domingo, 29 de Julho de 2007

Escolas públicas e privadas (2)

O João Pedro tem toda a razão quando refere a importância do ambiente em que se cresce, das conversas que se ouvem, dos amigos dos pais que vêm jantar, dos livros que há em casa, dos filmes que se vêem, dos programas de fim de semana, etc. A qualidade do ensino, por si só, não é determinante para o sucesso dos estudantes na vida profissional.

Por exemplo, uma coisa importante nas escolas privadas são os amigos. A possibilidade de controlar com quem é que os nossos filhos se dão é uma vantagem importantíssima na educação deles.

Nos anos do cavaquismo, um amigo meu, a trabalhar numa empresa financeira qualquer, perguntou a um banqueiro amigo do pai porque é que o banco dele tenha deixado sair um determinado gestor (que segundo o meu amigo era extraordinariamente competente e tinha acabado de começar a trabalhar na empresa dele). O banqueiro respondeu que o gestor em questão “era de baixa extracção”. O meu amigo riu-se e perguntou se ainda fazia sentido nos anos oitenta ser-se snob no mundo dos negócios. O banqueiro respondeu-lhe que havia pessoas que eram de confiança – “dos nossos” – e pessoas que não eram de confiança. Por exemplo – dizia o banqueiro – a seguir ao 25 de Abril, uma data de trabalhadores de longa data tinham-se identificado com a revolução e não hesitaram em atacar os interesses do banco e das empresas da família dele. Lugares de responsabilidade deviam ser dados a “pessoas de confiança, com os mesmos valores que nós.”

As amizades que se fazem nos colégios – e não é preciso haver ordens secretas do tipo dos “skull and bones” – são de extrema utilidade na vida profissional.

quinta-feira, 26 de Julho de 2007

Escolas públicas e privadas

A destruição da escola pública e o apoio à privatização do ensino de qualidade fazem parte de uma estratégia óbvia e natural da oligarquia que manda nos governos. Se os filhos dos ricos competissem com os filhos dos pobres em pé de igualdade não haveria garantias de continuidade para a situação.

Já assim é dificílimo arranjar empregos para os milhares de filhos dos políticos e dos aristocratas que, coitados, porque são mais lentos ou menos inteligentes, nunca teriam hipóteses de manter o nível de vida numa meritocracia.

terça-feira, 24 de Julho de 2007

A escola privada vive do erário público

  • «Os 59 colégios privados da região Centro que têm contratos de associação firmados com o Estado receberam 85 milhões de euros (17 milhões de contos) de subsídios públicos, pelo seu desempenho em 2006. (...) "Hoje, com a redução do número de alunos e de turmas (...), o Governo de José Sócrates desperdiça instalações e docentes ou pessoal auxiliar capazes de dar uma resposta de qualidade e com melhores resultados", argumenta o sindicato coordenado por Mário Nogueira, que também tem protestado contra o encerramento de centenas de escolas públicas nos seis distritos da região Centro» (Jornal de Notícias; via Renas e veados).

A realidade é esta: a escola privada só existe porque a pagamos com os nossos impostos. E pagamo-la porque, há muitos anos, chegava onde o Estado não conseguia. Hoje, subsidiar a escola privada com os rios de dinheiro que para lá vão tornou-se uma forma de o Estado se auto-agredir duas vezes: dando dinheiro a escolas que deveriam ser da iniciativa exclusiva dos cidadãos, para essas escolas depois concorrerem contra o próprio Estado.

Como se não bastasse, a turba neoliberal/opusiana/etc difundiu a ideia segundo a qual ainda mais dinheiro público deveria ir para a escola privada, sob a forma de «cheques-ensino», o que no fundo seria uma forma de o Estado subsidiar duas vezes o ensino privado (que ainda por cima é socialmente segregador e frequentemente difusor de princípios socio-clericais).

Há todo um combate a fazer em defesa da escola pública.

segunda-feira, 23 de Julho de 2007

Dúvida lancinante

A censura da caricatura do herdeiro da coroa espanhola não será mais um passo no caminho para a lendária (e tão assustadora) «ditadura do politicamente correcto» contra a qual temos sido tão insistentemente alertados por Helena Matos, Pacheco Pereira e André Azevedo Alves, entre outros?

domingo, 22 de Julho de 2007

Competição

  • «A Burj Dubai (Torre do Dubai), em construção desde 15 de Abril de 2005, já ultrapassou este mês o edifício Taipé 101 como o mais alto do mundo, pois chegou aos 512 metros de altura. Mas irá a muito mais do que isso, já que, segundo dados fornecidos por um dos empreiteiros, deverá chegar a cerca de 810 metros, ou seja, mais do que a altitude que em Portugal têm serras como a de Arga, Aire, Montejunto ou Ossa. O número total de pisos habitáveis desta nova maravilha dos Emirados Árabes Unidos é de aproximadamente 160, quando em 2008 ficar pronta e deixar a perder de vista os 417 metros de altura previstos para o terraço da Freedom Tower que está a ser construída no novo World Trade Center, em Nova Iorque.» (Público)

sexta-feira, 20 de Julho de 2007

O jardinismo é um salazarismo

Eu sempre achei que sim. No Portugal dos Pequeninos, implica-se isso mesmo:
  • «Gostava que fosse possível desenvolver um pensamento institucional neo-salazarista, sem complexos e sem os melros do costume. Quanto a partidos, os que existem, chegam e sobram, embora preferisse uma espécie de "UMP" portuguesa que substituisse toda a direita actualmente visível e sempre em bicos dos pés. (...) A rever-me nalguma coisa, só no PSD-Madeira que, infelizmente, não é transponível para este quadrado».
O que distingue Jardim dos seus antepassados ideológicos é estar condicionado por um regime democrático. Todavia, tem testado os limites e equilíbrios da democracia e do Estado de Direito muito para além do que se considera aceitável na Europa a oeste de Varsóvia. Em certas ocasiões, não se tem sequer coibido de intimidar adversários políticos.

O liberalismo contra a democracia

No Portugal Contemporâneo, o incrível Pedro Arroja:
  • «Se, porventura, me fosse perguntado qual a instituição que nos últimos dois séculos mais danos produziu nos países predominantemente católicos do sul da Europa e nos seus descendentes por toda a América Latina, eu não hesitaria na resposta - a democracia. (...) Na realidade, durante este espaço de 200 anos, os melhores períodos destes países, em termos de prosperidade económica, social e até cultural, não foram conseguidos sob condições democráticas, mas sob a autoridade de um césar. Para mencionar alguns exemplos, Salazar em Portugal, Franco em Espanha, Pinochet no Chile, Peron na Argentina.»

Como é que dizia o Rui A.? Que o Arroja é «o maior defensor da liberdade em Portugal nos últimos 20 anos»? Ah. Se aquilo que os regimes referidos defendiam era a liberdade, então entrámos decididamente no domínio da novilíngua...

quinta-feira, 19 de Julho de 2007

Violência e desigualdade

As estatísticas referidas no artigo anterior permitem ainda retirar outra conclusão: que cerca de 95% das pessoas detidas em Portugal por crime de homicídio são homens. A violência é uma característica violentamente masculina. Eu diria que provavelmente será mesmo esta a maior diferença comportamental entre os indivíduos da nossa espécie. E não é «culturalmente construída»: é um facto com sólidas causas biológicas. (Porque será que raramente se diz isto?)

A divisão de género da violência sexual

  • «A Direcção Regional de Educação do Norte (DREN) suspendeu, por 90 dias, uma professora da Escola André Soares, de Braga, que é suspeita do crime de abuso sexual de criança, no caso uma aluna menor de 14 anos. (...) Frisando que as situações de abuso sexual de crianças são "raríssimas" no ensino (...)» (Público; também no Correio da Manhã e no Sol.)

O que me parece «raríssimo» neste caso não é o abuso sexual professor/aluno, mas sim o ser um caso de abuso sexual mulher/mulher. Sempre pensei(*) que a esmagadora maioria dos casos de violência sexual (abuso sexual de menor ou violação) fossem homem/mulher ou homem/homem. «Violador» é uma palavra que raramente se conjuga no feminino: embora haja violações heterossexuais e violações homossexuais, o violador é quase sempre um homem. Aliás, tenho dificuldade em compreender o conceito de «homem violado por mulher». Ou mesmo o conceito de «mulher violada por mulher». Evidentemente, a ideia de «rapariga abusada sexualmente por mulher» ou de «rapaz abusado sexualmente por mulher» é mais congruente do que as respectivas violações. Mas a divisão da violência sexual entre os dois sexos está mais em quem viola do que em quem é violado.

