhes passar por cima vota geralmente à Direita; o Filipe confunde moralidade com religiosidade (e já agora as pessoas religiosas não votam necessariamente à Direita, mas sim essencialmente as que obedecem - literalmente - a uma Igreja, e que nem sequer por vezes são intrinsecamente religiosas).

O Filipe caricatura a Direita através do Conservador-tipo, mas esquece-se que se nos EUA a maior parte das pessoas encaixam nesse perfil, o mesmo já não acontece na Europa.

O Filipe caracteriza a Esquerda através do Libertário/Anarca-tipo, mas esquece-se que muitos à Esquerda gostam de "ordem, de polícias e de militares" (e por isso põe de parte o PC, que é obviamente de Esquerda, apesar dos Estados Socialistas que defendeu terem muitos elementos que os colocam mais à Direita que à Esquerda).

Finalmente, note-se que os neo-conservadores são revolucionários, sendo por isso que são fortemente detestados por muitos Conservadores "clássicos". Os neo-cons pretendem mudar a sociedade de modo a eliminar o que eles julgam ser os seus vícios, tornando a sociedade "perfeita". Encontram-se muito perto do Fascismo. O Conservadorismo "clássico" apenas pretende voltar (se tanto, por vezes quer apenas resistir a mais mudança) a uma Era anterior "dourada" (mas que sabem ter sido longe de perfeita). Detestam a experimentação social, ao contrário dos neo-cons.

E, ainda, essa tirada sobre os ambientalistas não sei de onde saiu, mas é completamente despropositada. Se há ambientalistas que assim pensam, e provavelmente há em número muito reduzido (o que torna a "caricatura" espúria), então são de Direita. Ou o Filipe não sabe que há realmente eco-fascistas? (não estou a brincar...). No entanto, a grande maioria das pessoas que se preocupa seriamente com o ambiente são de Esquerda, por várias razões que talvez um dia valha a pena discutir.

Ricardo Alves disse...

O único valor que provavelmente quase sempre se encontra à esquerda e quase nunca se encontra à direita é a igualdade.
A direita, geralmente, ou é indiferente à igualdade ou prefere explicitamente a desigualdade.
E a atitude quanto à tradição também é uma diferença significativa...

Filipe Castro disse...

Verdade: quando escrevi "moralistas" queria dizer "puritanos".

E esta visto que deviamos trabalhar numa taxonomia dos movimentos politicos :-)

Quanto aos americanos, mesmo entre os republicanos mais rurais ha uma cultura de tolerancia impensavel na Europa.

Se ha auma coisa que distingue os europeus dos americanos e que os europeus odeiam que as coisas mudem e os americanos esperam que as coisas mudem, e acreditam que e sempre para melhor.

Por isso e muito dificil falar de conservadores aqui, pelo menos no sentido classico, dos ingleses, que como sao todos um bocado merceeiros, tem um medo muito grande da Franca e da Alemanha, dos intelectuais, do futuro, da mudanca... :-)

zorg disse...

Bastante parvo este post, particularmente a parte final. Não é habitual neste blog ver parvoíce deste calibre escrita.