domingo, 29 de julho de 2012

Marketing é manipulação

Pessoalmente sou contra restrições à publicidade que afectem a liberdade de expressão. Mas existem muitas acções imorais que devem ser permitidas legalmente, e nós devemos reconhecer que uma grande parte da actividade associada ao marketing é verdadeiramente imoral.

Efectivamente, é importante conhecermos os os truques sujos que são utilizados, para nos defendermos melhor destas tentativas de manipulação. Não deve ser a lei a proteger-nos do marketing, mas sim a informação, o espírito crítico, a estabilidade emocional, a nossa consciência. Esta não deve ser uma batalha política, mas cultural.

É nesse sentido que aqui partilho alguns destaques à entrevista que o jornal i fez a Martin Lindstrom, descrito como «Investigador, marketeer, consultor e um dos maiores gurus do branding, [...] considerado pela revista “Time” uma das 100 pessoas mais influentes do mundo [... autor do] livro “Brandwashed – Os Truques de Marketing que as Empresas usam para Manipular as Mentes”»:

«As marcas vão se tornando cada vez mais sofisticadas e começamos a ver como criam sons e sabores para chegarem ao útero. Assustador. 
[...]
As marcas dão-nos uma sensação de confiança e quanto mais pressionados nos sentimentos, mais confiamos nas marcas. Hoje sabemos que os jovens ficam mais viciados em marcas quanto menor é a sua autoconfiança e pelo caminho vão comprar ainda mais.
[...]
Como é que as empresas nos fazem uma lavagem ao cérebro?
Este é o meu sexto livro, depois de trabalhar durante 25 anos com marcas em todo o mundo, penso que é importante que os consumidores saibam o que se passa nos bastidores das empresas e ao mesmo tempo pressioná-las para que ponham a casa em ordem. 
[...]
Quais são os principais truques utilizados pelas marcas para nos manipular?
Medo e culpa. Ao incutir medo em todas as mensagens somos 10 vezes mais capazes de escolher qualquer oferta que haja por aí. O medo de envelhecermos, engordarmos, ficarmos sozinhos, ser impopulares, ter uns filhos falhados. A culpa é um vírus em crescimento, principalmente entre as mulheres. Como forma de remover alguma dessa culpa, as marcas oferecem “soluções” – muitas vezes soluções que não resolvem nada. A culpa pode ser desde “não sou uma boa mãe”, a ter “problemas com o meu corpo”, a “não sou uma boa mulher”. E a ideia é: compra a marca X e vais ser feliz.
[...]
Para o livro estudou várias marcas. Qual foi a que mais o surpreendeu?
De longe, a Carmex. É uma marca de batons que tem aditivos. Claro que a empresa argumenta que é mentira mas depois de inúmeras investigações e entrevistas com especialistas é óbvio que tem de existir um pouco de verdade aqui, porque quem começa a usar batons da Carmex não consegue parar.
[...]
Então quer dizer que sempre que compramos não o fazemos de forma racional?
Sabemos hoje que 85% das nossas decisões são tomadas inconscientemente, ou seja, feitas sem a nossa percepção. As marcas vivem nesse espaço, porque resumem-se a sentimentos.»