(*) A este propósito, consultar os seguintes dados da Direcção Geral dos Serviços Prisionais [Ano (homens detidos por violação/mulheres detidas por violação)]: 2006 (201/1); 2005 (202/1); 2004 (206/2); 2003 (217/0); 2002 (331/0); 2001 (289/0); 2000 (289/0); 1999 (315/0). A conclusão é que desde 1999 até 2006 nunca houve mais do que duas mulheres simultaneamente presas, em Portugal, por crime de violação (seriam meras cúmplices?); no mesmo período, o número de homens presos pelo mesmo crime andou sempre acima dos 200, nalguns anos acima dos 300. Portanto, mais de 99% dos presos por violação são homens. Imagino que a proporção masculina de condenações por abuso sexual de menores não seja muito inferior.

Efeito de estufa

Últimos avanços científicos descartam actividade solar enquanto possível importante causa do aquecimento global dos últimos anos.

Neste momento é claro que a emissão de certos gases pela acção humana tem um poder explicativo suficientemente elevado para que se justifiquem precauções bem mais sérias que as de Quioto.

Se ao menos essas fossem cumpridas...

Revista de blogues (19/7/2007)

  1. «(...) os "liberais" não fazem a mais pálida ideia do que seja o socialismo. Como as palavras são preciosas, e como determinadas mistificações tendem, infelizmente, a fazer escola, passo a esclarecer: "socialismo" e "estatismo" não são a mesma coisa. Há socialismos profundamente anti-estatistas e individualistas, tanto historicamente, por exemplo o socialismo libertário, o comunismo conselhista, ou o anarquismo social, como no presente, e cada vez mais no presente. (...) Portanto, se o socialismo não é o estatismo, outra coisa será. A meu ver, é antes de mais a única filosofia política que se bate pela Liberdade. Mas para que os "liberais" entendessem isto, teriam de avançar um passo à frente da sua concepção redutora e minimalista de liberdade, e entender o que são relações assimétricas de poder entre os homens, e como estas são coarctoras da liberdade individual.» («O socialismo e o estado», no 2+2=5.)
  2. «O ensino de uma determinada religião numa escola pública deve ser pago ao Estado pela organização que a promove, seja católica, adventista do 7ºdia, IURD ou muçulmana (utiliza instalações pagas por todos). Por outro lado se permitirmos estas acções propagandísticas devemos também deixar a Coca-Cola ou a Microsoft fazer as suas acções promocionais. Não estamos, no fundo, a tentar vender produtos ou serviços?» («Como é claro», no Blogue Atlântico.)

quarta-feira, 18 de Julho de 2007

Revista de blogues (18/7/2007)

  1. «AS SETE MARAVILHAS DA TECNOLOGIA MODERNA (...) 1-O plástico (1907). Fez há pouco cem anos que foi inventado o primeiro plástico, a baquelite. De então para cá os plásticos têm-se multiplicado e enontram-se por tudo quanto é sítio. 2- A televisão (1923). A “caixa mágica” mudou o mundo e essa mudança poderá ter sido mais subtil do que, em geral, se crê: segundo o psicólogo norte-americano David Fluss, a televisão, ao impor certos padrões de beleza visual, alterou os hábitos de acasalamento da espécie humana (um fenómeno que poderá ter efeitos genéticos a longo prazo!) 3- O avião a jacto (1928) e a nave espacial (1957). O avião a jacto permitiu-nos realizar de modo seguro o sonho de Ícaro de voar e a nave espacial possibilitou que o sonho de Cyrano de Bergerac de viajar até à Lua se concretizasse. 4. A penicilina (1928). Foi o primeiro antibiótico e mudou a relação de forças na luta entre a vida e a morte. Eu próprio já fui invadido por uma bactéria assassina e se lhe sobrevivi foi graças aos antibióticos. Viva a vida! 5- O computador (1941) e o transistor (1947). Os computadores, ao fazerem as contas rapidamente, permitem-nos antever o futuro e precavê-lo. Hoje não podemos viver sem os transístores: eles estão não só nos computadores como por todo o lado, aos milhões e milhões, a cuidar de nós. 6- A pílula contraceptiva (1960). Significou a liberdade não só para as mulheres mas para todos. Mudou muitos comportamentos e, portanto, a nossa cultura. 7- A Internet (1983) e a World Wide Web (1991). Com a rede das redes, o mundo, que já era pequeno, ficou ainda menor. Passámos a ser vizinhos próximos na aldeia global. E começámos a habitar mundos virtuais.» («As Sete Maravilhas da Tecnologia Moderna», no De Rerum Natura.)
  2. «AS SETE MAIORES DESCOBERTAS CIENTÍFICAS DO SÉCULO XX (...) 1- A tectónica de placas (1915), porque Wegener nos fez perceber que habitamos um planeta que não só se move no espaço como tem superfícies que se movem. Regiões que hoje são frias já estiveram nos trópicos! 2- A teoria da relatividade geral (1916) porque constitui o triunfo do intelecto humano sobre o Universo: com Einstein ficámos a saber que a matéria e energia moldavam o espaço e o tempo. 3- A teoria do Big Bang (1927), que decorre da teoria da relatividade geral mas que tem sido confirmada pela observação, porque é consolador saber que o Universo teve uma origem: a eternidade, a existir, é só para a frente... 4- A teoria quântica (1926) de Bohr, Heisenberg, Schroedinger e outros, porque nos permitiu compreender as moléculas, o átomo e o pequeno coração do átomo, isto é, a matéria de que são feitas todas as coisas (incluindo nós próprios). 5- A estrutura do DNA (1953), decifrada por Watson e Crick, porque com ela começámos a ter acesso aos segredos mais íntimos da vida. Esse conhecimento já nos permite hoje viver mais e melhor. 6- A genética aplicada à sociedade (1964), porque Hamilton, ao explicar biologicamente comportamentos sociais como o altruísmo, prestou aquele que foi talvez a maior achega ao darwinismo depois de Darwin. 7- A decifração do genoma humano (primeiro anúncio de resultados em 2000), porque se tratou de uma bem sucedida grande colaboração internacional que promete grandes avanços na saúde. O futuro já começou!» («As Sete Maiores Descobertas Científicas do Século XX», no De Rerum Natura.)

terça-feira, 17 de Julho de 2007

Revista de blogues (17/7/2007)

  1. «Não se preocupem caros amigos da direita intransigente. Os vossos padecimentos eleitorais não fazem recuar a vossa influência política e ideológica. Vocês nem precisam de ganhar eleições. As vossas utopias de mercado estão bem e recomendam-se. Os poderes que contam estão nas vossas mãos.» («A direita que conta», no Ladrões de Bicicletas.)
  2. «Estou-me a convencer que este questão de quem está mais perto dos fascistas - se os socialistas se os liberais (na verdade, se calhar os liberais e socialistas estão mais próximos uns dos outros do que qualquer deles dos fascistas...) deriva muito de uma questão de perspectiva. Imagine-se que dispunhamos as várias ideologias politicas por dois eixos - um eixo igualdade-hierarquia e um eixo individualismo-colectivismo (em rigor, um eixo individualismo-anti-individualismo, já que se pode ser contra o individualismo, não em nome do colectivo, mas duma entidade transcendente). (...) alguém para quem a questão da igualdade-hierarquia é a fundamental e o individualismo-colectivismo é apenas um detalhe (...) achará que o fascismo está muito mais perto do liberalismo de que dos socialismos. Pelo contrario, alguém que considere a questão individualismo-colectivismo como a fundamental e não ligue muito à igualdade-hierarquia (p.ex., por considerar que todas as sociedades acabam por ser hierárquicas) irá achar que o fascismo está mais perto do socialismo do que do liberalismo.» («Re: Pequeno esclarecimento», no Vento Sueste.)

O PS «republicano e laico»

No domingo, uma secção local do PS mobilizou um grupo de idosos de Cabeceiras de Basto com o pretexto de o levar ao santuário católico (e fascista) de Fátima, e depois continuou a viagem até Lisboa, onde acabaram a aplaudir António Costa. Encontrei esta magnífica ilustração deste episódio anedótico no Avenida Central.

Rafael Mendoza Castillo: «El clero y el principio de laicidad»

«La historia de México nos muestra que la Iglesia Católica se considera como la institución religiosa exclusiva, para imponer a todas las gentes su creencia confesional, además siempre se ha inclinado hacia la defensa de sus privilegios en el ámbito de lo temporal. Estas actitudes dominadoras se han concretizado en verdaderas luchas políticas, guerreristas e ideológicas del clero en contra del poder público, es decir, del Estado.
La Iglesia Católica, especialmente la cúpula clerical, siempre se han colocado de lado de los poderosos y su política terrenal se inclina por el intento de dominar y someter a la República a sus intereses privados y esas acciones violentan los principios o fundamentos constitucionales, como laicidad, soberanía popular, legalidad, justicia, igualdad y libertad.


