terça-feira, 10 de julho de 2007

Sacerdote católico implicado em genocídio


Na Argentina, o padre católico Christian Federico von Wernich sentou-se no banco dos réus pela primeira vez no dia 5 de Julho. É acusado de participar em sete crimes de homicídio e em quarenta e um de sequestro e tortura. Os crimes em que participou ocorreram entre 1976 e 1983, durante a ditadura militar de que a ICAR foi cúmplice e entusiasta de tal forma que, em 23/9/1975, o capelão católico das Forças Armadas chegou a afirmar, numa homilia em que falava de «Cristo»: «o Exército está expiando a impureza do nosso país (...) os militares foram purificados no Jordão do sangue para se porem à frente de todo o país» (outro sacerdote diria anos mais tarde que «por vezes a repressão física é necessária, obrigatória e, enquanto tal, lícita»). A repressão militar vitimou mortalmente cerca de 30 000 pessoas, num país que tinha uma população de 30 milhões. Tratou-se de um verdadeiro genocídio, que a ICAR caucionou moralmente, e em que sacerdotes católicos participaram. O padre católico von Wernich, uma peça chave do sistema repressivo, será acusado de genocídio.

Von Wernich, que era capelão da polícia de Buenos Aires, actuava nas prisões durante as sessões de tortura. Com o pretexto de prestar «assistência religiosa», e perante presos políticos enfraquecidos pelos espancamentos e pelos choques eléctricos, o padre oferecia a última tortura: a «salvação» a troco da confissão. Os seus longos interrogatórios tiveram frequentemente sucesso. Não parecia ter problemas éticos com o que fazia: quando um oficial do exército matou um oposicionista na presença de Von Wernich, este sossegou-o dizendo-lhe que «o que tinha feito era necessário; era um acto patriótico que Deus sabia que tinha sido para o bem do país». Graças aos seus mui católicos serviços, foi mesmo condecorado publicamente pela ditadura fascista. Em tribunal, tem-se recusado a dar detalhes alegando o «segredo de confissão».

A ICAR apoiou-o sempre. Quando, após o final da ditadura, se refugiou numa paróquia de província, a população protestou contra a presença do padre torcionário. A ICAR não ouviu os protestos, mas mudou-o de paróquia quando teve um caso amoroso com uma paroquiana. Conclusão: para a ética invertida que a ICAR pratica, a tortura não é condenável, mas o amor, esse sim, é intolerável.

Em 2003, um juiz argentino defensor dos Direitos do Homem pediu a sua captura. A ICAR disse que não sabia do facínora, mas era mentira: Von Wernich estava numa paróquia remota do Chile, dando missa tranquilamente. Foi capturado depois de a imprensa argentina e chilena ter descoberto o seu esconderijo. É caso para dizer que há jornalistas que têm princípios éticos que não se aprendem na missa.

(Mais informações actualizadas na Federación Internacional de Ateos; mais fotografias em atheisme.org.)

[Diário Ateísta/Esquerda Republicana]

8 comentários :

Anónimo disse...

Tinha q deportar 1 porco desse pra gulag.

Pedro Magalhães disse...

Mais um excelente artigo, Ricardo Alves!

Só um pequeno reparo: a população da Argentina seria de 30 milhões, não de 3.

Filipe Brás Almeida disse...

André Azevedo Alves, vem cá ver isto.

Ricardo Alves disse...

Obrigado, Pedro Magalhães. Já corrigi.

Anónimo disse...

Mandaria esses padreco safado prum centro de reeducação ao estilo URSS.

rui_amaral disse...

É como em tudo na vida, existem pessoas boas e pessoas más.
Percebo a ideia que que passar.

João Vasco disse...

«É como em tudo na vida, existem pessoas boas e pessoas más.»

E instituições boas, e instituições más. Como classificaríamos uma que tentou proteger da justiça um homem destes?

Quanto a mim, parece-me que a inquisição, o lançamento de cruzadas, a caça às bruxas, e todo o obscurantismo do pssado poderiam fazer este episódio parecer uma brincadeira de crianças. Para entendermos que a ICAR está à altura dos "bons velhos tempos" temos de entender que:

-além deste senhor, ainda tentou proteger uma catrafada de outros como ele, bem como muitos abusadores de crianças.

-em África continua a sua campanha genocida contra o preservativo

-em todo o mundo continua a fazer pressão contra a liberdade de expressão. Isto foi mais evidente quando conseguiu proibir em vários países a exibiçõ do "Código da Vinci"

-continua a lutar contra a possibilidade de divórcio em todos os países em que ele não é permitido.

-etc...

A ICAR tem muita gente boa, certamente. E isso é trágico: a forma como um mito fora do prazo de validade pode transformar uma instituição com tantos indivíduos bem intencionados numa das instituições mais perigosas e perniciosas.

Zeca Portuga disse...

Ateu cita ateu, aldrabão encobre aldrabão, e assim se constrói uma espécie de factualidade que, para efeitos de "faz de conta", serve perfeitamente.

Isto faz-me lembrar as certezas de Bush e Blair, apoiadas em sufisticadas provas da "inteligencia" americana e britância, sobre as armas do Iraque. O objectivo era assassinar Saddam e mais uma dezenas,

Mas, neste caso, já a morte dos ditos é tolerada pelos ateus ocidentalizados (e instrumentalizados pelo staff pró americano).

E as imensas torturas de Guantanamo, praticadas por um exercito laico, são desculpáveis e compreensíveis.
Outro tanto se podde dizer da carnificina anti-árabe (dos judeus e ocidental) - é desculpável, porque os árabes não prestam (segundo os governos laicos o ocidente).

Ora, da mesma maneira, e na conjuntura da época, a actuação na Argentina teve a mesma classe de legitimidade.