terça-feira, 7 de junho de 2011

José Sócrates, Primeiro Ministro (2005-2011)

Dizem-me que Sócrates polariza. Que ou se ama ou se odeia o indivíduo. Imploro para diferir: nunca me pareceu um personagem tão interessante.

Em duas linhas dos livros de História, o primeiro governo de Sócrates constará como aquele que tentou algumas reformas arriscadas, que conduziram a seguir à perda de maioria absoluta, transformando o segundo governo, o de minoria, numa vítima fácil de uma crise económica e financeira global.

Atipicamente para um Primeiro Ministro do PS, Sócrates não deixará atrás de si nenhum grande avanço no Estado Social, como o Serviço Nacional de Saúde de Soares (e Arnaut), ou o Rendimento Mínimo Garantido de Guterres. (Ou o subsídio de desemprego e o salário mínimo de Vasco Gonçalves, que não era do PS mas que também não devia o seu poder a eleições).

No lado positivo, ficará o investimento em ciência e tecnologia, o esforço teimoso - mas limitado - para revogar alguns privilégios corporativos, e a legalização da IVG e do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Como emblemas (e algo mais, sejamos justos), o «Magalhães» e o «Simplex».

No lado negativo, a grande burrada das teimosas reformas de Maria de Lurdes Rodrigues, o reforço do poder dos serviços ditos «de informações», a política externa seguidista na qual ninguém imaginaria um Timor, e pelo contrário se viram muitos aviões da CIA com prisioneiros a passar. E, principalmente, a incapacidade de pensar a UE de outra forma que não um Conselho de Administração do continente com perpétuo CEO alemão.

Sofrível Primeiro Ministro, foi mau líder do PS e nunca tentou sê-lo da esquerda (ao invés de Sampaio, por exemplo). Preocupou-se exclusivamente com as vitórias nas eleições legislativas, desprezando a implantação do seu partido ao nível local e assistindo impávido a duas derrotas para a Presidência da República e a uma nas europeias. Pior ainda: se fosse um verdadeiro líder, teria compreendido que a partir de 2010 a sua continuidade era mais prejudicial que benéfica, e teria deixado que outro lhe sucedesse no partido (como Zapatero fez há dias, aliás).

Será um ex-PM que eu dificilmente imagino a candidatar-se a Presidente da República. Mas.

9 comentários :

  1. Gosto muito deste balanço.

    Ficou muita importante coisa por mencionar - obras públicas, compadrio, legislação laboral, reforma da segurança social, redução do défice antes da crise, aumento depois da crise, reforma da administração pública - muitos destes com o seu lado positivo e negativo, outros nem por isso.


    Mas em relação ao que escreveste, concordo com tudo, excepto que o «Magalhães» deva ser contado do lado positivo. Um grandes gasto numa situação de escassez, favorecimento de privados bem relacionados, vantagens pedagógicas duvidosas (muitas razões para acreditar numa influência contraproducente). A informatização da justiça e o aumento da eficácia no combate à fuga ao fisco poderiam ser contados no lugar deste.

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  2. do lado do estado social penso que deixas algumas coisas importantes de fora: a reforma da segurança social tendo em vista a sua sustentabilidade (pese embora, tal como no caso do rendimento mínimo, a direita agora tratará de adulterar); o complemento solidário para idosos (idem aspas aspas); e a redução do défice antes da crise estalar.

    ainda no lado do investimento positivo, esqueces a aposta fundamental nas renováveis (agora perigosamente posta em causa com um psd "nuclear") e na qualificação, talvez principal causa do nosso atraso estrutural (com as novas oportunidades à espera de serem desmanteladas pelas direita).

    enfim, cheira-me que até final do verão muita gente tenha muitas saudades...

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  3. «ainda no lado do investimento positivo, esqueces a aposta fundamental nas renováveis »

    Pois!
    Eu também me esqueci dessa, mas foi um dos aspectos mais positivos da governação Sócrates.

    Essa é que devia estar no lugar do Magalhães.

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  4. for the record, sou grande defensor do "magalhães" e semelhantes projectos envolvendo tic's na sala de aula (o quadro electrónico, etc)...

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  5. Sei disso. Lembro-me de te ter apresentado os dados que indicavam que o impacto pedagógico do Magalhães era negativo, e teres respondido, sem fundamentos (a meu ver), que as pessoas que tinham estudado esse assunto e chegado a essas conclusões eram mas era uma cambada de velhos do Restelo.

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  6. João e Ricardo,
    o texto era para ser resumido e por isso não incluí as renováveis no lado positivo (nem as novas oportunidades no negativo, que é onde merecem estar).

    Os outros aspectos que referem parecem-me mais secundários (tirando talvez o complemento social para idosos) ou conjunturais (as subidas e descidas do défice). Tentei concentrar-me em avanços e recuos que fiquem para durar, independentemente de Passos e Portas.

    Quanto ao Magalhães, dar um computador a cada criança deste país é uma marca geracional que vai dar frutos durante décadas. Se não é melhor aproveitado pedagogicamente, isso é algo que pode ser corrigido: formando os professores. Mas, mesmo com compadrios, é do mais importante que fica.

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  7. como o ricardo bem salienta iniciativas do tipo one laptop per child são da mais elementar promoção da igualdade de oportunidades. quanto ao uso das tic's na sala de aula, concordo que se não estão completamente aproveitadas, o que falha é tão somente a formação dos ... formadores.

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  8. sim a formação dos formadores na pesquisa de manga e anime

    e em partilha de fotos em poses
    variadas

    promoção da imbecilidade via internet
    é só copiar e.....

    é o jão vasquismo à escala nacional

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  9. «promoção da imbecilidade via internet
    é só copiar e.....»

    É isso que você faz.

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