###
(...)
La laicidad no se puede entender como un medio, sino que es un principio, un fundamento que permite el fortalecimiento de la libertad de conciencia, en la que cada individuo decide, desde su autonomía, la elección de la creencia religiosa o también la posibilidad de no practicar ninguna. Como bien dice Henri Peña-Ruiz: «Laico es, pues, el sujeto del pueblo que no es distinguido por ninguna misión, por ningún privilegio, por ningún poder sobre el prójimo».
(...)
Laicidad no es ateismo, sino que ésta es una convicción más en la sociedad, que puedo elegir o no. La primera protege la libertad de conciencia y no impone a nadie creencia alguna. Lo laico reconoce la esfera pública y la privada. Tampoco se trata de que la primera se imponga y someta a la segunda. Lo laico no es integrismo, sino condición de posibilidad para que lo humano se emancipe de cualquier alienación temporal, espiritual, económica y social.
(...)»
(Rafael Mendoza Castillo no Cambio de Michoacán; ler na íntegra. De repente, também no México se volta a discutir a laicidade do Estado enquanto fundamento da República...)

segunda-feira, 16 de Julho de 2007

À atenção dos regionalistas

  • «O presidente do Governo Regional da Madeira, que suspendeu a aplicação na Região da lei que despenaliza o aborto, diz que é Portugal «quem está na ilegalidade», por aplicar uma lei que não respeita o direito à vida, noticia a Lusa. (...) Além de estar à espera da decisão do Tribunal Constitucional, o Governo Regional da Madeira argumenta ainda que a saúde está regionalizada, que o «Não» no referendo ao aborto na Madeira atingiu os 64 por cento e que a Região não tem dinheiro para suportar os custos das intervenções de IVG.» (Portugal Diário)
Os regionalistas que pensam que os direitos fundamentais, garantidos na Constituição da República, não se arriscam a ter variações regionais, deveriam meditar no que se passa na Madeira, onde os caciques locais, escudados numa maioria regional de 64%(!), pretendem vetar uma lei de âmbito nacional que regula um direito individual. Regionalizar é criar novas fontes de legitimidade política. Podemos imaginar um Portugal regionalizado, onde o catolicismo seria a religião oficial da região do Minho, as aulas de marxismo-leninismo (na escola pública) seriam opcionais na região do Alentejo (mas pagas pelo Estado), e onde a língua inglesa teria estatuto oficial no Algarve. Uma espécie de feudalismo pós-moderno...

domingo, 15 de Julho de 2007

Resultados de Lisboa

  1. Terço da esquerda: 55 157 (28%).
  2. Terço do centro-esquerda: 57 907 (30%).
  3. Terço da direita: 75 332 (38%).
Menos doze mil inscritos do que em 2005, menos oitenta e seis mil votantes, Costa com menos dezassete mil votos do que Carrilho, Ruben perde quase catorze mil votos comparativamente a 2005 e Sá Fernandes perde nove mil, mas Garcia Pereira tem mais 433 do que em 2005. O facto mais saliente à esquerda são os 20 mil votos de Helena Roseta. À direita, as duas listas oriundas do PSD perdem praticamente metade dos votos de 2005 (perdem cinquenta e seis mil votos), e o CDS perde mais de metade dos votos de 2005 (perde nove mil votos).

Política portuguesa em 2007

sexta-feira, 13 de Julho de 2007

Programa eleitoral da candidatura «Lisboa é gente»

«Conheço quase todos os problemas dos lisboetas», na página 2. Depois continua até à página 181.

Programa eleitoral da candidatura "Unir Lisboa"

Tem 61 páginas.

Programa urgente da CDU

Contém as frases «os vereadores da CDU, estiveram sempre contra tais políticas», «classes e camadas mais desprotegidas», «apoio aos mais carenciados», «benefício de camadas alargadas da população», «estreita ligação com as populações», «equipas multidisciplinares de intervenção» e «adoptar meios de tele-comunicações modernos e económicos».

Programa eleitoral de Helena Roseta

Contém as expressões «paradigma (...) dominante», «acupunctura urbana», «Conselho das Minorias Étnicas», «democracia participativa», «todas e todos», «governança» e «glocal».

Revista de blogues (13/7/2007)

  1. «A satisfação do patriarca Policarpo foi a campainha de alarme de que a reunião com o primeiro-ministro tinha corrido mal ao País. O que é bom para a Conferência Episcopal é mau para a democracia. A derrota no referendo sobre a IVG está vingada. A penitência cumpre-se em euros. (...) Não pode haver liberdade religiosa sem igualdade de tratamento para todas as religiões nem respeito pela Constituição quando o Estado abdica da neutralidade a que está obrigado e se ajoelha perante quem exibe mais força ou poder de influência.» («Audiência com Sócrates - Igreja mais satisfeita», no Ponte Europa.)
  2. «Já que estamos numa onda de pedidos ao governo, eu pedia para se cumprir a Constituição e revogar a dita Concordata. O problema do meu pedido assenta no facto de eu não poder abusar da minha influência espiritual para fazer críticas que sirvam de moeda de troca. Enfim, sou um mero cidadão da República, não conseguindo competir com 2000 anos de experiência nestas barganhas...» («Experiência profissional», no Boina Frígia.)
  3. «A ilegalidade é esta: Marques Mendes foi, em simultâneo, presidente da Assembleia Municipal de Oeiras e presidente da Direcção da empresa proprietária da Universidade Atlântica, da qual o município de Oeiras é accionista. Ora, a Lei n.º 169/99, de 18 de Setembro, não deixa margem para dúvidas. Os membros das assembleias municipais (...) não podem fazer parte do conselho de administração das empresas municipais ou dos “órgãos de outras empresas, cooperativas, fundações ou entidades em que [o município] detenha alguma participação no respectivo capital social ou equiparado”.» («Simular a leste para desviar as atenções de oeste», no Câmara Corporativa.)

...E Sócrates ajoelhou

Na reunião de ontem, o Primeiro Ministro português cedeu às exigências da ICAR portuguesa. É essa a leitura da generalidade dos media, e do próprio José Policarpo, que emergiu sorridente para anunciar que uma Concordata é um texto «constitucional», e que a legislação que resulta da Concordata fascista de 1940 deve continuar a ser aplicada até que a Concordata de 2004 seja «regulamentada».
Evidentemente, é impossível saber com exactidão o que preocupava tanto os bispos, e o que lhes foi prometido para saírem tão tranquilos. Mas se a legislação sobre as capelanias hospitalares (ou militares) esperar pela regulamentação da Concordata, que pode demorar mais dois anos, essa garantia traduz-se num adiamento para a próxima legislatura da redução da despesa do Estado nessas áreas. Registe-se que as capelanias hospitalares são cerca de 180 empregos de nomeação eclesial com salário pago pelo Estado, e que as capelanias militares são mais 46. E que ambas constituem privilégios inconstitucionais, melhor protegidos pela Concordata de 1940 do que pela Concordata de 2004. Que outros privilégios da Concordata de 1940 se manterão até 2009, à custa do orçamento de Estado e a favor da corporação católica?
O PS continua assim fiel à herança de Mário Soares, o homem que toda a vida se proclamou «republicano e laico» sem que alguma vez essa proclamação significasse um único avanço concreto para a laicidade do Estado. A tibieza e cobardia do PS é tão mais incompreensível quanto Portugal é um dos países mais secularizados da Europa latina, com uma percentagem de casamentos civis que deve atingir os 50% antes do final da década, em que há um divórcio para cada dois casamentos, e em que os jovens fogem da «Religião e Moral» assim que podem. Espantosamente, sendo a Espanha um país sociologicamente mais conservador do que Portugal, a laicização política tem avançado mais depressa com Zapatero do que com Sócrates.
É um dos maiores paradoxos dos últimos 30 anos que um cada vez maior afastamento da população perante a religião tradicional coincida no tempo com uma crescente influência institucional da ICAR. Paradoxalmente, à medida que o número de fiéis diminui, os políticos parecem temer ainda mais a hierarquia eclesiástica.
Noutros países europeus, como a Espanha ou a França, os partidos socialistas são seguramente laicistas. Para nossa desgraça, o PS português é o mais clerical da Europa ocidental. Percam o medo, caros senhores do PS (e de outros partidos...). Portugal já não é o que era.
[Diário Ateísta/Esquerda Republicana]

David Sloan Wilson: «Beyond Demonic Memes»

«(...)

Consider genetic evolution by itself. When a new mutation arises, the total population consists of one group with a single mutant and many groups with no mutants. There is not much variation among groups in this scenario for group selection to act upon. Now imagine a species that has the ability to socially transmit information. A new cultural mutation can rapidly spread to everyone in the same group, resulting in one group that is very different from the other groups in the total population. This is one way that culture can radically shift the balance between levels of selection in favor of group selection. Add to this the ability to monitor the behavior of others, communicate social transgressions through gossip, and easily punish or exclude transgressors at low cost to the punishers, and it becomes clear that human evolution represents a whole new ball game as far as group selection is concerned.
In this context, the human major transition probably began early in the evolution of our lineage, resulting in a genetically evolved psychological architecture that enables us to spontaneously cooperate in small face-to-face groups.

