segunda-feira, 13 de junho de 2011

Revista de blogues (13/6/2011)

  • «As manifestações “acampadas” de Espanha tiveram a sua versão no Rossio lisboeta. Os animadores do protesto, que invocaram o exemplo da praça egípcia Tahrir (onde se concentraram os protestos pela queda de Mubarak), reclamam-se profetas da democracia “verdadeira” -- cuja proclamação se lia em inúmeros escritos em cartão pendurados na estátua do Rossio, com relevo para “Se o voto mudasse alguma coisa era proibido” – face à “falsa” do “statu quo”.

    (...)
    Qualquer cidadão “não inscrito” naquela lógica estaria portanto impedido de decidir sobre o que quer para aquela praça; e nem pensar em, contrapondo à acção directa dos acampados a sua própria acção directa, remover o que estes entenderam ali colocar. Aquilo a que se assistiu, pois, foi uma espécie de declaração de território independente, em que mandavam os que lá estavam e no qual a pretensão de “diálogo” e “debate” se revelou um ditado sobre o resto dos cidadãos.

    Que isto se passe em nome da democracia – e “verdadeira” – e a pretexto do exemplo da praça Tahrir, em que pessoas desarmadas enfrentaram tanques e o risco de morte pelo derrube de um ditador e de um regime repressivo e portanto ilegítimo (precisando: não legitimado pela vontade de todos), faz perceber o quão é necessário pensar a forma como a democracia deve lidar com quem entenda mover-se nos seus limites. Não havendo qualquer dúvida sobre o que sucederia se um grupo de nómadas ou uma excursão de turistas ou um contingente de sem abrigo entendesse ocupar o Rossio com tendas – mal começassem a armá-las vinha a polícia e acabava-se a brincadeira – é óbvio que a tolerância evidenciada em relação aos acampados “políticos” advém dessa sua arrogada qualidade. É, pois, do colocar da expressão política acima de quaisquer outras dimensões, incluindo as da estrita necessidade, que se trata; que essa expressão pareça ter como principal alvo de protesto aquilo que se denomina como “classe política” não é pouca ironia. É que, afinal, quem acampou no Rossio atribui-se uma legitimidade de decisão representativa de que ninguém, a não ser eles próprios, os investiu. Nada mau para quem chama tirania à democracia das urnas.» (Fernanda Câncio)