domingo, 19 de junho de 2011

Revista de blogues (19/6/2011)

  • «A esquerda perde e a direita ganha eleições. E ganha com a ideologia e as receitas que estiveram na origem da crise. Este paradoxo é a grande questão que se coloca aos socialistas que estão a desaparecer do poder em toda a Europa ocidental. (...) O colapso do capitalismo financeiro, que criou uma oportunidade histórica para a esquerda, está, afinal, a beneficiar a direita. O que levanta o problema de saber para que servem os partidos da esquerda, os de protesto e os de governo. É uma questão ideológica que não pode ser iludida.
    (...) O capitalismo mudou de natureza para dar lugar a um hiper capitalismo financeiro sem entrave nem regras. Mudou também o processo produtivo. Desapareceram as grandes concentrações industriais que foram a base do movimento operário. A globalização trouxe a deslocalização e a fragmentação. A representação política e sindical tornou-se mais complexa.  (...) A ideia de que não há outra saída e estamos condenados ao poder dos mercados financeiros transformou-se num novo consenso, uma espécie de fatalidade veiculada por todos os meios através dos quais se estabeleceu esta nova hegemonia. (...) “Somos pessoas, não somos mercados”, clamou-se na Plaza del Sol. A democracia está cada vez mais refém do poder dos mercados financeiros. Vinte anos depois de Maastricht, não foi a Europa social que venceu o neoliberalismo, é este que está a destruir o modelo social europeu. Está em causa saber se o socialismo ainda tem sentido ou se, como advogou um dirigente do PS, do que se precisa é de “um choque liberal”. Não pretendo deter a verdade absoluta, não sou sectário e nunca fui dogmático, mas entendo trazer a público algumas sugestões:
  • a)O PS deve manter uma atitude responsável e dialogante com o governo, mas de firme oposição a qualquer tentativa de ir mais longe do que o memorando da troika, nomeadamente contra a privatização das Águas de Portugal e da CGD. E deve impedir qualquer iniciativa que vise rever e pôr em causa os princípios fundamentais da Constituição, os direitos sociais e os serviços públicos, como o SNS, Educação, Segurança Social, Justa Causa. E deverá reponderar a privatização dos CTT.
    b)Deve recusar o papel que lhe querem impor no sentido de o encostar aos partidos à sua direita e quebrar o tabu do diálogo à esquerda com base num confronto ideológico sem complexos com o PCP e o BE. Que querem, afinal, esses dois partidos? Fazer uma revolução impossível num país imaginário ou contribuir, no quadro da democracia e da economia de mercado, para a governabilidade à esquerda, baseada em soluções que consubstanciem aquilo a que alguém chamou “um projecto de correcção”, que será, no contexto actual, a única via progressista possível? Talvez tenhamos que voltar aos velhos debates de “Reforma ou Revolução”. Recordo Olof Palme: “Fazer a revolução é fácil, difícil é fazer as reformas”. 
  • d) Espero que o próximo líder acabe com o culto do chefe, que se instalou nos partidos, e crie um espaço de respiração, liberdade e gosto pelo debate. Um partido onde se volte a discutir política. É sobretudo fundamental restabelecer a ligação afectiva com a base social. e) O PS deve articular com outros socialistas europeus a construção de uma alternativa que reponha na Europa a coesão e a solidariedade. Os povos não vão aceitar que os mercados continuem a impor a sua ganância, a fechar o futuro à juventude e a empobrecer os países, criando cada vez mais desemprego, exclusão e desigualdade. Se a esquerda não inverter esta situação, outros o farão por ela e contra ela. Não seria a primeira vez na História.» (Manuel Alegre)