###
(...) The ability to acquire and socially transmit new behaviors enabled our ancestors to spread over the globe, occupying hundreds of ecological niches. Then the invention of agriculture enabled group sizes to increase by many orders of magnitude, but only through the cultural evolution of mechanisms that enable groups to hang together at such a large scale. Defining, motivating, coordinating, and policing groups is not easy at any scale. It requires an elaborate system of proximate mechanisms, something akin to the physiological mechanisms of an individual organism. Might the elements of religion be part of the “social physiology” of the human group organism?

(...)

On average, religious believers are more prosocial than non-believers, feel better about themselves, use their time more constructively, and engage in long-term planning rather than gratifying their impulsive desires. On a moment-by-moment basis, they report being more happy, active, sociable, involved and excited. Some of these differences remain even when religious and non-religious believers are matched for their degree of prosociality. More fine-grained comparisons reveal fascinating differences between liberal vs. conservative protestant denominations, with more anxiety among the liberals and conservatives feeling better in the company of others than when alone.

(...)

By my assessment, the majority of religions in the sample are centered on practical concerns, especially the definition of social groups and the regulation of social interactions within and between groups. New religious movements usually form when a constituency is not being well served by current social organizations (religious or secular) in practical terms and is better served by the new movement. The seemingly irrational and otherworldly elements of religions in the sample usually make excellent practical sense when judged by the only gold standard that matters from an evolutionary perspective — what they cause the religious believers to do.

(...)

Explaining religions as primarily group-level adaptations does not make them benign in every respect. The most that group selection can do is to turn groups into super-organisms. Like organisms, super-organisms compete, prey upon each other, coexist without interacting, or engage in mutualistic interactions. Sometimes they form cooperative federations that work so well that super-super-organisms emerge at an even larger spatial scale. After all, even multi-cellular organisms are already groups of groups of groups.

(...)

American democracy can be regarded as a cultural super-super-organism. The founding fathers realized that religions work well for their own members but become part of the problem at a larger social scale. That is why they worked so hard to accomplish the separation of church and state, along with other checks and balances to prevent some members of the super-super-organism from benefiting at the expense of others.

(...)»

(David Sloan Wilson na Skeptic; ler na íntegra.)

quinta-feira, 12 de Julho de 2007

Revista de blogues (12/7/2007)

  1. «O autoproclamado maravilhoso serviço social da igreja é tão bom, tão bom, que não é capaz de sobreviver sem os subsídios do estado. O estado paga, a igreja gasta o dinheiro como bem entende e fica com a fama de prestar os serviços que o estado não oferece. Justo, não? É por estas e por outras que a igreja continua a parecer ter um papel e uma importância na sociedade que definitivamente não tem. É o estado que sustenta essa importância, não é a sociedade, a quem a igreja é indiferente. Sustentação com subsídios e com o vergonhosamente anti-laico serviço público de televisão. Ser solidário com o dinheiro dos outros é fácil, ter canais de televisão também (já a TVI, privada, não durou muito enquanto TV católica). Chantagear o governo para que este se demita do seu papel social, contratando antes a igreja, também não tem sido difícil. Mas o que eu gostava mesmo de ver era um apoio e generosidades católicas geradas a partir de fundos católicos, e não estatais, e de preferência sem produzirem gangues assassinos. Pode ser, ou é mesmo impossível?» («Bispos ameaçam governo para conseguirem mais dinheiro», no Renas e veados.)
  2. «(...) seria um exercício jornalístico bem curioso saber o montante dos apoios públicos de que a igreja tem beneficiado nos últimos anos. Por exemplo, quanto dinheiro recebeu a U. Católica e comparar com o que não terão recebido as outras Universidades não públicas. (...) Para mim, a Concordata está no sentido oposto da interpretação razoável do espírito do art. 41.º da CRP - julgo-a materialmente inconstitucional já que subalterniza as demais confissões religiosas relativamente à ICAR. Portugal deveria denunciá-la e aplicar integralmente a Lei da Liberdade Religiosa. Claro que isso não irá acontecer, todos o sabemos. A ICAR, com a sua sabedoria milenar, sobrestou nas suas exigências até ao momento em que o Governo começou a resvalar - e logo atacou no modo e no tempo certo (o pormenor político das vésperas das eleições em Lisboa é deliciosamente revelador).» («Pois é, pois é... (III)», no Blasfémias.)

Tudo vai bem

  • «The Bush administration is to be warned today that al-Qa'eda has rebuilt its operating capability to a level not seen since 2001, it was reported last night. A stronger Al-Qa'eda has regrouped to an extent not seen since the September 11 attacks. A new counter-terrorism study concludes that despite nearly six years of war, bombings and other tactics aimed at crippling its capability, the group has been able to rebuild to an "extent not seen" since around the time of the September 11 attacks.» (Daily Telegraph)

Sócrates vai ajoelhar?

  • «Uma delegação da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) será recebida hoje, pelas 15h00, por José Sócrates na residência oficial do Primeiro-Ministro. O encontro acontece depois de, na passada terça-feira, os Bispos terem lamentado a falta de "diálogo" por parte do Governo, na relação com a Igreja Católica.» (Agência Ecclesia)

A agenda reivindicativa da CEP foi profusamente divulgada nos últimos dias: os bispos querem que as crianças passem menos tempo na escola e mais tempo nos ATL´s da ICAR (ou seja, querem ser eles a decidir os horários da escola pública), que as autarquias não negoceiem ATL´s com terceiros mas sim com a ICAR (ou seja, querem que os padres substituam os vereadores na gestão corrente das câmaras municipais), querem mais dinheiro para construir igrejas (como se já não chegasse o que recebem habitualmente), ainda mais dinheiro para a Universidade Católica (que é privada e tem um subsídio público que outras privadas não recebem), ainda mais dinheiro público para escolas privadas (mas só se forem católicas), e, a não esquecer, estão preocupados com o que vai acontecer aos cento e oitenta capelães hospitalares que têm o «direito» (inconstitucional) de andar de cama em cama a incomodar quem tem outra religião ou nenhuma, e que são pagos para isso pelo Estado. O que está em causa nesta ofensiva clerical é sobretudo o vil metal.

Sócrates, explica-lhes que a religião não é um serviço público.

[Esquerda Republicana/Diário Ateísta]

Juan Goytisolo: «Nostálgicos del Trono y del Altar»

«(...)
El actual e imparable proceso de apertura de la sociedad hispana eriza los cabellos de nuestros santos tonsurados. Sus iglesias se vacían, un creciente número de jóvenes se proclaman agnósticos y, pese a las apariciones carismáticas de los dos últimos Pontífices y la espectacular mercadotecnia a su servicio, la grey se aleja de ellos y no atiende a sus diatribas contra el funesto radicalismo que "niega la libertad religiosa". Podrían dar un ejemplo de humildad y de espíritu evangélico, pero no lo dan. Llenan sus arcas con el dinero del Estado, esto es, del bolsillo del contribuyente, ya sea católico o no, y no obstante de eso sueñan en el retorno a la alianza del Trono y el Altar. Presiden bodas principescas y de celebridades del orden de la hija del ex presidente Aznar en El Escorial, mientras privan de la facultad de decir misa a quienes se inspiran en las enseñanzas de Jesús de Nazaret en la medida en que su ejemplo pone al descubierto el fariseísmo propio y el afán de acumular poder y más poder.

###
Las leyes adoptadas en la actual legislatura responden a las realidades del cambio social y a las expectativas de la gran mayoría de españoles que les da la espalda. La simplificación de los procedimientos para abortar, la legalización del divorcio, la ley de parejas de hecho y el matrimonio homosexual no son los cuatro jinetes del Apocalipsis que amenazan, según ellos, los fundamentos de la sociedad. Quiebran tan sólo la sujeción de la conciencia de los fieles a los mandamientos de la Iglesia de Roma a través del confesonario y de la imposición de preceptos de imposible cumplimiento, como pueden ser el celibato de los clérigos y la castidad de los jóvenes. ¡No importa que el anatema contra los anticonceptivos condene a millones de africanos a una muerte lenta, víctimas del "monstruo de las dos sílabas", si sus sufrimientos en este bajo mundo le redimen de sus pecados (o de los de sus padres) y facilitan su acceso a la gloria eterna en el Más Allá!
(...)
Lo que aprendieron duramente los españoles de derechas o de izquierdas tras 150 años de guerras civiles -acabar de una vez por todas con los hechos, situaciones y doctrinas que las provocaron- choca frontalmente con el programa de Rouco, Cañizares y de los portavoces de la cadena episcopal. Si no hay clima de guerra civil, habrá que inventarlo. España agoniza, vuelven los tiempos en los que será necesario defender los principios que sustentan con peligro de sus personas (y de las de los demás). Tales dislates, repetidos a diario, no responden, para desdicha suya, a realidad alguna. Los españoles nunca han vivido tan bien como hoy, aunque quizá el porcentaje de quienes salvan su alma haya descendido un tanto desde los tiempos felices de Arias-Salgado. La tolerancia y el respeto a la libre conciencia de los ciudadanos no matan a nadie. Son los fanáticos e intolerantes de toda laya quienes manchan sus manos de sangre. Menos de la suya, claro, que de la de los demás.»
(Juan Goytisolo no El Pais; ler na íntegra.)

quarta-feira, 11 de Julho de 2007

Trate disso, caro senhor!

  • «(...) Carlos Azevedo refere a falta de apoio à construção de igrejas e a necessidade de promover políticas de natalidade. (...) Quanto aos apoios da administração central à construção de igrejas, diz que eles estão praticamente bloqueados há dois anos. "Há dinheiro para campos de futebol inscritos no PIDDAC, mas não para as igrejas", disse.» (Público)

O descaramento é enorme: não apenas quer que o Estado lhe construa o templozinho de adoração a Manitu, Alá, ou lá o que é, como além disso quer que os outros tenham filhos. E, para tudo isto, quer que o Estado ajude. Haja paciência. Se o senhor Carlos Azevedo quer construir igrejas, vá ali a Fátima (sabe onde é?): acho que uma certa igreja, parece que católica, gastou 60 milhões de euros num único templo. Peça-lhes uma esmolinha, não devem ter problemas de tesouraria (ainda por cima, consta que não pagam impostos). E se quer ter filhos, faça-os. Acorde a meio da noite, mude fraldas, compre medicamentos nas farmácias de serviço, etc. Sempre ficará a saber o que é o sorriso de uma criança...

terça-feira, 10 de Julho de 2007

Sacerdote católico implicado em genocídio


Na Argentina, o padre católico Christian Federico von Wernich sentou-se no banco dos réus pela primeira vez no dia 5 de Julho. É acusado de participar em sete crimes de homicídio e em quarenta e um de sequestro e tortura. Os crimes em que participou ocorreram entre 1976 e 1983, durante a ditadura militar de que a ICAR foi cúmplice e entusiasta de tal forma que, em 23/9/1975, o capelão católico das Forças Armadas chegou a afirmar, numa homilia em que falava de «Cristo»: «o Exército está expiando a impureza do nosso país (...) os militares foram purificados no Jordão do sangue para se porem à frente de todo o país» (outro sacerdote diria anos mais tarde que «por vezes a repressão física é necessária, obrigatória e, enquanto tal, lícita»). A repressão militar vitimou mortalmente cerca de 30 000 pessoas, num país que tinha uma população de 30 milhões. Tratou-se de um verdadeiro genocídio, que a ICAR caucionou moralmente, e em que sacerdotes católicos participaram. O padre católico von Wernich, uma peça chave do sistema repressivo, será acusado de genocídio.

Von Wernich, que era capelão da polícia de Buenos Aires, actuava nas prisões durante as sessões de tortura. Com o pretexto de prestar «assistência religiosa», e perante presos políticos enfraquecidos pelos espancamentos e pelos choques eléctricos, o padre oferecia a última tortura: a «salvação» a troco da confissão. Os seus longos interrogatórios tiveram frequentemente sucesso. Não parecia ter problemas éticos com o que fazia: quando um oficial do exército matou um oposicionista na presença de Von Wernich, este sossegou-o dizendo-lhe que «o que tinha feito era necessário; era um acto patriótico que Deus sabia que tinha sido para o bem do país». Graças aos seus mui católicos serviços, foi mesmo condecorado publicamente pela ditadura fascista. Em tribunal, tem-se recusado a dar detalhes alegando o «segredo de confissão».

A ICAR apoiou-o sempre. Quando, após o final da ditadura, se refugiou numa paróquia de província, a população protestou contra a presença do padre torcionário. A ICAR não ouviu os protestos, mas mudou-o de paróquia quando teve um caso amoroso com uma paroquiana. Conclusão: para a ética invertida que a ICAR pratica, a tortura não é condenável, mas o amor, esse sim, é intolerável.

Em 2003, um juiz argentino defensor dos Direitos do Homem pediu a sua captura. A ICAR disse que não sabia do facínora, mas era mentira: Von Wernich estava numa paróquia remota do Chile, dando missa tranquilamente. Foi capturado depois de a imprensa argentina e chilena ter descoberto o seu esconderijo. É caso para dizer que há jornalistas que têm princípios éticos que não se aprendem na missa.

(Mais informações actualizadas na Federación Internacional de Ateos; mais fotografias em atheisme.org.)

[Diário Ateísta/Esquerda Republicana]

Johann Hari: «Free speech must apply even to the odious»

«(...)

Late last year, I was invited on to a discussion on the Islam Channel with a man called Sajad Khan, who is a prominent member of Hizb ut-Tahrir. He had a nasal East London accent and a bluff populist style, talking about the "persecution" of Muslims here in Britain and offering pensive warnings of "cameras in people's bedrooms and bathrooms".
He started by attacking "secular liberal fundamentalism" which he said wanted to "impose" on Muslims "an alien way of life". I replied that secular liberalism is precisely the opposite of fundamentalism and imposition. We want you to be free to choose your own way of life, as long as it doesn't harm anybody else. If you want to spend all day in a mosque worshipping a God we don't believe in, we'll fight to the death to defend your right to do it. If you want to spend all day at an orgy, we'll fight to the death to defend your right to do that too.

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But while secular liberals will defend your right to live your way, Hizb ut-Tahrir will defend your right to live one way - their way. I started citing articles of their constitution to prove this point. Article Seven says any Muslim who changes their mind about their religion should be killed. Sajad slithered around the subject.

This is "a stereotype", he said. Really? It's a stereotype to read your own constitution? Then he spluttered: "There are another 106 articles of the constitution, why don't you read them?" Because this one involves murdering vast numbers of innocent people, for starters. In the end he had to resort to ludicrous straw men: "You say we live in a liberal utopia here ..."

(...)

I think this row, in its own tiny way, offers some signposts for the Cameron-sparked debate about whether Hizb ut-Tahrir should be banned. Any organisation that plans imminent violence within Britain should of course be outlawed: al-Muhajaroun plainly fell into that category. The only legitimate restriction on free speech is where it involves a direct incitement to kill.

(...)

A true victory over Hizb ut-Tahrir will not come through banning them. It will come from ensuring that every one of their meetings is greeted by a picket of Muslim liberals and Muslim women - people like Ed Hussain - declaring loud and proud that when "they denounce Britain as a brothel and call for a Caliphate, they do it Not In My Name."»

segunda-feira, 9 de Julho de 2007

Fim das aulas obrigatórias de religião na Noruega?

O Tribunal Europeu dos Direitos do Homem decidiu que as aulas obrigatórias de religião nas escolas públicas da Noruega violam o artigo 2º da Convenção Europeia dos Direitos do Homem. O caso resultou de sete famílias norueguesas, há 10 anos atrás, terem decidido levar a tribunal a obrigatoriedade de aulas de religião. Estas famílias perderam em todos os tribunais noruegueses, tendo decidido recorrer para o Tribunal de Estrasburgo.
Este avanço para a liberdade de consciência na Noruega poderá alimentar o debate sobre a separação entre Estado e igreja num país que mantém um regime de igreja de Estado perfeitamente anacrónico.
[Esquerda Republicana/Diário Ateísta]

Bin Laden, o Bom Samaritano

No início dos anos 80, nos hospitais de Peshawar, na fronteira do Paquistão com o Afeganistão, havia um homem que ia de cama em cama, a dar uma palavra amiga aos feridos, distribuindo chocolates e frutos secos, e tomando nota do nome e endereço de cada mujahedin. Em casa, a família destes bravos lutadores contra o comunismo ateu recebia um chorudo cheque, com os cumprimentos do senhor Ossama Bin Laden.
A prática da caridade, para a qual nunca faltou dinheiro a um dos filhos de uma das mais ricas famílias sauditas, não é contraditória com a jihad. Amor para os nossos, e hostilidade para os de fora, são os dois preceitos que asseguram a estabilidade de muitos grupos sociais. Com uma ou outra variação, e com maior ou menor clareza, esta mecânica existe em todas as comunidades religiosas. E funciona.
Bin Laden ficou conhecido como «o Bom Samaritano». Anos depois, os pobres do Afeganistão e da fronteira paquistanesa ainda se recordam dele. Sacrificou uma vida serena, com dinheiro e conforto, pela sua fé. Um exemplo.
[Diário Ateísta/Esquerda Republicana]

Revista de blogues (9/7/2007)

  1. «Em primeiro lugar, toda a discussão em torno dos custos para o contribuinte da monarquia britânica assenta num pressuposto falacioso, que é o de fazer passar a ideia de que todo o custo da manutenção do fausto monárquico passa pelo financiamento proveniente dos cofres do Estado. Assim não é, uma vez que apenas o que é alocado através da "civil list" é que entra nas contas da monarquia britânica e são esses os dados que são apresentados. O resto, os demais custos de funcionamento, são suportados pela fortuna pessoal da monarca – que, se bem se recordam, até começar a pagar impostos na década de 90 do século passado, era a mulher mais rica do país. Sucede que a dita fortuna pessoal do monarca não é senão resultado de vários séculos de acumulação de património imobiliário e mobiliário, resultante da confusão das esferas públicas e privadas do monarca. Ou seja, a riqueza pessoal do monarca, que suporta os restantes gastos da instituição, desonerando aparentemente o contribuinte, mais não é do que o produto da retenção daquilo que deveria integrar o património nacional, mas que ficou afecto à pessoa do rei (nos estados que implantaram regimes republicanos, o destino do referido património foi o da integração nos bens do Estado uma vez extinta a instituição da coroa). (...) Finalmente, ainda que as contas apresentadas espelhassem a realidade e a presidência da República custasse mais do que a monarquia britânica, a questão de fundo mantinha-se inalterada: devemos perpetuar a transmissão das funções de chefe de Estado por via hereditária, afirmando diariamente a desigualdade entre os cidadãos e promovendo uma forma de privilégio assente em argumentos irracionais, ou devemos continuar a eleger democraticamente o primeiro magistrado da República, exigindo-lhe uma prestação de contas no final do mandato e assegurando um exercício limitado, não vitalício, de funções?» («É, de facto, uma questão de valores», no Boina Frígia.)
  2. «Suponhamos, de uma forma muito imaginosa, que o Eng. Belmiro de Azevedo, e uso este nome apenas porque é muito conhecido, vinha dizer que a sua gestão da SONAE era inspirada por um deus qualquer, que teria aparecido na cúpula de um dos seus centros comerciais e lhe tinha comunicado as suas preferências através de um telemóvel Optimus. Logo seria alvo de dois tipos de epítetos, ou estava louco, ou era um grandessíssimo aldrabão, vigarista e outras coisas parecidas. Em qualquer dos casos o que estaria a fazer era tentar arranjar mais clientes para as suas múltiplas empresas. (...) Nas religiões organizadas o caso é, aparentemente, diferente, os constituintes das organizações fingem que nada ganham com o que fazem, fingindo que quem ganha são os adeptos. Se olharmos para a maneira de viver dessas pessoas verificamos que a maioria (há excepções) vive no luxo e goza de facilidades completamente interditas ao cidadão comum. Para manter esta situação todas as seitas necessitam de aumentar o número de adeptos para que as contribuições para o funcionamento da seita aumentem, e, portanto há que recorrer à publicidade. Para manter as aparências as seitas não podem pôr anúncios nos jornais ou na TV, por exemplo, dizendo que a seita X leva o adepto mais depressa para a salvação (o que quer que isso seja) sem estragar o fato. Têm que ser mais subtis, arranjam uns programas pseudo-culturais em que o objectivo é o mesmo, enviam visitantes a casa, ou abordam os incautos na rua. É isto o proselitismo. Acusar uma seita, como a ICAR, de proselitismo é o mesmo que acusar uma vaca de dar leite, ou uma águia de voar: faz parte da sua natureza e sem essa atitude não sobreviveriam.» («O proselitismo das religiões», no Croquete-matinal.)

Uma recomendação

Um sítio magnífico com perguntas, respostas e muita informação sobre a laicidade em França:

Por exemplo, esta boa explicação:

  • «La notion de «liberté de conscience» est souvent mal comprise en étant réduite au for interne, simple fait de penser ce qu’on veut sans l’exprimer publiquement. C’est évidemment insuffisant, car personne ne peut s’avoir ce qui «se passe dans la tête» d’une autre personne. L’important est bien liberté publique de conscience. Cette liberté ne peut-être «absolue», en effet, si l’Etat tolère «l’objection de conscience», aucune disposition légale ne la reconnaît et cette objection peut poser divers problèmes au regard des lois générales. Les réponses aux questions contenues dans ce thème se proposent donc d’examiner les conditions de l’exercice public de la liberté de conscience.
  • La «liberté religieuse» découle de cette liberté de conscience. Mais, même si la formule est d’usage courant, il est, en tous cas en France, impropre de parler de «une liberté religieuse» qui, par son fondement métaphysique serait en quelque sorte plus importante que les autres libertés. Ce sont les libertés de religion qui font parties des libertés publiques garanties par l’Etat, émanation de la souveraineté du peuple. Elles n’impliquent nullement que telle ou telle religion soit «reconnue» ou jouisse d’un statut spécial dans l’Etat comme c’est le cas dans certains autres pays. L’expression de ces libertés de religions peut avoir des limites, dans les conditions que les réponses aux questions contenues dans ce thème se proposent d’examiner.» (Ver aqui.)

sábado, 7 de Julho de 2007

5-leituras-5

Tinha que acontecer: fui atingido (olá, Marco!) pela cadeia memética «dizei os cinco livros que mais recentemente acabastes de ler e passai o linque a mais cinco escribas». Então, é assim...
  1. «Lords of the Horizons: a History of the Ottoman Empire», de Jason Goodwin (apenas razoável, pouco linear, muito deslumbrado com o pitoresco e muito centrado em Constantinopla e nos Balcãs);
  2. «O drama de João Barois», de Roger Martin du Gard (a única obra de ficção que li nos últimos meses, e uma excelente descrição do drama existencial de um católico->ateu anticlerical->?, na França da viragem para o século 20);
  3. «Relatórios sobre a revolução de 5 de Outubro», organizado por Carlos Ferrão (só recomendável a quem quiser conhecer os detalhes das movimentações militares que, em Lisboa, precederam a implantação da República);
  4. «A ética protestante e o espírito do capitalismo», de Max Weber (boa descrição do modo de funcionamento de alguns grupos protestestantes, mas uma decepção relativa, pois pareceu-me que as teses fundamentais seriam reversíveis);
  5. «La Laïcité», notas e organização de Henri Peña-Ruiz de um conjunto de textos sobre laicidade e clericalismo (passa por Espinoza, Hume, Bayle, Camus, Lucrécio, Vitor Hugo, Tomás de Aquino, Averroes, Jean Jaurés, Locke, Condorcet, Stuart Mill, Jules Ferry, Pio 10, Pio 9, Kant e Voltaire entre outros).

E a cadeia morre aqui.

sexta-feira, 6 de Julho de 2007

Revista de blogues (6/7/2007)

  1. «Dizia uma colega minha outro dia, comentando o governo: "Estes tipos parece que estão zangados com as pessoas". (...) De facto, Sócrates e muitos dos seus ministros transmitem esta sensação. Nunca os vemos fazendo discursos positivos, que entusiasmem, que mobilizem as pessoas para as mudanças que dizem ser tão necessárias. O que vemos é outra coisa: uma espécie de arrogância. De onde vem ela? Em parte da cultura paternalista e hierárquica portuguesa, claro. Em parte do "estilo centrão", essa espécie de alheamento da Política partilhado por PS e PSD pelo simples facto de se terem estabelecido como dois grandes centros de emprego e distribuição de benesses. Mas o PS tem uma característica específica. O seu papel tem sido - e esta é uma das poucas coisas em que o PC tem razão - o de feitor do neo-liberalismo. Um feitor é um administrador no terreno, o intermediador entre o patrão e os trabalhadores. A atitude dos governantes PS pode ser resumida assim: "Nós estamos a fazer o que é preciso. Mas somos de esquerda. Porque é que vocês, gente de esquerda, não percebem que temos razão?!" É aí que começa a zanga com as pessoas.» («A zanga dos feitores», n´Os Tempos que Correm.)
  2. «E quando (...) todos esperávamos que o Primeiro-ministro José Sócrates, tido como pessoa de bom senso ou, pelo menos, com fama de possuir um sagaz sentido político, pusesse, ele próprio e em pessoa, ordem na casa, eis que é ele, desta vez, quem apresenta queixa em tribunal contra o autor de um blogue. (...) O Partido Socialista, de um modo geral, e o Governo, em particular, têm de perceber que em todo o mundo democrático os políticos têm de se «aguentar à bronca» com os boatos, com os insultos mais ou menos pessoais e com as insinuações mais ou menos torpes ou cobardes que lhes chegam dos cidadãos. Porque isso como que «faz parte» das suas funções e é quase conatural não só ao desempenho de um cargo político como é também consequência frequente para qualquer pessoa que, por uma forma ou de outra, passa a ser alvo da atenção mediática. (...) Persegui-los criminalmente ou com processos disciplinares, é não só repisar no assunto e fazê-lo regressar vezes sem conta à ordem do dia, como dá ainda a sensação de perseguição política, de censura e de limitações absurdas e claramente ilegais por parte do Governo à liberdade de expressão dos cidadãos.» («Os filhos da puta», no Random Precision.)

No final do primeiro mandato da Comissão da Liberdade Religiosa

A Associação República e Laicidade enviou uma carta ao Ministro da Justiça onde faz o balanço do primeiro mandato de actividade da Comissão da Liberdade Religiosa (CLR). A carta destaca que a comissão que agora termina o seu mandato (nomeada por Celeste Cardona em Fevereiro de 2004) não espelhou a diversidade existente em matéria religiosa em Portugal, tendo sido deliberadamente excluídas da sua composição quer os defensores da laicidade do Estado, quer pessoas sem religião. Esta limitação traduziu-se num empobrecimento das perspectivas representadas na comissão, que foi particularmente visível nos colóquios promovidos, onde jamais foi convidado alguém que defendesse a laicidade do Estado ou uma pessoa que não tivesse religião. Efectivamente, e apesar de Portugal ser teoricamente um Estado laico, esta comissão estatal preferiu convidar oradores abertamente anti-laicistas (como Bacelar Gouveia, que foi ao ponto de confundir laicidade do Estado com ateísmo de Estado). Estive presente no primeiro colóquio promovido pela Comissão, e perguntei porque tinham sido convidados apenas oradores que descreviam os sistemas de relações entre Estado e igrejas na Alemanha, no Reino Unido ou na Espanha, e porque não era dada atenção aos sistemas mais laicistas da França ou dos EUA. Foi-me respondido taxativamente que essas perspectivas «não interessavam».

No entanto, a liberdade mais fundamental é a liberdade de consciência, que inclui a liberdade religiosa como um caso particular, mas que inclui também a liberdade de não ter religião e a liberdade de criticar a religião. Por querer restringir-se a pessoas e entidades religiosas, a CLR acabou por ver passar-lhe ao lado os debates mais importantes que neste período agitaram a sociedade portuguesa, nomeadamente sobre religião e violência, sobre a questão dos crucifixos ou sobre o protocolo de Estado. No período final, a CLR entrou em roda livre, com sugestões do seu presidente de «levar a religião às universidades», e com a proposta, no segundo colóquio, de uma disciplina obrigatória de religião. Note-se que qualquer uma destas propostas, se adoptada, afectaria os cidadãos sem religião ou sem prática religiosa (que constituem, registe-se, a maioria da população portuguesa).

A Comissão da Liberdade Religiosa, criada pela Lei da Liberdade Religiosa (2001), é formada por um presidente nomeado pelo Conselho de Ministros, três representantes das comunidades religiosas «radicadas» nomeados pelo Ministro da Justiça, «cinco pessoas de reconhecida competência científica» nomeadas pelo Ministro da Justiça, e dois membros directamente nomeados pela ICAR (que é a única confissão religiosa a que a Lei da Liberdade Religiosa não se aplica). Este arranjo é criticado pela Associação República e Laicidade num documento cuja leitura recomendo.

[Esquerda Republicana/Diário Ateísta]

quinta-feira, 5 de Julho de 2007

Conspiracionismo de direita

  • «En Novembre 2006, Christine Boutin, alors simple fidèle de Nicolas Sarkozy dans la course à la présidence de la République, est interrogée par Karl Zéro sur Canal+. L'animateur lui demande si elle pense que George Bush peut être à l'origine des attentats du 11 septembre. Christine Boutin répond par l'affirmative. La députée des Yvelines enfonce le clou en justifiant sa réponse de manière assez baroque, en usant de la théorie du plus grand nombre. "Je le pense d’autant plus que je sais que les sites qui parlent de ces problèmes sont des sites qui ont le plus (forts) taux de visite. Moi qui suis très sensibilisée au problème des nouvelles techniques de l'information et de la communication, je me dis que cette expression de la masse, et du peuple, ne peut pas être sans aucune vérité."» (Libération)

Christine Boutin é ministra do governo francês, ultraconservadora, «conotada» com o Opus Dei, e nomeou recentemente um padre para um lugar governamental. Existe um vídeo onde proclama a sua crença na responsabilidade de George W. Bush pelo 11 de Setembro.

quarta-feira, 4 de Julho de 2007

Revista de blogues (4/7/2007)

  1. «Em geral, o mercado livre dá-nos o que queremos se as partes negoceiam em igualdade. Quando «não vendo» e «não compro» são igualmente ameaçadores. Se eu digo que as bolachas estão caras demais e assim não compro, o vendedor vai pensar mudar o preço. Mas se uma das ameaças tem muito menos força não funciona. Se sou diabético e digo que a insulina está muito cara, vou esperar que o preço baixe, o vendedor ri-se de mim. Olhe que amanhã por esta hora o preço ainda vai ser o mesmo.» («Empregos, bolachas e insulina», no Que Treta!)
  2. «Tem corrido uma pequena polémica na Alemanha em torno da escolha de Tom Cruise para interpretar Claus von Stauffenberg, um dos conspiradores que procuraram matar Hitler num atentado à bomba em 1944. Tratando-se de uma das figuras que recolhe reconhecimento como alguém que tentou terminar com a loucura do III Reich (...), a escolha de um membro da Igreja da Cientologia está a ser denunciada pela família e por diversos opinion-makers. Não sou fã de L. Ron Hubbard e da confissão que criou. Longe disso. Aliás, aquilo que acho de profundamente criticável no fenómeno da religião organizada acrescem factores de mercantilização acrescida e de alguma intransigência a atirar para o fanática na vivência do culto. Contudo, daí a vetar Tom Cruise pelas suas crenças religiosas não me parece de todo compatível com os valores de um Estado de direito e de uma sociedade democrática...» («Religião minoritária», no Boina Frígia.)

Santana Lopes terá ganho fraudulentamente em Lisboa

  • «Da autoria do jornalista João Ramos de Almeida, o livro, colocado ontem à venda, é o resultado de uma investigação às autárquicas de 16 de Dezembro de 2001, em que o social-democrata Pedro Santana Lopes conquistou a Câmara e derrotou o socialista João Soares por 856 votos, contribuindo assim para a demissão do primeiro-ministro de então, António Guterres. João Ramos de Almeida, que escreveu o livro partindo das suspeitas de Alberto Silva Lopes (entretanto falecido), salienta que “alguém, algures entre o apuramento nas freguesias e a comunicação ao Governo Civil, alterou os resultados eleitorais de 27 das 53 freguesias”. “Ao nível da secções de voto, registaram-se discrepâncias significativas entre o número dos votantes descarregados nos cadernos eleitorais e os eleitores que terão votado, segundo as actas das secções de voto”, destaca a autor, adiantando que “as anomalias abrangeram 47 das 53 freguesias e cerca de metade das secções de voto do concelho de Lisboa”. O jornalista escreve ainda que o conjunto das diferenças “foi mesmo superior à vantagem de 856 votos com que a lista do social-democrata Pedro Santana Lopes venceu a noite das eleições”.» (No Primeiro de Janeiro, via Kontratempos.)

terça-feira, 3 de Julho de 2007

O Catolicismo é contrário ao Liberalismo

Na nossa praça existem muitos auto-intitulados «liberais» que são católicos. E existem outros tantos que, não sendo católicos, não vêem qualquer oposição entre o liberalismo e o catolicismo. Não vêem, mas ela existe.

A posição da Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR) face ao Liberalismo é a mesma que tem face ao Socialismo e ao Comunismo: está contra.

Eis alguns documentos em que os Papas se pronunciaram explicitamente contra o Liberalismo:

- a encíclica Mirari Vos de Gregório XVI

- a encíclica Quanta Cura e o Syllabus de Pio IX

- a Carta Apostólica Notre Charge Apostolique de São Pio X

- a encíclica de Leão XIII contra o Americanismo, intitulada Testem Benevolentiae, e a encíclica Mortalium Animos de Pio XI contra o liberalismo religioso expresso no ecumenismo modernista

- a Bula Unam Sanctam contra o princípio liberal de separação entre Igreja e o Estado

Um católico informado e coerente não pode ser liberal.

----------------------------[Diário Ateísta/Esquerda Republicana]

Caroline Fourest: «Lettre à mes amis proches de Ni putes ni soumises»

«(...) personellement, je ne serais pas choquée si Fadela Amara était devenue secrétaire d'Etat de Jean-Louis Borloo, Roselyne Bachelot, ni même si elle était devenue ministre dans un gouvernement Villepin, si elle avait une réelle marge de manoeuvre pour mettre en oeuvre une politique à la fois anti-intégriste et anti-raciste...
Mais qui peut croire sa décision anodine et sans effets sur la crédibilité de NPNS (censée défendre la laïcité et le féminisme pour tous!) alors qu'elle devient numéro deux d'une ministre intégriste chrétienne, provie, antiféministe, qui croit que Bush est possiblement à l'origine des attentats du 11/09 et se rend volontier au congrès de l'UOIF pour appeler à une union sacrée des religieux contre la laïcité à la française!


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(...)
Vouloir nous faire croire qu'il faut absoudre les intégristes chrétiens, tout en pensant que l'on reste crédible face aux intégristes musulmans, relève au mieux de la naïveté. Comment peut-on critiquer les idiots utiles de l'islamisme et traiter de "sectaire" ceux qui tentent de faire preuve de la même vigilance face à l'intégrisme chrétien? Simplement parce qu'ils se permettent d'alerter sur le sens ambigû d'un partenariat Amara/Boutin (sachant que Boutin est la chef d'Amara et non le contraire!)
Il y a quelques années, j'ai rompu avec plusieurs amis qui, après avoir combattu Christine Boutin à mes côtés, se mettaient à trouver Tariq Ramadan formidablement charismatique. Je suis prête à perdre ceux qui, après avoir combattu Tariq Ramadan à mes côtés, présentent Christine Boutin comme une "femme de coeur" formidablement sympathique. Car c'est vrai, Tariq Ramadan est charismatique et Christine Boutin est sympathique. Mais ce n'est pas le sujet! Ma vigilance porte sur leur projets de société, convergents et à l'opposé de la France laïque et féministe dont je rêve. Je les combats tous deux pour les mêmes raisons.
(...)»
(Caroline Fourest no blogue da Pro-Choix; ler na íntegra. Fadela Amara é a líder histórica do movimento feminista e laico Ni Putes, Ni Soumises, e aceitou recentemente ser secretária de Estado do último governo de Sarkozy, num ministério liderado por uma senhora do Opus Dei.)

Pelo cilício e pela obediência, sempre!

Não há como estudarmos o nosso «inimigo» ideológico para melhor o compreendermos (e nesse processo compreendermos também porque nos encontramos no campo oposto). Na sequência do aniversário póstumo do fascistóide Josemaría Escrivá (devidamente assinalado pelo Carlos Esperança), o bispo auxiliar de Lisboa, Carlos Azevedo, produziu uma homilia onde explica com sinceridade o pensamento do fundador do Opus Dei.

Tal como o entendo, o sistema totalitário que o Opus Dei constitui funciona entre dois pólos: humilhação e obediência. Pela humilhação, destroem-se ou controlam-se as vontades, prazeres, instintos e valores éticos que podem afastar a ovelha do rebanho; e assim, castrado e amansado, se prepara o cordeirinho para obedecer, tornando-o um instrumento fiel da organização e dos seus objectivos. A homilia de Carlos Azevedo começa por desdenhar dos evangelistas e do «conteúdo da pregação de Jesus», para logo chegar ao que realmente interessa nas lendas cristãs: «à tua palavra, obedecerei» (o autoritarismo típico das religiões abraâmicas é útil para construir organizações de prosélitos e de soldados). Ao longo da homilia repetem-se depois as exortações a «ser instrumento nas mãos do Pai», e termina-se a prometer até a «glória» aos que «entregam a vida intensamente a ser instrumentos da Obra de Deus». As palavras recorrentes no texto são «vontade», «instrumento», «entrega» e, curiosamente, «liberdade». Mas esta é uma liberdade muito especial: ou é a «libertação» da «lei, do pecado e da morte» (sendo que «pecado» é quase tudo o que vale a pena, e a «libertação da morte» uma banha da cobra) ou então é a «liberdade» de ser instrumento («a vida de filhos tão queridos é impelida, com autêntica liberdade a ser instrumento nas mãos do Pai»). O único agente com «vontade» ao longo de todo o texto é «Deus». A ovelha não tem vontade, e portanto não é realmente livre. A autoridade divina garante a submissão terrestre. É uma leitura esclarecedora.

[Diário Ateísta/Esquerda Republicana]

Às apalpadelas

Vejo um documentário num canal, e uns profes universitários garantem que os terroristas do 7 de Julho eram um grupo isolado que se radicalizou por conta própria. Mudo para outro canal, e os jornalistas indicam que os terroristas do fim-de-semana passado chegaram ao Reino Unido há dois anos, provavelmente já «programados» para actuar. Não há padrão.

segunda-feira, 2 de Julho de 2007

Revista de blogues (2/7/2007)

  1. «1. José Sócrates processa Balbino Caldeira por difamação (eu como governante não o faria, teria desprezado o caso no momento certo e com firmeza, mas respeito as decisões alheias e dentro da lei e das normas); 2. Balbino usa como defesa o contra-ataque anunciando querer processar Sócrates por atentar à sua liberdade de expressão (vai perder porque é um contra-senso: se não tivesse liberdade de expressão não poderia ter escrito livremente o que pensava e eventualmente o que não pensava ao longo dos últimos quatro anos, e muito menos o deixariam processar o Primeiro Ministro, se pode é porque a tem, não tendo assim pés nem cabeça esta sua teoria); (...) 4. Há um levantamento popular a favor de Caldeira, expresso através dos mais variados e inusitados meios, considerando em geral tais gentes que vivem num estado repressor (juro que me é tremendamente difícil perceber como podem pensar e dizer semelhante tal pessoas com acesso ao tudo o que é meio de comunicação e através dele condicionarem o exercício dos governos e dos tribunais como nunca tinha acontecido em nenhuma democracia);» («Caldeira, Sócrates, justiça, liberdade, Pacheco, censura, blogosfera. Esquizofrenia.», no Mas certamente que sim!)
  2. «A generalidade dos terroristas da "al-Qaeda", ou que pretendem associar-se à "al-Qaeda", são na generalidade uns amadores incompetentes. (...) E são tão incompetentes, que, na realidade quando vimos as coisas de uma forma racional, nem sequer são assim tão perigosos. (...) E como é esta gente normalmente apanhada? Ou por incompetência na hora H (o que é obviamente grave, pois se fossem competentes poderiam ter efectivamente morto muita gente), ou porque são denunciados pelo caminho, novamente, por incompetência. A realidade é que prevenir este tipo de crimes é uma tarefa de polícia e de serviços de informação, que têm que se infiltrar nas comunidades mais radicais, e nada justifica o ataque às liberdades individuais feitos nos últimos anos. A realidade é também que se queremos evitar mortes desnecessárias, em termos de alocação de recursos públicos, existem áreas onde cada € gasto vais ser muito mais produtivo que as fortunas que se têm gasto inutilmente no combate ao terrorismo (...).» («Terroristas Incompetentes», no Speaker´s Corner Liberal Social.)

Nick Cohen: «The unholy alliance that damns Rushdie»

«On 23 June 2005, Sir Derek Plumbly, the British ambassador to Egypt, wrote to the Foreign Office's political director, John Sawers, about his colleagues' determination to 'engage' with the radical Islamists in the Muslim Brotherhood. Its motto is: 'Allah is our objective. The Prophet is our leader. The Koran is our constitution. Jihad is our way. Dying in the way of Allah is our highest hope.' Hassan al-Banna, its founder, was an admirer of European fascism and its most terrible ideologist, Syed Qutb, inspired the wave of Sunni terror that is sweeping the world.

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(...)
If you haven't read The Islamist, Ed Husain's memoir of his life on the religious right, it is worth doing so because he uses his inside knowledge to describe how Labour placated reactionaries who hated every progressive principle the centre-left holds. To take one of many examples, Husain tells how his journey into the wilds began when he joined the east London mosque, which was controlled by Jamat-e-Islami, the Muslim Brotherhood's south Asian sister organisation. After his disillusionment with far-right politics, he returned to the mosque bookshop and found Qutb's work on sale: '... with chapter headings such as "The virtues of killing a non-believer" and ideas such as "attacking the non-believers in their territories is a collective and individual duty". Just as I had done as a 16-year-old, hundreds of young Muslims are buying these books from Islamist mosques in Britain and imbibing the idea that killing non-believers is not only acceptable but the duty of a good Muslim.'
(...)
Labour's indulging of Jamat and the Muslim Brotherhood is over. Engagement for engagement's sake led nowhere and ministers got nothing in return for going along with the Islamists. The MCB was too willing to blame the 7/7 attacks on Iraq, while its refusal to participate in Holocaust Memorial Day showed that it had no commitment to either multiculturalism or anti-fascism. In the end, Tony Blair, Ruth Kelly and Tony McNulty at the Home Office shrugged their shoulders and walked away. Government policy is now to support British Muslims who uphold liberal values and oppose those who do not. Rushdie's knighthood was a sign of the changing mood. Labour politicians might have tried to impose a veto a few years ago; instead, they said: 'Are we going to allow British policy to be decided by dictatorial bigots, who want to inflame religious passion to divert attention from their own corruption?'
(...)»
(Nick Cohen no The Observer; ler na íntegra.)

Democracia ou europatriotismo, a escolha aproxima-se

  • «Esquecem-se que irresponsável não é quem exige mais democracia, é quem foge a ela. Por mim, não me forcem a escolher entre os meus instintos europeístas e os meus instintos democráticos. Nesse caso, terei de preferir mais democracia com menos Europa a mais Europa com menos democracia.» (Rui Tavares no Público de hoje.)

domingo, 1 de Julho de 2007

Diálogos nas catacumbas

Nas últimas horas tenho sobretudo escrito em caixas de comentários: sobre a escola pública e os seus programas (ver aqui); e sobre a laicidade em França e o véu islâmico (ver aqui, embora as ideias de Bacelar Gouveia sobre a laicidade, ali descritas, sejam simplesmente insultuosas).